Chegou. O dia finalmente chegou. Uma vida inteira de espera, e o momento finalmente se
encontrava ali.
Amélia tocava violino desde pequena. Fora ensinada a segurar o instrumento quando mal
tinha aprendido a andar. A garota lembrava-se perfeitamente do cheiro das partituras
antigas misturado ao odor amadeirado da sala, do vento forte balançando as cortinas, dos
ombros machucados pelo peso apoiado. Quando descobriu que Fiódor Asmovk tocaria de
novo, suas pernas quase cederam, seu coração disparou. Conhecia seus concertos quase
tão bem quanto o som da própria voz.
A espera transformou os dias em excessivamente longos, as manhãs em infindáveis e as
noites em eternas. O relógio girava em sentido oposto, o tempo corria para trás. Ainda
assim, a data batia à porta de Amélia. A apresentação seria naquela noite.
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Ao adentrar o salão de mármore, Amélia foi arrastada para uma ilusão. O teto de vitrais,
tão alto quanto os olhos podiam alcançar, os quadros gigantescos, pintados com tamanha
vivacidade que pareciam se mover, as escadarias imensas, cobertas de camurça vermelha…
As gotas de suor podiam escorrer por suas têmporas, mas o corpo tremia de frio. Naquele
espaço, sua pequenez era avassaladora.
Caminhando pelos corredores tortuosos, encontrou o seu lugar. Camarote n°13.
As sombras de Fiódor Asmovk dançavam atrás do palco, a penumbra recaía sobre a
orquestra mal iluminada. O violinista começava. Amélia sentiu as primeiras notas
chegarem aos ouvidos. O corpo arrepiava-se, a respiração falhava, lágrimas subiam aos
olhos. Uma nova avalanche de sentimentos a cada acorde, a cada movimento. Uma pressão inenarrável no peito, a garganta fechando-se. Seu corpo paulatinamente deixava de existir, nada mais em si era corpóreo, sua alma dançava ininterruptamente a cada nova nota tocada. Amélia voava cada vez mais alto, cada vez mais longe.
Mas suas asas foram arrancadas bruscamente, seu corpo rechaçado contra o chão duro, a
realidade invadiu seus pulmões de forma a afogá-la.
Fiódor errara.
O silêncio abateu-se sobre a orquestra, os rostos na plateia tornaram-se aterrorizados. O
grandíssimo musicista errara. Segundos infinitos se passaram antes de a apresentação
continuar. A vergonha e o desespero fizeram com que mais e mais notas fossem
desafinadas, apressadas, descompassadas com os demais instrumentos. Ao final do
espetáculo, mesmo o maestro encurvava as costas e esmaecia seus movimentos frente ao
desastre.
Enquanto caminhava em direção à saída, Amélia debruçava-se sobre o ocorrido. Ela não
acreditava no que presenciara, Asmovk nunca erraria algo tão fácil, tão simples. As
bochechas rosadas, os olhos esbugalhados e o peito acelerado explicavam os subsequentes
erros, mas o primeiro era inconcebível. Seu eu de cinco anos teria acertado com excelência.
Talvez fosse o nervosismo, os anos longe, um violino de má qualidade, uma mosca que
pousou em seu nariz… Ela precisava entender o porquê. Precisava encontrá-lo. Não se
permitiria destruir a imagem do violinista, não daquela maneira.
Seus pés, que se aproximavam das colossais portas da saída, viraram e começaram a descer as escadas em direção à sala principal.
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A barra do vestido branco, arrastando no chão, contrastava com o escarlate das escadas.
Os cachos do cabelo acobreado desfaziam-se nas costas. As velas dos lustres bruxuleavam.
Amélia descia apressadamente os degraus. Sua indignação aumentava a cada passo, seu
estarrecimento enraizava-se, o ódio começava a crescer. Ela havia esperado uma vida toda
por aquele momento, Fiódor aposentara-se anos antes. A promessa de uma última
apresentação era vaga, incerta, mas ela havia mantido as esperanças, havia procurado
incessantemente por qualquer mínima aparição, tinha aprendido todas as suas
composições. E ainda assim, ele ousou errar.
Ainda que perdida em seus pensamentos, a garota foi capaz de notar o violinista
esgueirar-se em uma porta e adentrar um pequeno cômodo.
‘’Senhor Asmovk?’’, chamou Amélia ao entrar na saleta. As únicas coisas presentes ali eram uma adega de vidro e duas pequenas poltronas.
‘’Sisi..sim, senhorita? Em que posso ajudar?’’. Fiódor encarava os pés, seus dedos retorciam
uns aos outros.
‘’Boa noite, eu me chamo Amélia. Sobre o concerto de hoje…’’
O homem jogou-se sobre os assentos. Lágrimas escorriam por seu rosto vermelho, os
dedos afundavam-se em sua pele macilenta.
‘’Não, não, não! Eu sou uma fraude. Terrível, terrível!’’
‘’Não, de forma alguma. Erros são comuns, ainda mais depois de tantos anos’’. Amélia
ajoelhou-se próxima a ele enquanto tentava acalmá-lo. Os barulhos e fluídos que vinham
do homem eram repugnantes.
‘’Você não entende, não entenderia. Eu sou uma fraude. Fiódor… Fiódor está morto há
anos!’’. Mais e mais lágrimas brotaram de seus olhos. O violinista ninava a si mesmo como
uma criança assustada. Sua cabeça balançava de um lado para o outro freneticamente.
Amélia levantou-se, encheu um copo com o uísque da adega e, deixando a garrafa no chão,
o ofereceu à figura prostrada ali.
Enquanto o homem derramava o líquido apressadamente em sua boca, ela o olhava com
desgosto. Como poderia aquilo ser um grande artista? Seria ela quem se iludiu todos
aqueles anos? O que ela assistia era digno de pena.
‘’O senhor Asmovk…’’, balbuciou a voz chorosa, ‘’O senhor Asmovk era meu irmão, meu
querido irmãozinho. Quando ele se foi, mamãe também não aguentou, ele era seu filho
predileto. Eu era a decepção da família, uma fraude!’’.
Se antes possuía alguma centelha de dúvida, agora a garota tinha certeza, o homem
delirava.
‘’Eu nunca toquei como ele, tínhamos o mesmo rosto, mas ele sempre era o melhor. Meu
irmãozinho, o orgulho da família. Por uma noite, só uma noite, eu poderia ser ele. Maldita
noite, maldita ideia!’’
‘’Senhor Asmovk, fique aqui, eu vou chamar alguém para ajudar você, um momento’’. Ela
precisava arranjar uma desculpa para sair, ir embora dali. Aquele homem estava louco,
descabeçado.
‘’NÃO!’’, ‘’não, não,não!’’, disse ele, com os olhos arregalados.
‘’Se você for, meu irmãozinho vai descobrir meu segredo, mamãe e ele vão voltar. NÃO!
Você deve ficar aqui comigo, quietinha’’.
O violinista apoiou-se nas poltronas enquanto se levantava, seu corpo barrando a porta.
Ele caminhava em sua direção. A menina não se preocupou, era um senhor bêbado, nada
mais.
Mas aquelas mãos gorduchas agarraram seu pescoço, ele se jogara sobre ela. Ambos
rolavam no chão enquanto Amélia tentava respirar, livrar-se dele. Em um momento de
desespero, sua mão, que alcançou a garrafa de uísque, atingiu a cabeça do homem
repetidas vezes. Repetidas vezes.
O ZELADOR
José limpava o corredor quando uma menina desesperada passou correndo à sua frente. O
vestido branco manchado de vermelho, marcas roxas em seu pescoço. Ele se perguntava de quem seria o corpo daquela vez. Semana passada já havia sido o do pianista e da flautista.
Talvez o do violinista. José ainda se impressionava em como as pessoas se esqueciam de
quem eram quando encaravam a grandeza do local. O Teatro Insania era um lugar
estranho.

