A vida dentro das penitenciárias femininas possui algumas particularidades em relação às vivências das cadeias masculinas, reflexo do que é e como se estrutura a sociedade como um todo
Este texto tem como base a leitura da obra “Prisioneiras” de Drauzio Varella, mas não busca analisar exaustivamente todos os pontos levantados pelo autor em relaçãoà vida no cárcere nas cadeias femininas. A intenção deste texto é chamar a atenção para pontos específicos do dia a dia nas prisões femininas e para as diferenças da vida no cárcerepara as mulheres e para os homens.
O primeiro ponto a ser levantado refere-se às relações entre os presos e a estrutura em torno da qual estas relações se desenvolvem. Enquanto no presídio masculino a hierarquia entre os membros é muito clara, a estrutura nos presídios femininos é muito mais complexa. Para os homens, o cumprimento de ordens e a subordinação são mais aceitos do que pelas mulheres. Os homens não precisam de regras tão claras para saber o que podem ou não fazer e as punições são aplicadas facilmente, para controlar reações indesejadas.
Por outro lado, as mulheres são mais resistentes ao cumprimento das normas estabelecidas. Segundo a perspectiva de Drauzio, “Quase que por instinto de sobrevivência, a mulher é mais avessa à submissão aos superiores; desde criança aprende a subverter a ordem, de forma a moldá-la aos ensejos pessoais sem dar a impressão de rebeldia, se possível.” (VARELLA, p. 20).
Não há como negar que mulheres são realmente treinadas a fim de criar uma resistência contra à submissão. Desde suas vivências infantis são moldadas para se subordinarem a todos: pais, familiares, professores, namorados, maridos, chefes, entre outros. Como resultado, qual reação pode ser esperada? Tempos atrás, poderíamos imaginar que as mulheres absorvessem estas influências e seguissem este caminhocaladas. Porém, atualmente, observamos que isso gera um efeito rebote, a tendência é que quanto mais subordinada uma mulher se sentiu durante toda sua vida, mais ela luta para ser livre e independente.
As mulheres presas são deixadas de lado por seus companheiros, familiares e amigos, ao contrário dos homens que, em sua maioria, sempre recebem alguma visita na prisão. As esposas de traficantes, assassinos ou estupradores são quase obrigadas pela “lei do cárcere” a permanecerem cumprindo suas visitas aos presídios, religiosamente. Enquanto isso, as prisioneiras são significativamente esquecidas nos presídios. As mulheres criminosas são motivo de repulsa pela sociedade, às vezes por terem praticado um mesmo crime cometido por homens, mas que, para eles, não gera a mesma indignação.
Outra diferença simples, mas que traz outros desdobramentos, é a diferença de cuidados pessoais e higiênicos. Nos presídios femininos, as prisioneiras responsáveis por distribuir a comida para as companheiras precisam tomar banho antes de realizar a atividade, aliás, todas as presas costumam tomar um número significativo de banhos por dia. Além disso, as responsáveis por essa atividade precisam tomar outros cuidados, como não pegar nenhum objeto do chão enquanto estão distribuindo os alimentos.
Em contrapartida a essas medidas higiênicas, nas cadeias masculinas, a proibição é de que os homossexuais não podem servir as refeições, sendo que, de acordo com Drauzio, “Se a mesma exigência fosse cumprida na prisão feminina, faltariam braços para distribuir as refeições.” (VARELLA, p. 86). Assim, curiosamente, para os homens, ainda são mais importantes algumas regras tidas como “culturais”, mesmo que advindas de extremos preconceitos, do que questões propriamente higiênicas.
Este fator leva a um último ponto importante e contrastante entre as relações. A homoafetividade é muito mais comum na cadeia feminina do que na cadeia masculina. Nas prisões masculinas, os homens tendem a se consideram heterossexuais, mesmo se relacionando com outros homens, em detrimento dos que se declaram homossexuais de fato, vistos de forma negativa.
Já nas cadeias femininas o sistema é inverso, são mais valorizadas as homossexuais de fato, do que as heterossexuais que esporadicamente se relacionam com suas colegas.Talvez porque exista uma visão de que as mulheres heterossexuais estejam “usando” suas colegas temporariamente, por carência e pela situação em que se encontram, mas quando saem da cadeia voltam a se relacionar com homens.
Nesse mesmo sentido, nos presídios femininos, as mulheres possuem toda uma hierarquia e nomenclatura para denominar suas relações afetivas, que vão desde as “sapatões originais”, passando pelas “folós”, “chinelinhos”, “entendidas”, entre outras categorias, até chegar nas “mulherzinhas”.
Na concepção de Drauzio, a homossexualidade não é imposta na penitenciária feminina, mas diversos fatores como a restrição do espaço físico, confinamento com pessoas do mesmo sexo, falta de carinho, de presença masculina e abandono feminino, são responsáveis por influenciar e criar condições para gerar tal situação.
Todos os pontos levantados buscam, além de demonstrar as diferenças entre a vida das mulheres e dos homens no cárcere, aclarar que todas essas contraposições são resultadosda sociedade em que estamos inseridos. A cadeia não é uma sociedade à parte, na verdade, ela está inserida na sociedade como um todo, e ela reflete os preconceitos, questionamentos e sentimentos da sociedade em geral. De forma genérica, tudo que acontece lá dentro também acontece do lado de fora, mesmo que de formas diferentes, todos esses fatores são influenciadospelo machismo, pela homofobia, pelo patriarcado, pelo racismo e por diversos outros fatores que colocam estas pessoas nestas posições.
Talvez a questão mais interessante seja analisar que homens e mulheres, submetidos a pressões sociais semelhantes, reagem de formas diferentes. Homens, instruídos a serem submissos às regras, acabam por aceitar essa hierarquia facilmente, enquanto mulheres influenciadas a se submeteram tendem a se contrapor e se libertar. Homens pressionados pela homofobia a serem héteros e a demonstrarem sua masculinidade acabam escondendo seus reais desejos (caso não sejam os “aprováveis”) e a inferiorizar os que assumem sua homossexualidade. Por outro lado, mulheres expostas ao mesmo preconceito acabam priorizando seus sentimentos e vontades, acima de qualquer convenção que possa existir.
Portanto, a forma como a sociedade é, com seus costumes e preconceitos estruturais e da forma que influencia o comportamento de mulheres e homens, levam a estes resultados. Por isso, para além das transformações do sistema prisional, só mudanças na sociedade como um todo, em termos de educação e cultura são capazes de modificar este cenário geral para que a sociedade evolua.

