O carnaval, embora tenha origem cristã, popularizou-se no Brasil da forma que conhecemos graças aos afrodescendentes praticantes de religiões de matriz africana. Mas, por qual razão sempre que as escolas demonstram sua origem são demonizadas?

Historicamente, o carnaval possui características de diversas festividades pagãs, em especial de comemorações oriundas de povos romanos, mesopotâmicos e gregos. Contudo, foi somente na Idade Média que seu surgimento, de fato, ocorreu. Seu nascimento, conforme apontam historiadores, resguarda uma conexão intrínseca com a igreja católica. Isso pois, após a consolidação da instituição, houve a urgência de regular as festas que ocorriam com certa habitualidade na região, com a finalidade de conter a disseminação de atos pecaminosos. Assim, a Igreja definiu a quaresma – período de quarenta dias a contar da Quarta-Feira de Cinzas – a qual condenava práticas festivas e determinava que este período seria reservado à cultura de Deus.[1]

No Brasil, o carnaval foi introduzido por meio da colonização portuguesa. O prelúdio do carnaval brasileiro está no entrudo, uma espécie de festa popular que consistia em uma série de brincadeiras envolvendo o arremesso de baldes contendo farinha, ovos, lama, dentre outros elementos, em outros indivíduos, conhecidos ou não. Era, a princípio, uma brincadeira da elite, mas não excluía que negros participassem. Entretanto, embora os brancos jogassem os elementos mais grotescos nos escravos, como urina, era inadmissível que negros brincassem com os brancos. Com o tempo, a festividade foi tida como violenta, até ser proibida em meados do século XIX. Nesse meio tempo, a elite já tinha adotado, com influência europeia, os bailes de máscaras, o que excluía o “baixo clero” da sociedade, diga-se de passagem, negros e pobres.[2]

Contudo, a população - em especial o povo negro e favelado - não desistiu do carnaval. Primeiro vieram os cordões e os ranchos; depois, as marchinhas e o samba; por fim vieram as escolas de sambas e os desfiles em sambódromos. Na Bahia, o afoxé surgiu como um ritmo musical com a finalidade de honrar tradições de matrizes africanas. Foi nesse contexto que o frevo e o maracatu se popularizaram.

Embora excluídos e humilhados pela elite, a população preta revolucionou o carnaval. Foram eles que criaram o samba, as marchinhas, as escolas de samba, os desfiles carnavalescos como conhecemos. Sem eles, o carnaval seria um baile de máscaras genérico ou uma brincadeira humilhante copiada de países europeus, sem o espetáculo pelo qual somos mundialmente conhecidos.

Nesse mesmo sentido, religiões de matriz africana também representaram um importante papel na caracterização do carnaval à brasileira. Isso pois, inicialmente, as escolas de samba foram um lugar de refúgio aos praticantes, onde podiam expressar letras em homenagem a seus orixás e reproduzir batuques de origem africana, que eram usados em cultos e rituais escravos. A relação entre o carnaval brasileiro e a religião africana fica clara ao observarmos as letras dos enredos das escolas, que, em grande parte, homenageiam a cultura africana e fazem menção aos seus orixás. Segundo o carnavalesco Milton Cunha[3], a relação é clara:

“A escola de samba é um grande terreiro de Candomblé. A maioria dos componentes de uma escola de samba é de santo, e todos pedem a benção e licença dos Orixás para desfilarem. Nas alas das baianas das escolas têm muitas Mães de Santo. O sagrado dos Orixás fica no terreiro e o que vai para a avenida é a alegria do Xirê (festa) dos Orixás, até porque o Orixá (mesmo no sagrado) ele dança, então o que vale é a alegria”.

Desta maneira, fica claro que o carnaval, embora tenha origem na religião católica e em um ambiente europeu, somente se personalizou da maneira que conhecemos por influência da população negra e de sua religião.

Mas, então, por qual razão a representação de entidades africanas ainda choca tanto a população brasileira nos desfiles de carnaval? Em 2022, pôde-se observar um tema comum entre as grandes escolas: religião de matriz africana e resistência. Contudo, nas redes sociais tal demonstração de apego à ancestralidade negra foi motivo de crítica[4]. Isso porque há uma confusão entre Exu e demônio, fruto do racismo religioso presente no Brasil, responsável por demonizar tudo aquilo que foge do padrão cristão. Assim, no pensamento desses indivíduos, o carnaval este ano exaltou o demônio, o que representaria um ultraje a Deus e aos cristãos. Porém, importante ressaltar que, por não ser uma entidade cristã, Exu não pode ser equiparado ao demônio, isso porque este é uma invenção cristã – não existindo um demônio nas religiões de matriz africana. Na realidade, Exu é um orixá mensageiro, responsável por estabelecer comunicação entre os humanos e os orixás.

Assim, o racismo religioso - preconceito frente a religiões de matrizes africanas - no carnaval é mais uma forma de demonizar a cultura negra. E, embora a intolerância religiosa seja crime, previsto no art. 20, caput, da Lei n. 7.716/89, ela pode se manifestar de forma silenciosa ou escancarada. Pode estar presente em uma destruição de terreiro ou em um comentário ofensivo insinuando que todos os praticantes dessas religiões vão para o inferno ou merecem morrer por terem sua fé. No caso do carnaval, a intolerância fica evidente quando, ao demonstrar suas origens brasileiras, os desfiles são vinculados a punições divinas que virão em decorrência da manifestação artística.

Se o carnaval permanecesse nos moldes europeus, com desfiles de máscaras e zombarias, as pessoas provavelmente não teriam a mesma reação que tem todo ano em que orixás e pessoas negras são homenageadas nos sambódromos. Isso, em si, é decorrente da “síndrome de vira lata” e do racismo religioso brasileiro, responsável por venerar produções europeias e estadunidenses e odiar tudo que não pertence a culturas de origem caucasiana. Até porque, o problema em si não é a existência de uma comemoração de uma religião pagã. Se assim fosse, veríamos críticas às diversas celebrações da cultura viking que acontecem no Brasil, por exemplo.

O principal problema, na realidade, é a origem do carnaval brasileiro, que é criticado na sua própria essência. As pessoas o amam, adoram os espetáculos na avenida e os passos de samba, mas sempre que as escolas fazem desfiles que remetem a sua origem, são demonizadas e criticadas. A razão para isso acontecer é simples: o carnaval à brasileira é oriundo da cultura negra e periférica. Infelizmente, de todas as cores que passam na avenida, é a preta que continua incomodando.


[1] Origem do carnaval. Revista da Faculdade de Direito da Faculdade Federal de Minas Gerais, 16 fev. 2021. Disponível em: Origem do Carnaval – Biblioteca Prof. Lydio Machado Bandeira de Mello – Faculdade de Direito da UFMG

[2] GERMANO, Iris. O carnaval no Brasil: da origem à festa europeia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, p. 131-145, 1999. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/40854710.

[3] DE OXALÁ, Pai Paulo. Samba com o Axé dos Orixás. Extra, 6 fev. 2015. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/religiao-e-fe/pai-paulo-de-oxala/samba-com-axe-dos-orixas-rv1-1-15260143.html.

[4] FREITAS, Suzyanne. Pastor Júnior Trovão critica Exu da Grande Rio e comenta morte de menina 11 anos: ‘Sacrifício ao Diabo. Uol, 28 abr. 2022. Disponível em: https://tvjornal.ne10.uol.com.br/gospel/2022/04/15000108-pastor-junior-trovao-critica-exu-da-grande-rio-e-comenta-morte-de-menina-11-anos-sacrificio-ao-diabo.html.

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