Bolsonaro: uma estranha volta ao passado

Ao olhar atento da História, o trajeto do atual presidente é uma retrospectiva – nada nostálgica – do que o Brasil já teve de pior

            Em tom crítico à redemocratização brasileira, a famosa canção de Cazuza, “O Tempo Não Para”, retrata o momento vivido até então como uma mera repetição do passado da política corrupta e elitista do período militar. Para o meu desgosto, percebo que, mesmo após trinta anos de seu lançamento, os versos dessa música ainda soam atuais, pois, por coincidência ou não, a trajetória do Governo Bolsonaro reflete de modo trágico a nossa linha do tempo. Uma reprise de mau gosto!

            Em primeiro lugar, a ascensão ao poder. Como era comum na década de 30, Getúlio Vargas assumiu para si a perfil de outsider, isto é, uma figura descolada do período, marcado pelos escândalos de corrupção de seus antecessores, classificado pelo próprio político como “República Velha”. No entanto, tudo isso não passava de discurso, já que ele mesmo, como deputado estadual e federal, ministro e governador, fez parte dessa época, praticando os mesmos abusos como fraude eleitoral, coronelismo etc. Ainda nesse sentido, por meio de jornais e panfletos, o ideal de “herói revolucionário” atrelado à Vargas foi peça fundamental para a aceitação popular que o levou, ainda quepor um golpe, ao Catete.

            A semelhança é nítida: com a mesma hipocrisia, Jair imitou Getúlio. Com a alcunha de mito, ganhou popularidade ao criticar a corrupção e fazer ataques sucessivos às instituições nacionais sob a bandeira da dita “nova política”. Ocultou, porém, seu vasto passado parlamentarpor partidos como o Progressistas, com diversos membros investigadospela Lava-Jato. Além disso, as várias denúncias de peculato envolvendo o seu gabinete na Câmara também indicam que esse foi adepto às mesmas práticas imorais de seus companheiros, ora “inimigos”. Próximo ao desfecho das eleições, o atentado sofrido por Bolsonaro impulsionou ainda mais a sua imagem, já que, de maneira semelhante ao ocorrido em 1930, a sua propaganda eleitoral fez uso do episódio para elevá-lo a mártir. Dessa forma, farsa estava novamente montada, e a vitória não tardou.

            Já com a faixa presidencial em seu ombro, o então Chefe de Estado passou a lembrar uma figura de momento histórico posterior. Jânio Quadros, presidente do Brasil em 1961, alçou a tal cargo pelo seu carisma peculiar: cabelo desarrumado, roupas desajustadas e pautas moralistas como a proibição do uso de biquínis compunham o seu perfil cômico e simpático. Por trás desses traços, persistia uma estratégia populista, haja vista que a conexão com o povo por meio da imagem informal e do uso de discursos morais e chamativos serviu como escape para problemas mais graves, aos quais sua campanha não deu a devida atenção, como a crise inflacionária que assolava o país à época de sua vitória eleitoral. Consequentemente, a opinião popular se viu distraída e pouco críticaem relação a um governo despreparado.

            Com o atual presidente, não é tão diferente. No lugar do terno largo e do penteado bagunçado, o chefe do Executivo aparece trajado de uniformes de futebol em diversas de suas aparições públicas. Já no campo político, a proibição dos biquínis foi substituída pelo combate à doutrinação comunista ou ao kit gay, ambos fictícios, nas escolas. Com isso, Bolsonaro se fortalece: enquanto as suas pautas ideológicas tiram o enfoque da imprensa sobre as reais questões de seu governo (Saúde, Economia, Educação etc.), o seu carisma de “gente como a gente” cativa uma parcela do eleitorado, que se cala diante da péssima gestão do país em problemas sérios. Como resultado, a crise da pandemia, em virtude de sua irresponsabilidade, já deixou mais de 600 mil mortos pelo Brasil, por exemplo.

Revisitando a História, resta claro que o projeto de Bolsonaro para a conquista e manutenção de seu poder encontra raízes no passado. Seja pela formação artificial de figura crítica ao sistema, honesta e heroica para ganhar o pleito eleitoral, como fez Getúlio; seja pela posterior construção de um perfil “do povo”, que, aliado a um moralismo vago, distrai a opinião pública e cativa apoiadores, tal qual Jânio.

Porém, não se trata depuro acaso, mas sim do resultado de contextos semelhantesdos momentos históricos. De maneira próxima à República Velha, Bolsonaro cresceu diante de um país desmoralizado pela corrupção sistêmica de mensalões e petrolões, a qual, com a ajuda da grande mídia, criou o sentimento de insatisfação em um povo que, indignado, se deixou levar por um discurso apaixonado de um pretenso e incapacitado herói. Tal como Quadros e todos que chegam ao poder pelo discurso vago, a solução para perpetuar-se foi, então, espelhar quem o apoiaem suas vestes, ou até mesmo em políticas vazias que ocultam crises e incompetência.

            Assim como a História antecipou os caminhos de Bolsonaro, foi a falta de atenção a essa que os tornou possíveis. Cega pelo ódio,uma grande parcela de brasileirosainda não notou o passado a se repetir. Como dizia Cazuza em sua mencionada música, vivemos em “um museu de grandes novidades”. Nessa entediante exposição, a farsa, a fala rasa e a demagogia são a atração principal; as ideologias políticas e o verdadeiro debate público aparecem discretos no canto escuro de um corredor qualquer. A democracia não está em cartaz.

Referênciashttps://www.jornalopcao.com.br/editorial/o-populismo-na-politica-brasileira-comeca-como-farsa-e-termina-em-tragedia-135830/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56759301

https://www.poder360.com.br/opiniao/bolsonaro-janio-e-as-licoes-da-historia-escreve-thales-guaracy/

https://revistaforum.com.br/politica/2021/8/25/60-anos-da-renuncia-de-jnio-quadros-paralelos-com-jair-bolsonaro-102457.html

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