Wang Lei estava prestes a acionar a alavanca do elevador hidráulico quando lembrou que havia deixado o cinto de ferramentas na sala comum. Frustrado, Wang chutou a lateral da caixa de força, amassando a chapa que trazia o logotipo ferruginoso da “Zijin Mining Group Co., Ltd.”, e se atirou para fora do elevador.
Dentro da sala, abafada como todo o restante da mina, ele deixou cair os olhos sobre a mesa, que estaria deserta se não fosse por uma figura anêmica chamada Thia. “Se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro amolando o machado” assoprou o ancião à medida que levantava o cinto em direção a Wang. “Eu prefiro passar o trator, Lao Thia”. Os dois homens se entreolharam sob silêncio plúmbico até o mais velho rir, seguido pouco depois pelo outro.
Assim que atou firme o cinto, o minerador se certificou de que todas as ferramentas estavam em seu devido lugar, inclusive a lanterna de mão vagabunda com um quadrado dourado timbrado sobre seu interruptor. Despediu-se do companheiro e se pôs a caminho do elevador, quando ouviu um grito vindo da sala, “ei, arrume essa fivela do seu macacão, garoto”. Wang fitou a fita laranja que pendia da peça e, naturalmente, ignorou o velho.
Enfim pronto, puxou a alavanca e se preparou para o impacto. Toda a estrutura de aço do elevador rangeu e a polia começou a correr, soltando mais e mais cabo para o interior do abismo sem fim que era a jazida de Jinfeng. Na metade do percurso, Wang ativou a lanterna de cabeça e passou a contar as bifurcações que subiam a sua frente: em cada uma, o minerador podia ver dois ou três rostos encharcados de suor e que logo desapareciam fenda acima. Ao chegar próximo do quarto nível da mina, ele puxou a alavanca de volta à posição inicial, fazendo o motor soluçar até parar por completo diante de um buraco estreito, cercado por dois paredões sobre os quais uma placa sem número pendia supersticiosamente.
Apesar de não acreditar nas velhas crenças, Wang mordeu o canto da bochecha, ajeitou a lanterna de cabeça e morosamente se enfiou na bifurcação – o dia seria longo.
[…]
Depois de a picareta semear mais uma safra de calos nas suas férteis mãos, Wang foi descansar, apoiando-se na rocha escavada.
Assim que encostou a cabeça, porém, o barulho que veio do encontro do seu capacete com a parede não lhe pareceu com nada que a rocha mole faria. Ele se virou, apontando a lanterna para o paredão, e seu sorriso brilhou amarelo. O cintilar aumentava cada vez que a talhadeira e o martelinho se uniam, arrancando pedaços da rocha ao redor da pepita, que se mostrou do tamanho de uma cabeça humana, como se a sorte assumisse forma e viesse lhe dar um “olá” valiosíssimo. Naquele instante, sem sequer seguir o protocolo de extração da Zijin, Wang agarrou a broca diamantada e a meteu no canto da parede, ligando a perfuradora que deslizou suave até o seu limite. Mas, tão logo retirou a ponta de metal, um estalo na pedra congelou a base da sua espinha ao mesmo tempo que esquentou sua memória, alertando-o da idiotice que fizera. A rachadura que principiava da broca se alongou, saltando de ponto em ponto na parede até chegar na porção mais alta do corredor, que rangeu como se a própria pedra gritasse.
Wang arrancou do buraco a parte restante da broca e se arrastou desesperado para o elevador, mantendo-se agachado e segurando o capacete em sua cabeça. Os seus joelhos doíam de tanto serem esfregados contra o chão e suas costas se arrepiavam cada vez que um pedregulho se despregava do teto e as chapinhava, pedaço de agouro zombeteiro anunciando que a próxima pedra certamente o esmagaria. O peso desses pensamentos se multiplicou quando, já próximo da plataforma principal, Wang percebera que estava preso. Ao sentir a tensão do quer que o mantivesse fixo no lugar, ele olhou para baixo – a fivela laranja do seu macacão havia se enfiado em uma das pontas da rocha. A última coisa que ele pensou antes de a poeira e o estouro do teto afogarem os seus olhos e ouvidos foi “mas que velho maldito”.
[…]
A poeira havia se assentado no momento que o minerador recobrou os sentidos. Wang esfregou os olhos e fitou o teto do corredor, onde só encontrou uma enorme cratera da entrada da caverna até o limite do que conseguia ver com a lanterna e cujo tamanho lhe colocou por um instante nas sandálias do Imperador de Jade, apreciando um de seus recém-criados cânions. Ele expulsou a ideia apócrifa das suas demais companheiras, páginas da mais dura e cética consciência da realidade de mundo, e se ergueu. A escuridão era absoluta. Wang apalpou o seu capacete até encontrar o modulador da lanterna de cabeça e a intensificou, descobrindo que a destruição do corredor era muito pior do que imaginava. Pelo menos o caminho até o elevador estava limpo o suficiente para que ele retornasse com as más notícias para Thia…, com exceção da fivela, é claro.
Assim que seus olhos passaram pela parede na qual se recostara, Wang caiu em si e correu na direção da pepita, puxando os nacos de pedra com as próprias mãos. Finalmente encontrou a forma aurífera intacta, enfiada entre dois blocos meio soltos de pedra; segurou-a firme e puxou. Logo que os seus olhos subiram, acompanhando o movimento da pepita, ele se deu conta da pequena caverna a sua frente, iluminada pelo feixe de luz. O buraco na rocha que lhe dava acesso à formação era apertado, porém não demais para vedar a vista daquelas paredes…, paredes impossivelmente douradas.
O minerador saltou animado, correu até o elevador – onde dispôs a pepita num canto – e pegou o gancho de segurança que pendia da mesma polia responsável pela ascensão da máquina, prendendo-o na sua cintura. Desta vez, ele pretendia seguir de cabo a rabo o livreto de boas condutas da mineradora. De volta à formação, Wang se espremeu pela fresta e se viu em um domo enorme, perfeitamente esférico, com um pequeno portal de cuja ponta faltava uma porção irregular, ainda que arredondada – a pepita. A rápida conexão roubou o fôlego de Wang. “Se a pepita veio dali, isso quer dizer que…”, não ousou seguir o fio da meada, com medo de sua razão e lucidez seguirem-no também e perceberem que a loucura lhes tomara o lugar, acabando com aquela maravilhosa miragem.
Ainda com o sorriso no rosto, já no centro da caverna dourada, ele avistou uma coisa circular cujo diâmetro não poderia ser menor que um ou dois metros. O artefato, cravejado do que lhe pareciam ser rubis, estava cercado por trapos outrora vermelhos, mas que agora conservavam apenas um tom sem vida nem textura que permitia ao minerador distinguir quase nenhum dos ideogramas impressos no tecido, a não ser os “莲” e “花” – a forma do “lótus”. O homem pouco se importou com qualquer coisa que não fosse aquela roda peculiar e enfiou as mãos por debaixo dela, puxando-a com força para cima, entretanto, sem conseguir levantar o item além de alguns centímetros do chão.
“Imagine o peso dessa coisa em ouro” gritou Wang. Eis que uma ideia melhor lhe apareceu, fazendo com que o minerador desconectasse o gancho da sua cintura e o passasse apertado por debaixo da roda. Assim, regressado à plataforma do elevador, Wang ativou a segunda alavanca do painel e a polia secundária girou à toda, esticando o cabo de aço que terminava na bifurcação, mas não antes de passar por um aro preso em uma das paredes do corredor, o que transformava a geringonça em um guincho mais que adequado para içar um eventual minerador em apuros ou salvá-lo da pobreza.
O cabo retornava devagar para a polia, tenso com o peso, enquanto Wang planejava a sua futura mudança para Hong Kong, a menina dos sonhos de sua esposa, quando o cabo se partiu. Ao fundo do corredor, o baque da roda amplificado pela formação de ouro foi ensurdecedor. Temendo que o artefato houvesse se partido, Wang disparou para a abertura.
As paredes vibravam e a roda oscilava vagarosamente sobre o seu próprio eixo, como uma moeda lançada para se decidir o desfecho do seu dono. O movimento giroscópico criava um assovio inquietante, que fez os ouvidos de Wang arderem tanto que ele percebeu tarde demais o tremor vindo do chão do domo.
Os choques se tornaram mais frequentes, como se algo batesse diretamente contra o solo dourado. O ar, antes denso e quente, agora fervia, tornando o domo o caldeirão divino que cozinharia a ambição desmedida de Wang. No extremo oposto a ele, uma forma circular, alaranjada e incandescente, surgia do chão. “Antes vivo e pobre do que pagar por último” cuspiu o minerador, virando-se para a saída. Para a sua surpresa, a parede era de ouro maciço e não havia sequer rastro da passagem. O terror de morrer daquela maneira, trancafiado e cozido como um caranguejo no meio de um dim sum, dominou Wang, que teria começado a esmurrar a parede e gritar por socorro se a explosão atrás de si não o houvesse jogado contra o chão.
Ofegante, ele se levantou pela segunda vez naquele dia e a encontrou.
A forma colossal saía do meio do buraco no chão do domo, provavelmente derretido pelas labaredas que serpenteavam da boca da besta, derramando-se abaixo e criando bolhas de ouro que se explodiam em constelações. A crina vermelho-sangue pendia em torno seu pescoço repleto de cicatrizes profundas e queimaduras antigas, que se alternavam com escamas tão brancas quanto porcelana. Mas era dos seus olhos que Wang não conseguia se desvencilhar: dois riscos estreitos e azulados brilhavam como a Lua espelhada na superfície do Mar do Leste e estavam fixos na roda de ouro. Quatro lágrimas caíram dos olhos da criatura, que ganiu e subitamente se virou para Wang, abrindo-lhe um sorriso medonho.
[…]
Um mês mais tarde, Thia fez uma visita à casa da esposa de Wang, que recebera uma gorda pensão depois de seu marido morrer em um vazamento de gás, soterrando todo um nível da mina, com um prejuízo apurado de três bilhões de dólares americanos. Do lado de fora da residência, já começava a chover torrencialmente. A água era tanta que nem a placa de “vende-se”, na frente da casinha, nem a pilha de pedras redondas, amontoadas ao lado da casa em homenagem ao morto, aguentaram. A última desmoronou e foi carregada rua abaixo, serpenteando o caminho inteiro até as pedras mergulharem num bueiro escuro e meio entupido, para serem esquecidas pelo tempo e soterradas pelos dejetos das novas gerações.

