“Na bagunça do seu coração, meu sangue errou de veia e se perdeu”
Chico Buarque
Tudo. Tudo quanto existe nas noites silenciosamente sonoras são ecos dos gritos de amores vividos, morridos e nunca antes tidos. São fragmentos refratários à unidade luminosa do amor; do amor que tenho, do amor que tive, do amor que terei e do amor sonhado, nunca experimentado.
Tudo que sobrevive a uma noite fria são peças que completam o gigantesco quadro de
Julieta e Romeu, de Iracema e Moacir, de Cecília e Peri, de Babiana Terra e Rodrigo Cambará, de Eros e Psique; mas também o sombrio cenário de Alcmena e Zeus, de Hércules e Mégara, de Elio e Oliver, de Riobaldo e Diadorim. Todos, amores vividos, pois sentidos; mas poucos foram os amores voadores.
Talvez, um amor desses do cenário sombrio tenha voado muito mais do que os que formam
o belo quadro. Um amor perfeito, sem desafio, sem nenhuma negatividade no caminho, se faz, por si mesmo, fixo ao chão. Um amor perfeito é, portanto, um amor de raízes. É um amor perene, forte, frondoso e que ocupa muito espaço.
O amor imperfeito, aquele que falta, aquele em que se vive a eterna esperança de se viver,
é, por outro lado, um bicho feio, franzino, mas alado. É um bicho que voa alto e longe em busca de tornar experimentável o nunca antes realizável. É um bicho que come pouco, mas basta um pouquinho de alimento para lhe dar força e motivo de voar muito mais. Um sinal, um beijo, uma noite, uma imagem, um sonho já são suficientes para dar vida eterna ao nosso bicho quasímodo.
Não corramos o risco, aqui, de fazer uma ode ao amor escravo, longe disso. O amor escravo
percebe-se como irrealizável, sabe que é impossível, mas permanece existindo como um favor ao sofrimento. O amor imperfeito, de sua feita, percebe-se como possível, como o sonho concreto vivido, mas não experimentado; como a esperança de viver o que pode ser, mas ainda não foi. O amor imperfeito voa para o futuro, mas sustenta-se do passado percebido, tardiamente, como o terreno propício para se edificar.
O amor imperfeito zanza pelos lugares, permitindo-se perder-se dentro de cada coração em
que acha que pode haver chance de construir o que já era para ter sido construído, mas não foi. O amor imperfeito é o único que pode se perder sem morrer, pois seu fundamento é, justamente, perder o passado realizável e apostar no futuro tão incerto.

