Tempo de Leitura: 8 minutos

Ao tratar da pós-graduação, um dos assuntos que logo nos vem à mente é a internacionalização. Em um mundo cada vez mais globalizado e com redes de pesquisa internacionais, trata-se muitas vezes de uma necessidade. Hoje, iremos abordar os vários aspectos diferentes do assunto.

Antes de mais nada, o conceito de “internacionalização” não possui um só sentido – podemos estar falando de pessoas do exterior que vêm cursar a pós-graduação no Brasil ou, pelo contrário, de um período que estudantes brasileiros(as) passam no exterior durante a pesquisa de mestrado ou doutorado. Iremos aqui nos ater a esse segundo aspecto, isto é, de mobilidade internacional dos(as) pós-graduandos(as) brasileiros(as).

A primeira possibilidade é a de obter uma dupla ou múltipla titulação, que consiste na obtenção do título de mestrado ou doutorado pela USP e de um título por outra instituição estrangeira ao mesmo tempo. É um processo mais comum no doutorado e que envolve dois passos: (i) encontrar uma instituição estrangeira e um(a) orientador(a) e firmar um convênio entre a USP e a instituição internacional parceira [1] e (ii) cumprir os requisitos em ambas as instituições (em geral, integralizar créditos e defender a dissertação ou tese). É importante ficar atento para o fato de que os requisitos variam conforme o programa de mestrado ou doutorado da instituição estrangeira, que pode exigir mais de uma defesa do trabalho (na USP e no exterior), a elaboração do trabalho em determinada língua, etc. [2]

A segunda possibilidade é ir ao exterior como pesquisador(a) visitante, que recebe o nome de visiting researcher (visiting scholar, research scholar, etc.; a denominação varia conforme a instituição). Nesta modalidade, o(a) pós-graduando(a) não recebe nenhum título pela estadia, mas pode utilizar a estrutura da instituição (biblioteca, restaurante universitário, dormitórios, etc.) e participar de aulas, cursos, atividades e grupos de pesquisa. As instituições que recebem pesquisadores(as) visitantes podem ser tanto universidades estrangeiras quanto centros de pesquisa e organizações internacionais (como, por exemplo, o Instituto Max Planck ou a Organização Mundial do Comércio – OMC).

Nesse caso, é possível estabelecer um vínculo formal com a instituição quando esta oferece processo seletivo específico para receber pesquisadores(as) visitantes, o que ocorre uma ou duas vezes ao ano – lembrando que as instituições norte-americanas e europeias iniciam o ano letivo em setembro, por isso os referidos processos seletivos ocorrem em uma época não muito usual para nós. O mais indicado é ficar atento aos prazos da instituição que se pretende submeter a candidatura.

No doutorado, o período como pesquisador(a) visitante é chamado Doutorado Sanduíche no Exterior justamente por implicar que o pesquisador viaje no meio da pós-graduação, sendo necessário que volte para terminar a escrita da tese [3]. Por isso que bolsas específicas para esse tipo de mobilidade exigem o retorno do(a) aluno(a) e, inclusive, que este(a) não viaje para o exterior por alguns meses depois de sua volta. Há outros casos em que para ser um(a) pesquisador(a) visitante basta a anuência de um supervisor por meio de uma carta ou manifestação por escrito, sem que se dê muita atenção à burocracia. Essa mobilidade mais informal ocorre, principalmente, em universidades da Europa continental. De todo modo, a vantagem de ser um(a) pesquisador(a) visitante é que este(a) não fica preso aos requisitos do programa no exterior e pode aproveitar a oportunidade para utilizar as instalações e estabelecer vínculos com pesquisadores(as) de todo o mundo (o conhecido networking).

É possível ir também ao exterior de modo independente, isto é, sem vínculo com a instituição e/ou sem a supervisão de um(a) professor(a). Isso ocorre quando o(a) aluno(a) tem necessidade, por exemplo, de utilizar uma determinada biblioteca ou arquivo, imprescindível ao desenvolvimento do seu trabalho.

Outra possibilidade que não é incomum aos(às) formados(as) em Direito é fazer um LLM durante a pós-graduação. Trata-se de um programa oferecido por universidades estrangeiras (geralmente da Common law) que possui duração de 1 ano e voltado mais à atividade profissional do que acadêmica. É uma ótima escolha para quem já está inserido no mercado de trabalho e quer melhorar seu currículo e fazer networking. Como o mestrado e doutorado na FDUSP têm duração de 3 anos, os(as) alunos(as) aproveitam para fazer o LLM no 2º ano. Apesar de o LLM não ser primariamente vinculado à pós-graduação (você pode fazer mesmo sem estar no mestrado ou doutorado), pode ser uma oportunidade de agregar conhecimento à sua pesquisa. Contudo, é aconselhável que se finalize os créditos antes de iniciar o LLM, visto que o aproveitamento de disciplinas no exterior ainda deverá passar pelo crivo da Comissão de Pós-Graduação (CPG) e isso demora um tempo [4].

Vistas os diferentes tipos de mobilidade internacional, algumas questões práticas merecem atenção.

A primeira é: como encontrar a instituição estrangeira ideal? Para tanto, acreditamos que primeiro você deve escolher o tipo de modalidade que quer fazer. Em seguida, entre no site das universidades estrangeiras e colete o maior número de informações – muitas vezes, as universidades possuem critérios iguais ou parecidos (determinada pontuação no exame TOEFL ou IELTS, por exemplo). Por fim, prepare sua candidatura (application) e sempre fique atento aos prazos.

Caso você opte por ser um(a) pesquisador(a) visitante, a tarefa mais difícil será contatar um(a) professor(a) da instituição. Várias são as abordagens possíveis, mas a mais comum é o famoso e-mail de apresentação: sugerimos que você envie um e-mail apresentando sua trajetória acadêmica e sua pesquisa, além de um breve currículo.

Por fim, outro problema que se coloca diz respeito ao financiamento de sua estadia no exterior. Caso você não possa arcar com os custos, a primeira possibilidade é buscar bolsa na própria instituição estrangeira. Há também a possibilidade de obter financiamento por agências estatais, como a CAPES [5], o CNPQ e a FAPESP [6], ou instituições privadas, como a Fundação Estudar (https://www.estudar.org.br/), o Instituto Ling (https://institutoling.org.br/) e a Comissão Fullbright Brasil (https://fulbright.org.br/). De todo modo, é necessária a proatividade do(a) pós-graduando(a) para encontrar as bolsas que possam ajudar no custeio de sua estadia no exterior.

[1] O convênio pode ser específico (elaborado por um(a) único(a) aluno(a)) ou geral (permite a adesão de mais de um(a) aluno(a).

[2] Para mais informações sobre essa modalidade, ver http://www.prpg.usp.br/pt-br/internacionalizacao/dupla-multipla-titulacao e http://www.prpg.usp.br/attachments/article/43/OficinaDTabril2019.pdf.

[3] Embora menos comum, é possível a realização de um período sanduíche também no mestrado.

[4] Além disso, em seu pedido de aproveitamento, o aluno deve fazer uma análise de compatibilidade das horas dos créditos cursados com os créditos da USP, visto que, normalmente, no exterior os alunos passam menos tempo em sala de aula e mais tempo fazendo leituras extraclasse. Isso faz com que, ao final, se aproveite pouco dos créditos cursados no LLM na pós-graduação da FDUSP.

[5] O programa PrInt é uma pareceria entre a USP e a CAPES: http://www.prpg.usp.br/pt-br/internacionalizacao/print.

[6] Aos(às) bolsistas regulares da FAPESP, a agência oferece a Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE): http://www.fapesp.br/6557.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap