Salomé e as últimas palavras

Naquele dia, entrei de uma vez no galpão, ansioso como uma criança. Quem me culparia por esse comportamento pirralho? Foram três anos de privações, três anos de nutrição da minha obra-prima, que me tornaria aquilo que Flaubert foi para a Literatura, a Mãe das Mentiras.

Lembro bem que acendi as luzes e, em poucos instantes, a grandiosidade da minha criatura me alcançou. Perdi o equilíbrio, enfeitiçado como eu estava por aquilo. A minha Salomé era perfeita! A própria filha de Herodíade, se ali estivesse, não chegaria aos pés dela: demorei-me dois anos para tecer o tafetá carmesim e um na preparação do cenário…, bem, todo tempo bem empreendido jamais é gasto.

Corri para o toca-discos e aprontei a obra homônima de Strauss para me acompanhar na minha abertura. Confesso que hoje isso me soa pedante demais, mas nada seria tão apropriado naquela ocasião quanto a sua ópera para esgotar a história de Salomé nas Belas Artes – comigo na ponta, é claro. Então, eu só precisava retocar o rosado das bochechas da minha Salomé antes de metê-las no seu palco.

Ainda assim, eu me antecipo, como sempre…, descrevamos o cenário!

O galpão branco me dava toda a ausência de que precisava, concentrando o olhar do público para Salomé tão logo se passasse pelas portas de entrada. A partir daí, a escultura cumpriria o seu papel: o tafetá parecia flutuar, quase que por mágica, preso por fios
transparentes que iam dele para os dois vértices superiores da parede detrás de Salomé. Como o tecido era longo, um rio vermelho e estático dá justamente a imagem que eu havia
conseguido criar ali. À sua frente, Salomé estaria nua, também suspensa por fios, com os braços abertos e os pés na quarta de Beauchamp, em en dehors.

Seria outra gasta e entediante releitura da história de Herodíade se eu, como o próprio São João Batista, não me insurgisse contra ela: em vez da cabeça do santo, seria a de Salomé na bandeja de prata, o metal trinta vezes maldito. A descrição não faz jus ao objeto, acreditem!

Contudo, a ópera estava prestes a terminar e eu ainda relutava em finalizar a minha.

Por óbvio, eu separaria a cabeça somente alguns momentos antes da exposição, para não ser descuidado a ponto de perder a vitalidade do material se eu o deixasse ali, ao ar livre, por dias ou horas a fio. A obra estava praticamente terminada, mas eu…, eu me sentia inacabado! Depois de tudo, eu sabia – e já havia feito as minhas pazes com isto – que não haveria retorno…, então, não era medo, não: era angústia. Angústia de ver o que certamente
seria a minha magnum opus separada de mim, da minha mente, e dada ao mundo, sem mais nem menos!

Outra vez era o pirralho quem falava, porém, como vocês descobriram, também o superei. Daí em diante, as memórias me escapam: sei que abri a maleta de trabalho, retirei o estilete e o passei cuidadosamente em volta do pescoço da escultura, tendo sucesso em fazer um corte limpo, ainda que os fios que suspendiam Salomé se mexessem terrivelmente durante o procedimento. Com a cabeça finalmente em minhas mãos, pu-la na bandeja e a segurei próximo do meu peito. O que eu senti…, era indescritível.

Nesse momento, a exposição foi aberta!

O público entrou num turbilhão de uniformes, todos tão ansiosos quanto eu mesmo fiquei naquele dia, mais cedo, depois de fazer a denúncia anônima – muito pontuais, inclusive, como nós esperamos que sejam.

A comoção foi tremenda! Eu a vi jorrar dos seus olhos e – para os mais frágeis, mas não menos merecedores da minha satisfação criativa – dos seus estômagos. Dois deles se aproximaram, gritaram algo que até hoje não sei bem o que era, e tomaram a bandeja das minhas mãos, que foram algemadas.

Como o resto da história será facilmente encontrado nos jornais, pelos meus leitores,
e como tenho pressa para chegar ao meu destino, finalizo aqui o meu registro.

Estou pronto para o corredor.

18 de junho de 2010, Agência penitenciária de Utah, EUA

Aurélio Hippo Regius

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