A outra face das redes sociais

Yasmin Talarico | Gazeta Arcadas

Parece que foi ontem que o envolvimento do Facebook no maior escândalo cibernético eleitoral, conhecido como Cambrigde Analytica, tomou conta das manchetes dos portais de notícias, mas já fazem 3 anos. Hoje, a empresa está pronta para protagonizar uma nova polêmica. No dia 1º de outubro desse ano o jornal norte-americano “The Wall Street Journal” lançou uma série[1] de artigos denunciando práticas de negligência de moderação de conteúdo da empresa Facebook, embasadas por documentos e relatos da ex-funcionária da Big Tech, Frances Haugen.

As denúncias abarcaram diversas áreas de interesse público e, mesmo que muitas delas já fossem especuladas pelos críticos das redes sociais, outras chegam a ser surpreendentes. Na primeira categoria, por exemplo, estão estudos internos realizados pela empresa sobre o efeito do uso do Instagram em adolescentes do sexo feminino, em que os dados coletados apontam que uma a cada três meninas com problemas de autoestima se sentem pior em relação ao próprio corpo após uso da rede. Já na segunda categoria, temos a revelação de um programa interno dentro do Facebook, conhecido como “XCheck”, que identifica usuários entendidos como “VIPs”, dentre eles o ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Os VIPs gozam de privilégios na rede, de modo que as regras de uso da comunidade não se aplicam a eles, assim, esses usuários podem fazer posts que de outra forma seriam considerados uma violação dos Termos de Uso e excluídos, incitando violência ou assédio, por exemplo.

Os documentos revelados apontam, também, que funcionários da empresa identificaram o uso recorrente do Facebook como ferramenta, principalmente em países do Oriente Médio, para tráfico humano, como forma de atrair mulheres. Revelam, ademais, o  uso das redes para tráfico de drogas e incitação de violência contra minorias éticas, sendo que os relatórios mostram, também, denúncias de atividades como tráfico de órgãos e pornografia. Não houve, no entanto, resposta dos cargos superiores da empresa aos incidentes.

Até as famosas “reações” da rede não ficaram de fora. Segundo os estudos internos da empresa, foi descoberto, em 2019, que posts com reações de raiva, inseridas na rede desde 2017, geravam mais engajamento, sendo que cada “raiva” valia, para o algoritmo, cinco vezes mais que uma “curtida” e, portanto, as publicações eram mais espalhadas e apareciam para mais usuários[2]. Ao mesmo tempo, os documentos mostram que as publicações com reações de “raiva” possuem maiores chances de conter discurso de ódio e informações falsas.

Se antes a maioria dessas possibilidades eram apenas especulações, as revelações e documentos revelados por Haugen trouxeram provas de que as acusações feitas por críticos de redes socais como o Facebook e o Instagram são bem mais que problemas da estrutura. O que os documentos mostraram é que o Grupo Facebook, hoje “Meta”, deliberadamente optou por não tomar medidas efetivas contra as consequências negativas de sua política como empresa. Segundo Haugen, que trabalhou como gerente da equipe de integridade da empresa de 2019 a 2021, as escolhas foram puramente financeiras, já que a alteração do algoritmo buscando uma maior segurança das redes significaria que as pessoas passariam menos tempo online, clicando em menos anúncios.

A falta de transparência e o vazamento de informações também foram os protagonistas do Cambridge Analytica[3], em 2018, que mostrou como o Facebook era utilizado para o tratamento indevido dos dados de mais de 87 milhões de usuários em 2016, direcionando propaganda política pró-Trump, à época das eleições estadunidenses. Agora, os documentos e acusações mostram que a empresa escolheu se abster de mitigar problemas relacionados a saúde mental de usuárias, crimes hediondos e perseguições políticas e religiosas.

No dia 6 outubro Mark Zuckerberg rebateu as acusações, afirmando que os documentos internos foram mal interpretados e tirados de contexto. Curiosamente, a empresa passou a utilizar estratégias de “reabilitação de imagens” para a rede social, por meio da iniciativa “Project Amplify”, com o objetivo de publicar e impulsionar histórias positivas protagonizadas pelo Facebook.

Apesar de ser a solução adotada por alguns, a prática mostra que a maioria das pessoas que hoje utiliza o Instagram e o Facebook, mesmo tendo conhecimento dos acontecimentos descritos, opta por continuar nas redes sociais. Prova disso está no fato de que, apesar das denúncias terem viralizado nos Estados Unidos, a empresa manteve seu ciclo de crescimento constante, atingindo US$ 1 trilhão em valor de mercado[4].

O fenômeno é compreensível: se hoje o mundo acontece simultaneamente online e offline, estar nessas redes gera nas pessoas um senso de pertencimento ao seu grupo social, de conectividade com outros que estão geograficamente distantes e de estar por dentro do que está acontecendo ao redor do mundo. Para muitos, é uma parte fundamental do trabalho ou da faculdade/escola. Assim, apesar de um detox das redes sociais soar tentador, é improvável que o boicote cause o fim ou até a mudança significativa delas a curto prazo. Discutir, no entanto, questões como privacidade e saúde mental online é essencial para que mais pessoas comecem a fazer um uso crítico das redes, com mais cautela sobre o que compartilham, sobre o tempo que passam navegando e sobre as comparações que automaticamente fazemos quando nos deparamos com as “vidas perfeitas” em nossas telas.


[1] https://www.wsj.com/articles/the-facebook-files-11631713039

[2] https://tecnologia.ig.com.br/2021-10-28/facebook-reacao-raiva-discurso-odio.html

[3] Saiba mais: https://gazetaarcadas.com/2021/06/21/dados-privacidade-e-aprendizado/

[4] https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,nova-crise-do-facebook-deve-forcar-industria-da-tecnologia-a-sair-das-sombras,70003863836?utm_source=Mailing+ILAB+Newsletter&utm_campaign=20771b9ba2-EMAIL_CAMPAIGN_2018_12_14_08_13_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_1ff00bd532-20771b9ba2-451746462

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