As Carolinas do Anhembi – O Quarto de Despejo ainda existe

Gazeta Arcadas | Yasmin Babadobulos

O preconceito!

Lutar…

É nosso direito!

Não duvide da bravura da mulher

Olhares emocionados e mãos fechadas ao alto que gritam resistência: alguns dos gestos que marcaram a volta do carnaval. A aproximadamente sessenta anos atrás e um Rio Tietê de distância, Carolina estaria buscando água, catando papel, procurando ossos ou escrevendo em seu diário; hoje em dia, Carolinas não só estão aqui na avenida do Sambódromo do Anhembi, mas também nas periferias de São Paulo.

A obra Quarto de Despejo: Diário de uma favelada se torna um imenso símbolo de resistência que marca a frente de um carro alegórico. Apesar de ser um diário – ou seja, um íntimo testemunho de sua realidade –, Carolina percebe sua produção como um possível disparador de mudanças, partindo do fato de ela pressupor a publicação de seu conteúdo – o que futuramente se concretiza. Essa atuação social da autora não só vai contra a lógica de silenciamento de indivíduos socialmente marginalizados, mas principalmente a coloca como alguém que se diferencia daqueles com quem convive.

A negra enriqueceu

Sou eu…

A mãe preta resistência

Bordando em meu quarto sentimentos

Mazelas que refletem a consciência

“Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circo. Eles respondia-me: ‘é pena você ser preta’. Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico”[1]. Pensei que, se Carolina estivesse viva, ela poderia ter escrito o enredo que por aquela avenida passava. Fantasias aproximam a fome da morte: tensão todo dia presente nos pensamentos da autora, em especial quando se preocupava com a alimentação de seus filhos. Para ela, a fome tinha coloração amarelada – mesma cor das fantasias que nos lembram do aumento da fome no Brasil atual. Se passaram seis décadas desde a contemporaneidade de Carolina e as mesmas pessoas que levavam para casa os ossos na esperança de terem o que comer hoje lutam pelos ossos que sobram dos açougues.

Da mesma forma que Carolina não se encaixa no cenário literário que privilegia a elite intelectual do país, a sua linguagem composta por variantes linguísticas orais das periferias de São Paulo é destoante das normas urbanas de prestígio. Nessa lógica, ela reconhece que seus apenas dois anos de ensino básico não a impedem de identificar e problematizar as suas condições de vida, de clamar por justiça e equidade. Na avenida, futuras Carolinas carregam escritos de suas reivindicações: ‘a educação salva’, enquanto emocionam o Brasil com o canto da trajetória de Carolina Maria de Jesus.

Lá vou eu pra batalha,

Não tinha o que comer

Fiz verso, fiz poesia

Retratando o meu viver

Quando cheguei a São Paulo

Sem rumo, sem renda

Falei de Justiça

Pra que o mundo entenda[2]


[1] JESUS, Carolina Maria De. Quarto de Despejo: diário de uma favelada, p.64. São Paulo: Editora Ática. 1ª edição (edição comemorativa).

[2] Os trechos em itálico alinhados à direita do texto foram extraídos do samba A Cinderela Negra do Canindé: Carolina Maria de Jesus da Escola Colorado do Brás. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3TBz8w8OyRI.

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