A história mágica do Sesc Pompeia: uma conversa com Fábio Malavoglia

Uma corista, Fábio Malavoglia e Cida Moreira no Sesc Pompeia em 1983. Fonte: acervo pessoal de Malavoglia.

Muito já foi dito sobre a história arquitetônica, institucional e social do Sesc Pompeia. Mas poucos conhecem sua história mágica. O poeta, jornalista e radialista Fábio Malavoglia, que fez parte dela, conta os detalhes da sinfonia de circunstâncias que transformou o lugar num foco cultural, orquestrando performances, eventualidades administrativas e até um filme no calço da cama de Goffredo Silva Telles Jr.

O ano era 1982. A vida cultural em São Paulo efervescia, às vésperas do fim da Ditadura. Quatro jovens haviam acabado de ser aprovados, por concurso, para serem orientadores sociais (ou produtores culturais, no jargão de hoje) na administração do Sesc. Àquela época, o Serviço Social do Comércio era muito mais conhecido por suas quadras do que por seus palcos, pois era o lazer esportivo que dava à instituição o público que ela necessitava. Para equilibrar esse cenário, o destino compunha os movimentos de um concerto imprevisível. Para performá-lo, lá vinham os novos agentes culturais - dentre eles, o efusivo e baixo-barítono Fábio Malavoglia.

Muitos devem conhecê-lo por sua voz potente e vasto repertório poético, registrados por exemplo no programa RádioMetrópolis, que ele apresentou na Cultura FM. Nascido em Milão, Fábio chegou com a família em São Paulo ainda criança. Sem compreender uma palavra da língua portuguesa, começou escrevendo ‘vírgula’ por extenso nos ditados da escola. Depois, a paixão pela leitura fez dele um devoto da última flor do Lácio, marca registrada de sua carreira como escritor e comunicador. No início dos anos 1980, egresso da ECA tendo passado pela FAU, Malavoglia apresentava sua pena à administração do Sesc.

Se tudo corresse como planejado, Fábio e os outros recém-concursados deveriam passar os primeiros meses trabalhando nas unidades do Sesc do interior do estado, e só depois poderiam ser transferidos para a capital. A sinfonia começa aí. Primeiro movimento: por uma inovação inesperada da direção do Sesc, os novos agentes permanecem na cidade de São Paulo. Curiosamente, o poeta é designado para a unidade da Pompeia, que durante o treinamento de integração havia lhe provocado grande encantamento desde sua primeira visita às obras incompletas da fábrica abandonada, que Lina Bo Bardi se encarregara de transformar em um Sesc.

Até aí, a história pode não parecer muito impressionante. Afinal, desejos improváveis são satisfeitos todos os dias. Os próximos fatos, no entanto, começam a agregar para sua dimensão mágica. Segundo movimento: por um atraso enorme causado pela burocracia da prefeitura, aquela seria a primeira unidade do Sesc a ser inaugurada sem que as estruturas esportivas estivessem prontas. Isso criou oportunidades inéditas para seus programadores culturais, mas ao mesmo tempo gerou dificuldades de público (já que a maioria das pessoas frequentava o Sesc por conta das quadras). Pompeia também ainda não era a região povoada por prédios que é hoje, então era necessário criar atrativos para deslocar as pessoas à nova unidade.

Isto posto, ainda naquele ano de 1982, uma janela se abriu na programação da unidade. Após o término antecipado da temporada da peça “Filhos do Silêncio”, de Irene Ravache, que havia atraído tanto público quanto se podia esperar (as pessoas entravam no teatro por uma porta separada), o espaço vagou como uma tela em branco. Malavoglia, a postos, foi o encarregado de pintá-la. Sabe-se lá quais convulsões astrológicas se fizeram presentes naquele momento, mas uma forte intuição guiou o poeta até a concepção de um evento sem precedentes. Inspirado num trabalho de Regina Vater, artista brasileira que se autoexilou em Nova York nos anos 1970, a equipe do Sesc chegou a um conceito que confluiria diferentes manifestações culturais de São Paulo: a performance.

Terceiro movimento: as 14 Noites de Performance. Ainda que, naquele começo dos anos 80, a palavra “performance” fosse usada muito mais no sentido de ‘desempenho’ (no maior afã yuppie), a ideia de performance enquanto ato cultural deu origem a uma efeméride artística que ocupou o Sesc Pompeia durante 14 noites, que incluía nomes como o ator Patrício Bisso (que abriu a primeira noite com sua personagem Olga Del Volga, sexóloga avant-la-lettre), o pintor Ivald Granato, a banda Gang 90 & As Absurdettes (de Júlio Barroso e May East), a dupla Arnaldo Antunes & Gô, o grupo experimental de teatro Viajou Sem Passaporte, o trio de artistas multimídia 3NÓS3 (Hudilson Jr., Mário Ramiro e Rafael França), e muitos outros.

O panfleto do evento, criado por Victor Nosek, apresenta a mesma estrutura semiótica que resume a proposta cultural do Sesc até hoje: um modelo de programação baseado em diversidade. Os releases da jornalista Adélia Borges, chamada para dar apoio de imprensa, chegaram às mãos de Leonor Amarante, então repórter de cultura do jornal O Estado de São Paulo, que ficou fascinada com a inventividade da iniciativa, e concedeu 14 artigos, um para cada uma das noites de performance. Resultado: o Sesc Pompeia lotou, como nunca antes, de pessoas curiosas com a explosão cultural que estava acontecendo no local, que acabou virando um point. “Foi o primeiro grande projeto criado dentro do Sesc Pompeia, e que fez dele um lugar de encontro”, relembra Malavoglia.

Panfleto original das 14 Noites de Performance. Fonte: acervo pessoal de Fábio Malavoglia.

Dentre as performances que se destacaram, estava um artista visual que viria a se tornar mundialmente famoso: o argentino León Ferrari, com suas Percantas (estruturas metálicas de até 3 metros de altura) que emudeceram o público quando o artista usou um arco de violino para fazer as esculturas cantarem; e a abertura de Patrício Bisso, com sua personagem icônica Olga del Volga (uma sexóloga russa, que dá conselhos hilários).

Com o sucesso do evento em 1982, logo foi encomendada uma segunda edição em 1983. Já que mentes criativas costumam não gostar de fazer coisas exatamente iguais, o coordenador de programação acrescentou novos elementos às noites de performance: a interação com o público. A edição de 83 foi inaugurada com a “Abertura em Negro”, uma cerimônia de terror dirigida por José Mojica Marins (o Zé do Caixão), e terminou com uma “Festa à Fantasia” animada por ninguém menos que Tim Maia e sua Banda.

Notas na imprensa sobre a abertura das 14 noites de performance de 1983.

E as performances não deixavam a desejar: houve um Cabaré, com sapateado, can-can e coristas; um show de ilusionismo, com levitação, escapismo e pirografia; “A Luta do Século”, demonstrando combates de diversas origens; um show circense, com domadores de leões; bandas de heavy metal; “Kashba”, uma noite oriental com danças beduínas e comidas típicas; o grupo de teatro Ornitorrinco cantando Brecht e Weil; “Uma Noite em Las Vegas”, que recriava um cassino com diversos tipos de jogos; e coisas mais.

À esquerda, Fábio e uma corista, e o momento do Can-Can no Cabaret. À direita, o programa de duas performances.

Mas o ponto culminante da sinfonia mágica foi a exibição do filme “Napoleão”, de Abel Gance (1927), como parte das 14 Noites de Performance de 1983. Trata-se de um épico francês em três telas, cada uma com uma cor da bandeira da França, organizadas em uma disposição panorâmica que antecedeu o cinerama. Neste ponto, misticamente, a história se entrelaça um pouco com a do Largo de São Francisco. Isto porque, durante a organização da segunda edição, Goffredo Silva Telles Neto (o Goffredinho, filho do insigne professor das Arcadas e da lendária Lygia Fagundes Telles) procurou Malavoglia, com a ideia de exibir o filme, que por muitos anos seu pai tinha guardado num local improvável. O professor Goffredo possuía uma cópia, em acetato, e a utilizou por muito tempo como calço de sua cama. Dali tinha passado como herança para o acervo da cinemateca brasileira. A ideia de Goffredinho era promover uma exibição como forma de atrair patrocínio para pagar sua conversão para celuloide (o acetato é altamente inflamável) e, simultaneamente, o Sesc promoveria a uma exibição de um filme histórico, em uma experiência muito inovadora.

Não só foi possível, como também teve um estrondoso sucesso. Talvez os sonhos do autor d’A Folha Dobrada tenham carregado o filme com uma magia ancestral, ou simplesmente o acaso tocou mais um acorde de sua composição. O fato é que a exibição de “Napoleão” no Brasil foi antecedida, uma semana antes, por notícias de restauração de outras cópias em Nova York (em produção de Francis Ford Coppola), e na Europa, simultaneamente. “Quem viu de fora teve a impressão de que nós estávamos informadíssimos do que estava acontecendo no mundo”, comenta o poeta, “mas não foi nada disso!”.

Reportagem de 1983, do Jornal da Tarde, que fala da exibição de Napoleon em Paris e em NY, e o programa de sua exibição no Sesc.

Esses são os movimentos da sinfonia de circunstâncias que transformou o Sesc Pompeia em um foco cultural da cidade de São Paulo nos anos 1980, cujo melhor paralelo talvez fosse o Circo Voador, no Rio de Janeiro. Convém chamá-los de uma história mágica, para quem experiencia este tipo de coisa, pois as linhas que unem os seus eventos vão além da lógica e da racionalidade - há uma grande medida de improvável, de intuitivo, de mágico. “A explicação que eu tenho para isso é a natureza mágica da arte.”, desenvolve Fábio. “Para que uma obra seja viva, é necessário um espasmo de amor. O xamã primitivo fazia da pintura rupestre um feitiço de caça, do mesmo jeito que o pintor renascentista imantava uma vênus com a essência da vida. Nós estávamos imbuídos de uma energia espiritual que fez tudo acontecer no Pompeia, e como tudo o que está vivo, aquilo procriou”. 

À esquerda, Fábio anunciando Tim Maia no palco da Festa à Fantasia. À direita, o poeta no palco da Kashba.

Por fim, ele deixa um recado para as novas gerações: “Se você quer criar obras vivas, você tem que entregar tudo. É preciso ser tomado pelo entusiasmo; isso que está na antiga tradição hermética, na alquimia, na cabala: é um ato mágico. É um potencial que o Homem tem, que está muito além da sua racionalidade lógico-dedutiva. Essa racionalidade não precisa ser abolida, mas deve ser ampliada para incluir aquelas outras dimensões que fazem parte do ser humano e de sua criação. O poeta é isso, o artista é isso. E eu espero que os advogados venham a ser isso também”.

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Os acontecimentos narrados nesta matéria foram tema de uma entrevista por videoconferência concedida por Fábio Malavolgia a Antônio Vianna, em 22/07/2020 (aniversário deste último). Aos que se interessarem, o poeta tem contado outras histórias mágicas, fábulas e mitos no Inspira 2020, encontro zoom-poético que acontece aos sábados, e que têm sido um parênteses de alegria e inspiração em tempos de pandemia.

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