SENTIDO BAIRRO

“I want something good to die for
to make it beautiful to live”
“Go With the Flow”, Queens of The Stone Age

A personagem desta breve história vive com uma névoa no cérebro, que cobre também seus olhos - muitas vezes, não consegue enxergar a felicidade, a beleza, a vontade de viver… viver sem olhos, sem vontade, sem beleza, sequer é vida. Te envelhece, te cansa. Por vezes, então, ela muda a perspectiva a fim de dispersar esta irritante névoa e, ao invés de olhar ao cinza asfalto, direciona seus olhos ao azul céu. Essa personagem, portanto, vive buscando a vida, a beleza e a felicidade no seu cotidiano.

Quantas mudanças aconteceram na vida da nossa personagem. Recorda-se, quando criança, de pegar um ônibus para a Sé com seu pai e de pensar que nunca mais iria para casa, tamanha a demora. O ônibus andava e andava e não chegava, nunca, a lugar algum. Reclamou, chorou, se estressou e jurou que jamais pegaria esse ônibus novamente. Nunca imaginou que, anos depois, o eterno trajeto ao Centro fosse se tornar rotineiro. Hoje em dia, às 5h30 da manhã, já está no ônibus que chega ao Largo às 7h. Seu privilégio é assistir a noite tornando-se dia, todos os dias. Mas não romantiza sua rotina e ela não lhe inspira, pelo contrário, te indigna, pois tudo parece inacessível e cheio de barreiras para quem é de periferia - a própria política, onde sua indignação residiria, lhe é restrita. Mas não há muito o que se fazer na prática além de pensar, observar, refletir… sua exaustão reside naquela linha de ônibus - seus pensamentos, observações e reflexões, também. Passam tão rápido
por sua cabeça quanto a paisagem na janela…

Onde mora não é mais uma cidade dormitório - tornou-se um bairro bastante comercial, com emprego, lojas, muito movimentado - mas, para ela, que resolveu estudar com a elite paulista, continua sendo. Além disso, ser paulista, mas de periferia, lhe faz crescer numa bolha; seus horizontes não se expandem para além dos bairros vizinhos, pois lá há tudo que você precisa, como mercados, escolas, algumas opções de lazer, como shoppings. Sair do extremo e ir cada vez mais ao Centro estourou a bela e simples bolha onde a personagem habitava, pois percebeu quão pequena era diante de pessoas tão grandes, de portas tão grandes, de um Salão Nobre tão grande, janelas, prédios, quadros tão grandes…

Diante da pequenês da sua própria tímida existência, a personagem sobrevive observando a simples e comum beleza da sua própria realidade. Já percebeu como a dinâmica Bairro e Centro é peculiar? O mundo é diferente Da Ponte pra Cá, basta observar a transição gradual do Bairro ao Centro quando a cruzar; os prédios, antes poucos, espalhados e mais baixos, tornam-se majoritariamente imponentes. As pequenas ruas, sinuosas e esburacadas, tornam-se grandes avenidas. Quanto mais ao Centro se chega, mais o mundo vai tomando um tom amarelo-amarronzado, de abandono, descaso, vazio. Prédios altíssimos para olhar-se, de cima para baixo, a miséria que cerca a riqueza. O prédio da Faculdade é diferente, pois há nele uma beleza óbvia, na sua arquitetura, em suas artes, mas foi pensado justamente para ser sufocantemente belo; a personagem prefere observar a beleza não-óbvia, quase natural, no ambiente que a cerca, nas pessoas ao seu redor.

A simples e comum beleza para ela, portanto, está no Sentido Bairro, não apenas - mas
principalmente - por uma questão psicológica de afastar-se fisicamente do sufocantemente belo prédio e das sufocantemente privilegiadas pessoas que a fazem sentir pequena. Boa observadora, a personagem sente satisfação em ver, ao longo do trajeto do ônibus, as grandes artes coloridas na lateral dos prédios cinzas; o olhar cansado e cheio de expectativas das pessoas nos pontos de ônibus ao enxergar, à distância, seu ônibus chegando; os prédios numa decrescente espiral, dando lugar à lojas, casas de tijolos, à visão de um céu enorme na tarde; a travessia da ponte, que torna as ruas pequenas, sinuosas, esburacadas e familiares. O vento que sopra no Bairro, particularmente no da personagem, carrega consigo a brisa da Represa do Guarapiranga - sente o conforto de um clima ameno em contraponto ao quente asfalto do Centro.

A névoa em seu cérebro, quando se depara com esse tipo de sentimento, vai embora por tempo determinado. A cansativa rotina não inspira nossa personagem, mas a beleza do banal trajeto ao Bairro lhe dá o grau de motivação necessário para enfrentar mais um dia, para aproveitar a oportunidade que tem de estudar com a elite e seus efeitos a longo prazo - retribuir ao Bairro o que obterá no Centro. A beleza do banal lugar onde mora lhe faz sentir menos pequena. Pensar em, mais uma vez, ir do Bairro ao Centro, ainda lhe causa grande mal estar, mas dorme. Nada Como um Dia após o Outro Dia. Nada como assistir a noite tornando-se dia, todos os dias.

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