No ano do centenário da Semana de 22, que reuniu parte da vanguarda artística brasileira no Teatro Municipal, pensa-se acerca das gigantes ausências do evento e como estas são simbólicas para falar do distanciamento social periferia-centro
No ano de 2022, comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna, evento dos mais importantes do cenário artístico nacional. No Teatro Municipal de São Paulo, localizado na região central da cidade e, historicamente, lar de peças artísticas voltadas à elite paulistana, um grupo de músicos, pintores, escultores e literatos reuniu-se a fim de chocar a sociedade da época no centenário da Independência do Brasil. Com a proposta de romper com a tradição cultural do período, vista como colonizada e pouco original, os modernistas de 22 elaboraram uma série de apresentações e exposições da “vanguarda da arte brasileira”. Em troca, receberam uma série de vaias e reprovações, julgados como “muito progressistas” pelos espectadores.
Com o passar das décadas, os modernistas paulistas tornaram-se figuras mitológicas no cenário artístico (estadual e nacional) — a Semana de 22, por sua vez, tornou-se seu Olimpo. Artistas como Mário de Andrade, Anita Malfatti, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos tiveram seu esforço reconhecido: a partir daquele momento, a arte brasileira não seria mais a mesma; ali, um novo caráter da identidade nacional foi introduzido e executado e seus sujeitos ativos foram, com razão, consagrados.
Entretanto, a “revolução modernista” não abandonou completamente a tradição brasileira. Mesmo com toda a genialidade, criatividade e relevância artística, a Semana de 22 não conseguiu romper com uns dos mais velhas companheiras do país: as diversas estruturas de poder que criam dinâmicas hierárquicas de exclusão. Em sua maioria, os participantes da Semana de 22 eram homens brancos provenientes das elites cafeicultoras paulistas. As poucas mulheres presentes caíram na perda de memória da historiografia, enquanto os negros mal tiveram a chance de serem lembrados — ali, as populações marginalizadas foram sujeitos passivos das obras exibidas.


Lima Barreto, o “triste visionário”, considerado o príncipe da prosa brasileira, talvez seja o maior representante de tal fato. Um dos precursores do modernismo brasileiro, Barreto teceu em suas obras uma fina e precisa crítica à sociedade brasileira da época, sendo um intelectual de primeira categoria. Negro e pobre, morador do subúrbio carioca, Lima Barreto caiu no ostracismo de seus contemporâneos após publicar um artigo crítico ao modernismo paulista. Obviamente, não foi à Semana de 22 e faleceu subitamente poucos meses depois.
A cidade e a geografia urbana nos dão paralelos importantes acerca da distância da Semana de 22 e das camadas populares de São Paulo. Realizada no Teatro Municipal, a Semana teve como foco as elites paulistas, seja na autoria, seja no público. Evento da elite, os tomates jogados ao palco dos modernistas eram de primorosa qualidade. Claro, não poderia ser de outro jeito no glamuroso Teatro Municipal, com seu carpete vermelho e detalhes dourados.
Segundo Raquel Rolnik, professora da FAU-USP e coordenadora do LabCidade, social e geograficamente longe do Teatro, os territórios (então populares) da cidade de São Paulo passavam por um evento muito diferente da Semana de 22. Grande parte da população urbana era explorada em trabalhos operários sem legislação trabalhista, sofrendo não só com as péssimas condições laborais, mas também com as péssimas condições de infraestrutura das cidades.
Em sua coluna no UOL, “A outra semana de 22”, Rolnik narra a crise dos inquilinos, episódio em comum da história das metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro. Naquele ano, a população sofria com a contínua alta dos preços dos aluguéis de bairros populares e/ou industriais, como Brás, Mooca e Barra Funda. Assim, inspirada por movimentos anarquistas, instalou-se uma greve pelo direito à moradia, prezando pela suspensão dos pagamentos e, assim, manutenção da moradia de diversas famílias proletárias que viviam às margens da região central, em sua maioria negras e imigrantes.
No Rio de Janeiro, que havia acabado de passar pelo higienismo de Pereira Passos, a situação era semelhante. O escritor Lima Barreto, residente de Todos os Santos, periferia carioca, trata frequentemente do trem que diariamente tomava rumo ao centro da cidade, à Central do Brasil. Abandonada pelas divindades, Todos os Santos era deixada todos os dias por diversos trabalhadores que iam às regiões centrais para laborar, estudar ou se divertir — para exercer seus direitos básicos de cidadãos e moradores da cidade. Barreto ressalta firmemente os marcadores sociais do trem: pessoas negras, que passavam horas significativas de seu dia no transporte e tinham sua vida dividida entre dois opostos urbanos.


Atualmente, a situação urbana da cidade de São Paulo não é tão diferente. Cem anos se passaram, mas as lutas por moradia e acesso à cidade continuam mais importantes do que nunca. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, o número de pessoas em situação de rua cresceu 31% durante a pandemia. Ainda, segundo o G1, cresceu em 340% o número de famílias despejadas no Brasil durante este mesmo período. Além de tal situação, continua insuficiente a infraestrutura de transportes e lazer para a população periférica de qualquer metrópole do Brasil. Os milhares de Limas Barreto de nossas cidades continuam urbanamente ostracizados, privados de acesso aos mais básicos elementos da cidadania.
Em meio às comemorações do centenário da Semana de 22, é urgente analisar o quanto este evento histórico importantíssimo continua revelando muito sobre a sociedade brasileira — deste e do outro século. No entanto, é mais interessante contrastar o cenário, talvez, com o bicentenário da Independência. A Proclamação veio como uma proposta de autonomia e liberdade para o povo brasileiro; duzentos anos depois, nem nossas cidades pertencem ao povo, quem dirá a magnitude de um país. É uma longa caminhada, mas importa não perder o trem à Central do Brasil.

