In memoriam: Jacyntha Benedicta Raimunda de Carvalho

Nota do autor: Esta história trata de eventos e ações que, transcorridos há mais de cem anos, não condizem com as atitudes esperadas de cidadãos – tanto alunos quanto professores – na contemporaneidade. Cabe ressaltar que a medicina legal, então praticamente inexistente enquanto ciência regulamentada no Brasil, estava em sua infância, sem que houvesse substrato ético, moral ou normativo eficaz para nortear as condutas de seus praticantes ao que se espera de um profissional médico no ano de 2020.

O tempo é a década de 1900. Na virada do século, homens com ternos engomados e mulheres com vestidos compridos circulam pela cidade de S. Paulo a fim de seguir com seus afazeres cotidianos. A capital paulista, ainda que ganhe importância a cada dia, nada mais é do que uma pequena aglomeração de trabalhadores e estudantes.

Como em qualquer cidade do país, perambulam por ela diversos tipos e caras. Uns mais baixos, outros mais altos. Alguns meio magros, alguns meio gordos. Ricos e pobres, homens e mulheres, crianças e jovens, imigrantes e brasileiros natos. Independentemente de quem fossem, eventualmente conheceriam, no apagar das luzes da existência, seu criador.

Contudo, se na passagem da vida para o além, a pessoa tivesse sido suspeita de ter sofrido uma morte violenta, acabaria no Necrotério da Polícia. E é nesse estabelecimento que a nossa história ganha corpo: lá era o local de trabalho do Dr. Amâncio de Carvalho, médico legista. Ele era professor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde lecionava Medicina Pública.

Ocorre que em uma noite escura, nas idas de 1903, foi noticiado que uma mulher encontrava-se deitada e fria no Largo da Sé. A polícia foi acionada, e logo chegaram dois agentes da corporação para investigar a cena. Os homens, de pronto, julgaram ser muito suspeita a morte de pessoa à noite e em local público ermo, e levaram-na à central policial.

Chegando ao necrotério, a gélida desconhecida foi disposta na mesa do Doutor, o qual procedeu a diversos exames técnicos. Depois de muito cutucar o cadáver, como fazem os médicos, Dr. Amâncio teve uma inusitada, porém mórbida ideia: por que não mumificar este corpo para analisá-lo melhor e aprofundar seus estudos? Dito e feito. O legista prontamente conseguiu a autorização necessária do chefe de polícia para embalsamar o cadáver.

Assim, depois de muito analisar com afinco e paciência todas as particularidades biológicas, químicas, bioquímicas e enfim, medicinais, da mulher preservada, Amâncio decidiu deixá-la em uma tabacaria localizada na Rua XV de Novembro, no trecho que fica entre a Rua do Tesouro e a Rua Direita. Não causa espanto, pois, que todos os dias aglomeravam-se Deus sabe-se-lá quantas pessoas curiosas com os olhos grudados à vitrine, tentando entender o que fazia lá um cadáver exposto em plena luz do dia.

Algum tempo depois ter sido obrigada a passar meses assombrando o público com seu corpo duro e preservado de pessoa morta que olha os transeuntes em suas vidas cotidianas, a falecida seria protagonista de ainda mais uma aventura fúnebre com o Doutor. A múmia, que ainda não estava pronta para abandonar o mundo da superfície e se esconder a sete palmos abaixo dos pés dos vivos, ingressaria na Facvldade de Direito de S. Paulo.

Lá, tomaria os holofotes das entediantes aulas jurídicas, e passaria a ser grande estrela da disciplina de Medicina Pública. Jamais os alunos se esqueceriam dos corretos procedimentos periciais e médico-legais: afinal, o saber lhes seria passado por pessoa morta tão viva que fora capaz de escapar das garras do túmulo.

Na manhã seguinte, às 7h25m, o médico estava na sala que hoje conhecemos como Amâncio de Carvalho (sim, essa mesma, no terceiro andar à esquerda da escada, corredor direito) com sua múmia dando bom dia aos alunos. Todos ficaram chocados. Ninguém ousava dizer uma palavra enquanto o professor apontava para cada parte do cadáver e explicava conceitos.

O cheiro, na sala, estava insuportável. A combinação do fedor pútrido de carne humana em decomposição misturado com um composto químico arcaico que se assemelha ao formol moderno era odor capaz de revolver os estômagos até dos mais fortes rapazes. Júlio Prestes, aluno daquela disciplina, não se aguentou. Levantou de sua cadeira e bradou que o aroma terrível não poderia ser tolerado.

Começa, pois, um burburinho entre os jovens. Eles começam a se perguntar de onde o professor poderia ter tirado a múmia. Um deles, mais impressionado e com os olhos arregalados, cochicha a dois amigos: “Vocês sabiam que esta múmia é, na verdade, o corpo da princesa Jacyntha da África? O professor a comprou da loja de antiguidades de um amigo de papai!”.

O segundo amigo, cético e escutando o relato com a testa franzida, comenta: “Deixe de besteira! Você acha mesmo que aquele seboso daquele amigo do seu pai lá na Rua XV teria credibilidade alguma para fazer negócios com reinos africanos? Você realmente acredita em tudo. Esse cadáver aí é de uma ex-escrava da família do professor. O nome dela era Raimunda. Eu sei porque meu tio é amicíssimo da família dele, aí ele me contou tudo.

Por fim, o terceiro colega, empregando um tom de advogado que detém toda a certeza, mas prova alguma, diz com ar de superioridade: “Vocês dois aí inventando bobagens… chega a ser ridículo. O corpo da pobre mulher é o de Benedicta, aquela moça que ficava o dia inteiro na porta da Facvldade vendendo laranjas e tomando cachaça. Não acham estranho, que, logo após ela ter sumido, o professor apareceu com uma múmia?”.

Depois de muito debater, os amigos chegaram à conclusão de que não sabiam, ao certo, muita coisa. Mas cada um permaneceu com a sensação de ter um palpite melhor que o dos outros colegas. Concordaram, apenas, que a múmia estava tão bem conservada de tanta pinga que deveria ter tragado em vida.

O que sabiam, e isso sabiam bem, dado os moleques travessos que eram, era que aquela múmia certamente lhes renderia várias risadas ao longo do ano letivo. E renderia, por consequência, muita dor de cabeça ao Professor Amâncio, quem com muito carinho sempre cuidara de Benedicta e tentava protegê-la das troças dos alunos.

Não é atoa que, quando o chapéu de algum rapaz da sala desaparecia, todos sabiam que certamente poderiam encontrar o acessório embelezando a cabeça de Jacyntha algumas horas depois. Em certos dias, Raimunda acordava em posições distintas das quais o professor a havia colocado após a última aula, como se ela tivesse se revirado para dormir em posições mais confortáveis ao longo da noite. Às vezes, a falecida aparecia com uma vela nas mãos. Teve até uma ocasião na qual, durante o trote, os meninos obrigaram um calouro a beijar a pobre Benedicta – quando o rapaz viu o que beijara, gritou e esbravejou em um acesso de raiva fulminante.

Mas nada superaria, em intensidade, o episódio do rapto. Certo dia, o Doutor, ao chegar na sala de aula, não encontrou sua querida Raimunda. Espantado, viu que havia uma carta em sua mesa: “Querido Amâncio, a sublime dor do existir é uma guerra que se trava todos os dias, sem vencer jamais. Eu deixo a vida como deixa o tédio do deserto, o poeirento caminhoneiro, - como as horas de um longo pesadelo que se desfaz ao dobre do sineiro. Se uma lágrima as pálpebras me inunda, é pelo moço que sonhei.

Moço que nunca aos lábios me encostou a face linda. Por mais cruel que tenha sido a vida, no cemitério sempre existe a mesma serenidade”.

Sentindo uma mistura de choque e indignação, o professor rapidamente percebeu a zombaria dos seus alunos sequestradores de cadáver. Enfuriado, ele os ameaçou imediatamente – receberiam zero os rapazes responsáveis pela troça. Os estudantes, então, tomados pelo pânico, disseram que nada tinham a ver com aquilo (o que, curiosamente, era verdade). O Doutor descobriu, também, que mais duas cartas teriam sido enviadas por Jacyntha: uma à polícia, confessando as intenções suicidas, e outra a um tal renomadíssimo advogado paulista, este cujos lábios teriam supostamente enfeitiçado a moça-cadáver e dando-lhe razão para tirar a própria vida.

Velório de Benedicta | Imagem: Diário Nacional

No dia seguinte, contudo, o bedel da Facvldade encontrou a pobre Benedicta jogada em uma ribanceira – como se realmente tivesse cometido suicídio – e a devolveu ao Mestre que com tanto carinho lhe tinha cuidado e preservado por anos. Ao fim, descobriu-se que os responsáveis pelo rapto não eram sequer alunos das Arcadas, mas desocupados que apenas desejavam pregar uma peça no professor.

Por muito tempo, ainda, a querida Raimunda seria vítima de muitas zombarias e badernas dos estudantes do Largo de São Francisco, até a morte do professor Amâncio. Quando isso ocorreu, sua viúva escreveu uma carta ao então diretor da nossa academia, alegando que Benedicta deveria ter um enterro cristão, com a dignidade que qualquer ser humano merecia, ao costume da época. O diretor concordou e ratificou a necessidade de se prestar as homenagens à falecida, permitindo que fosse feita a solenidade em nome da moça.

Féretro de Benedicta | Imagem: Diário Nacional

O Centro Acadêmico XI de Agosto, com o protagonismo político que conhecemos desde tempos arcaicos, ofereceu-se para financiar a cerimônia e organizar os trabalhos. Com uma doação de sepultura perpétua, até a Prefeitura de S. Paulo contribuiu com o fim da história de tão significante personagem. Estiveram presentes no enterro acadêmicos, representantes de associações de pessoas negras da sociedade civil e freis franciscanos, bem como os meninos da Velha Academia.

Esta não é, pois, uma história do estudo dos problemas que partindo do berço terminam no túmulo, onde as transformações da matéria organizada fazem-na retornar ao seu estado primitivo de corpos inorgânicos. Tais histórias poderiam ser contadas na Faculdade de Medicina, ou mesmo no cemitério onde estão Raimunda e vários de seus colegas.

Esta é uma história dos mistérios e das infinitas curiosidades que tornam a história da faculdade na verdadeira faculdade da história. Esta é uma história de apenas uma das memórias imemoriais da São Francisco, que, em cada canto do Largo, permanecem escondidas, até que uns veteranos as encontrem, contem e recontem a seus calouros.

Cabe ressaltar, ainda, que não se deseja aqui ratificar ou aplaudir os atos descritos neste conto, mas apenas transmitir o registro de acontecimentos inusitados e curiosos que provam que, em nosso Largo, há muito mais coisas a transcorrer do que a mera leitura de códigos legislativos.

Esse texto tem como fontes:

O jornal “O Estado”, edição n. 4668, que circulou no dia 22/04/1929, em Florianópolis – SC, disponível em http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/oestadofpolis/1929/EST19294668.pdf;

O jornal “Diário Nacional”, edição n. 592, que circulou no dia 07/06/1929, em São Paulo – SP, disponível em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2819323224771357&set=p.2819 323224771357&type=3

Share via
Copy link
Powered by Social Snap