Goste dele ou não, o mercado financeiro é um agente político influente no Brasil. Com as eleições chegando, traçar um panorama das relações cultivadas pelos presidenciáveis com essa instituição é crucial
O mercado financeiro é o agente preponderantemente responsável pelo funcionamento dos fluxos econômicos em sociedades capitalistas. Esse espaço de negociações possui interesses próprios e, com vistas a garanti-los, é regido por regras específicas. As chamadas leis de mercado pautam-se essencialmente em: relações de oferta e demanda, defesa ilimitada da propriedade privada, austeridade fiscal e mínima interferência do Estado na economia. Contudo, esses princípios muitas vezes entram em choque com as demandas políticas das nações, o que gera conflitos entre agentes econômicos e classe política.
Com as eleições chegando, portanto, faz-se cabível analisar o relacionamento dos candidatos com maiores chances de vencer com o mercado financeiro.
Bolsonaro e o Mercado
Antes de ocupar o Palácio da Alvorada, Bolsonaro teve uma postura relativamente neutra em relação ao mercado. Apesar de manter uma conduta patrimonialista (como foi constatado no polêmico escândalo das rachadinhas), Jair Messias ainda não possuía uma estatura política relevante para incomodar ou acomodar os interesses da Faria Lima. Essa situação, todavia, altera-se com sua candidatura à presidência.
Inicialmente, era esperável que a relação não fosse das melhores, haja vista o histórico antagônico à austeridade fiscal de Bolsonaro. Entretanto, ao longo de sua campanha, surge um fator que altera toda a situação: Paulo Guedes. O empresário carioca sempre possuiu sólido trânsito pelos meios financeiros, além de ser forte defensor dos princípios neoliberais. Desse modo, durante a campanha, a relação entre Bolsonaro e mercado financeiro foi amigável.
Essa amizade se fortaleceu durante os primeiros anos de governo, visto que a política econômica adotada por Bolsonaro agradava muito o mercado. Isso se materializou em diversos momentos, dentre os quais: a indicação de Paulo Guedes para o recém criado Ministério da Economia, a aprovação da Reforma da Previdência e o combate aberto aos direitos trabalhistas. Assim, tudo indicava que Bolsonaro invariavelmente seria o candidato da Faria Lima nas eleições de 2022. Porém, não é tão simples assim.
Com a fragilização do governo oriunda de suas diversas crises políticas, Jair Messias teve que buscar apoio no Congresso, o que lhe custou muito. Em suma, o presidente passou a fazer inúmeras concessões orçamentárias a políticos do chamado centrão, o que desagradou o mercado, visto que se chocava com princípios mercadológicos. A PEC dos precatórios, o orçamento secreto e a ultrapassagem do teto de gastos foram ações que abalaram a amizade nascida em 2018. Paulo Guedes, cada vez mais, foi sendo colocado de lado no governo, enquanto políticos do centrão, como Ciro Nogueira, começaram a assumir posições importantes no governo.
Lula e o Mercado
Quando Luiz Inácio surge no cenário político brasileiro, ele não poderia ser mais desagradável aos olhos da Faria Lima. Um sindicalista que agitava greves no ABC e defendia ideias radicais de esquerda jamais receberia a benção das grandes empresas. Durante as campanhas presidenciais de 1989, 1994, 1998 o sistema financeiro se mostrou abertamente contrário a uma possível eleição de Lula. Com sua vitória em 2002, contudo, os agentes financeiros passam a ter que negociar.
A postura do ex-sindicalista durante seus governos, surpreendentemente, não foi tão extremada com se era esperado. Diversas reformas sociais foram desenvolvidas, mas concessões ao sistema financeiro também não faltaram. Em verdade, o quadro econômico favorável permitiu uma certa conciliação de interesses, haja vista o crescimento acentuado do PIB, o aumento do poder de compra do brasileiro e a relativa contenção dos efeitos da crise de 2008. Dessa maneira, apesar de nunca terem sido de fato amigáveis, as relações entre Lula e mercado se mantiveram relativamente pacíficas.
Esse quadro se mantém durante os primeiros anos do governo Dilma, mas não demora para se alterar. Já no início do seu segundo mandato, a presidente passa a lidar com uma crise econômica que desestabiliza todo o cenário político. Um ponto central desse abalo foi a aberta oposição que a Faria Lima passou a fazer ao governo. Não é coincidência, portanto, que a justificativa central para o impeachment de Dilma foi um crime de responsabilidade fiscal: as famosas pedaladas.
As Eleições de 2022 e o Mercado
Um possível candidato para a terceira via seria a escolha perfeita para os interesses do sistema financeiro. Sérgio Moro, João Dória, Eduardo Leite, Simone Tibet e até mesmo Ciro Gomes já fizerem pronunciamentos muito alinhados com os princípios mercadológicos. Entretanto, nenhum nome aparenta ter chances reais de vencer, o que obriga os agentes econômicos a trabalharem com o que lhes é dado.
Bolsonaro, naturalmente, tornou-se a opção mais apreciada. Apesar de seu recente histórico de irresponsabilidade fiscal e concessões ao centrão, o atual presidente nunca buscou desagradar diretamente o mercado. Um exemplo disso é o fato de que, apesar da crise econômica, Jair Messias se recusa a retirar Paulo Guedes do Ministério da Economia. Todavia, as pesquisas eleitorais vêm apontando para a vitória de Lula, o que causa arrepios na Faria Lima.
A relação entre Luiz Inácio e o sistema financeiro é deveras delicada. Em depoimentos recentes à imprensa, o ex-presidente defendeu que, se eleito, buscará revogar medidas econômicas aprovadas nos governos anteriores (o chamado “revogaço” acabaria com a Reforma Trabalhista e com o teto de gastos). Isso não poderia desagradar mais o sistema financeiro. Porém, a nomeação de Geraldo Alckmin para vice apresenta uma luz no fim do túnel para o mercado, haja vista o histórico do ex-governador de consonância com os interesses dos grandes agentes econômicos.
Portanto, o quadro político dificilmente poderia ser mais instável para o sistema financeiro. As pesquisas de intenção de voto indicam que os seus candidatos de preferência não possuem chances relevantes. Bolsonaro, que era um imaculado defensor da Faria Lima através da figura de Paulo Guedes, fica cada dia mais refém do centrão. Lula, por fim, desagrada em muitos fatores o sistema financeiro, mas aparenta ser a opção mais racional de se apostar, visto que sua vitória nas eleições deste ano é o resultado mais provável. A tendência é que os agentes financeiros pressionem o ex-presidente para que ele tome uma posição mais alinhada com seus interesses. Resta observar se Lula aceitará.

