X - A RODA DA FORTUNA

— Como assim, Rodrigo? — o rosto de Mona estava lívido, tentando inutilmente
entender o que dera em mim naquele dia. Era difícil colocar em palavras. Vez ou outra o
destino mostra seu sorriso bobo, como que para nos incentivar a não desistirmos desse
jogo insensato chamado vida, só para nos empurrar de volta ao chão.
Comecei meu relato tentando parecer despreocupado para não perturbá-la ainda
mais. A situação se passou mais ou menos da seguinte maneira.


Naquela tarde, eu estava saindo de um restaurante ali no largo de São Francisco.
Pelo menos uma vez por mês eu costumava ir para aqueles ares na hora do almoço, mais
pelo costume entranhado em meus anos juvenis do que pela duvidosa qualidade culinária.
Os anos na profissão de juiz me calejaram de diversas formas, trouxeram vários
ressentimentos e esterilizaram tantos prazeres, mas felizmente não acabaram com minha
nostalgia. Pelo menos ainda não.
Ventava muito e me lembro de olhar para o céu, delimitado mais abaixo por aqueles
edifícios elevados, desgastados feito pedras no leito de um rio. O firmamento exibia traços
de um anil profundo, grandemente maculado por uma nebulosidade acinzentada,
certamente arauta de uma vindoura precipitação convectiva.
Acelerei minha saída para atravessar logo a selva urbana e chegar o quanto antes
ao fórum.
Contudo, quando estava já próximo à Catedral, uma pobre anciã me abordou. O
pequeno ser, retorcido em si mesmo numa corcunda perturbadora, trajava algumas vestes
há muito desgastadas, com o corpo adereçado por correntes, braceletes e anéis em todos
os dedos. Fiquei surpreso ao perceber que ela acabou me chamando pelo meu nome,
embora seus anos senis tivessem permitido tão somente um quase sussurro.
— Pois não? — retorqui com um olhar oblíquo.
— Vamos, Rodrigo. É importante que veja a sua sorte hoje — Seu timbre era claro e
revelava eloquência, de modo que o tom sussurrante havia desvanecido.
— Muito obrigado, senhora, mas não tenho interesse — só então percebi o pequeno
móvel ali perto: uma mesinha abarrotada de pequenas cartas, pedregulhos pontudos de
diversas cores e um cristal leitoso do tamanho de uma laranja. Fiquei preocupado ao
imaginar aquela velhinha carregando tantas coisas diante da tormenta que se aproximava.
Apressei o passo para o meu destino original, mas a mulher voltou a pronunciar meu
nome, desta vez com um quê um pouco mais desesperado, chamando atenção daqueles
que passavam ao redor.
Não sei o porquê daquilo ter causado em mim um misto de vergonha e irritação.
Talvez tenha sido o confronto entre o menoscabo que nutro por charlatões versus minha
comiseração por aquela pobre figura. Ao cabo, acabei retornando à mesinha e me precipitei
para tirar algumas notas do bolso e seguir em frente.
Estupefato, percebi que a mulher agora parecia nitidamente mais jovem do que
antes, embora extremamente enfurecida pelo meu ato apressado. Interrompeu-se apenas
para afastar as notas que eu atirarei e, emudecida, passou a manusear um baralho
dourado. As cartas eram embaralhadas num movimento cíclico e hipnotizante, projetando-
se em inúmeras direções caóticas, quase caindo das pequenas mãos da mulher, até serem
então capturadas, ocupando posições infinitas naquele emaranhado áureo.
Absorto pela cena, estanquei em minha posição, por mais que o vento estivesse
aumentando, acompanhado por uma garoa fina.

Por fim, a taróloga posicionou o monte numa extremidade da mesinha e, num
movimento fluido, passou a mão para a ponta oposta, tecendo uma linha enfileirada com as cartas voltadas para baixo.
Agora jovem e com um olhar altivo, ela olhou para mim em desafio, ainda em
silêncio, e então fez uma tiragem de quatro cartas, posicionando-as embaixo de pequenos
cristais para que o vento não as levasse embora. Lembro nitidamente de na primeira haver
uma mulher com dois jarros, em frente a um rio, acima pairando um céu estrelado. Na
segunda, uma estrutura circular destacava-se, com três seres em cada uma das posições
da roda. A terceira carta era um ás amarelado, cercado por formas cintilantes. Por fim, na
última imagem eu vi um homem poderoso, trajando um cetro e escudo, mas a carta estava
invertida.
— Sua sorte é boa, Rodrigo, mas o seu azar é ainda maior.
Só depois de dizer essas palavras que a jovem pegou o dinheiro colocado no
minúsculo tablado. Passou então a arrumar rapidamente os inúmeros objetos dentro da
própria mesinha, que se desdobrou numa mala de mão. E assim, com uma destreza quase
infantil, aquela figura passou por mim levando consigo meus duzentos réis e o resto de
sossego do meu dia.
Quando me dei conta, a chuva já estava engrossando, pontuada pela iridescência de relâmpagos e o ribombar de trovões. Corri para o local mais próximo para me abrigar. Um
pouco aliviado por não ter sido encharcado, recostei-me contra a parede e fechei os olhos,
ainda tentando processar aqueles acontecimentos de ora pouco. Ao acordar, percebi estar
numa casa lotérica, um ambiente com painéis repletos de raspadinhas coloridas, carnês
anunciando infindáveis prêmios e, no meio disso tudo, uma grande faixa anunciando o valor da loteria a ser sorteada ainda naquela quarta-feira.
Não deu outra. Levantei-me para comprar tudo que eu podia naquele estabelecimento só pra provar o quão errada estava aquela mulher. Adivinhações não passavam de mera exploração da fraqueza emocional e intelectual dos outros. Ao menos era isso que eu pensava.
Infelizmente, o meu dinheiro só era o bastante para comprar um único bilhete da
loteria. No entanto, a simpática atendente não hesitou em acrescentar uma pequena
raspadinha de brinde. Um clarão repentino passou por mim, acreditando estar ali a prova
irrefutável de minha sorte. A raspadinha tinha que estar premiada.
Sorridente, disparei em direção ao meu gabinete, pouco me importando com a
chuva. Encharcado e com as mãos tremendo, alcancei um peso de papel metálico e passei
a raspar cada um dos quadradinhos, quase em ar de reverência a qualquer divindade que
estivesse me abençoando naquele momento.
Não demorei muito até, por fim, depois de examinar todos os cantos daquela maldita
folha, maldizer tudo e todos por meu fracasso.
Depois de algumas horas refletindo, quando finalmente resolvi voltar para casa,
passando em frente a alguns pedintes, decidi atirar para eles o restante de moedas que eu
carregava. Ao resgatá-las de meu bolso, nem um pouco animado, percebi estarem
acompanhadas também dos papéis que adquiri mais cedo. A raspadinha totalmente
amassada e o bilhete da lotérica. Achei quase cômico que os números do bilhete fossem os
da minha data de aniversário e os de minha esposa. Mas, ainda assim, não fazia sentido
guardar aqueles objetos. Eu queria apagar a angústia daquele dia e acrescentei tudo aos
trocados que doei aos mendigos.
Depois de terminar o relato dos acontecimentos, suspirei fundo.

— Foi isso que se passou hoje, Mona — arrematei.
Ela, em meio a um soluço copioso e engasgado, segurando o jornal que anunciava o
prêmio milionário de loteria para um casal de moradores de rua, respondeu:
— Você tinha que ter guardado o bilhete, Rodrigo!
Apenas olhei para o chão enquanto media meu azar. Maldita cartomante.

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