Star Trek para uma nova geração de fãs

O espaço: a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise. Em sua missão de cinco anos… para explorar novos mundos… Para pesquisar novas formas de vida e novas civilizações… Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve

Texto da vinheta de abertura de Star Trek: A Série Original

Na manhã de 7 de dezembro de 1941 ninguém poderia imaginar que os rumos da Segunda Guerra Mundial, já em curso na Europa, mudariam de forma tão drástica. Era uma manhã de domingo ensolarada em Honolulu, no Havaí, quando porta-aviões japoneses bombardearam Pearl Harbor em um ataque surpresa que deixaria o mundo de boca aberta. Esse evento mudaria para sempre a vida de um jovem rapaz de apenas 20 anos, nascido no Texas que se alistou na força aérea americana e atuaria como piloto de bombardeio. Seu nome era Gene Roddenberry, um rapaz metido a escritor de roteiros para televisão e ávido leitor de gêneros de ficção científica e fantasia.

A milhares de quilômetros de distância e uns três anos à frente, a vida de outro jovem também mudaria para sempre com a guerra. Ele atendia pelo nome de James Montgomery Doohan, canadense de ascendência escocesa e sotaque forte, o jovem tenente participaria da maior operação militar anfíbio da história, o famigerado Dia D. O ocorrido é digno de nota: ao desembarcar na praia o mau tempo e as dificuldades no terreno para combater os alemães acabaram lhe rendendo seis tiros, uma das balas arrancaria seu dedo médio da mão direita. Herói discreto, nunca fez muito para esconder as marcas de guerra, entretanto não fazia “propaganda” sobre o ocorrido.

Os destinos desses dois homens estavam traçados. Alguns anos mais tarde eles se encontrariam mais uma vez, agora em uma missão pela paz. Gene voltaria a embarcar em uma nave na pele do criador da série de ficção científica mais icônica (e aclamada) de todos os tempos: Star Trek. Já James Doohan embarcaria na mesma nave de Gene, agora como seu engenheiro-chefe de máquinas.

Conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas (uma tradução à altura), a série teve sua estreia no ano de 1966 nos Estados Unidos. Mas até que o público pudesse apreciar todas as três temporadas da série clássica e suas inúmeras produções posteriores, Star Trek passaria por “poucas e boas” como alguns costumam dizer. Seu criador, o tal Roddenberry, demorou a emplacar porque algumas produtoras acharam o roteiro muito complexo e apenas a Desilu Produções se interessou pelo projeto de modo integral contratando Gene como roteirista e também produtor. O episódio piloto com Jeffrey Hunter como Capitão Christopher Pike a frente da USS Enterprise foi descartado e a série passou por algumas mudanças até conseguir sua grande estreia.

The Cage (1965), episódio piloto de Star Trek. Fonte: Screen Rant.

Para um homem que tinha não só assistido, mas participado dos horrores da Segunda Guerra Mundial, Roddenberry via Star Trek como algo maior do que apenas um projeto pessoal, era uma mensagem de seu criador na esperança um mundo melhor, ainda que utópico. Com seu lápis e papel na mão, Gene não queria guerra com ninguém. Não por acaso, uma das máximas do seriado reside em sua mensagem pacifista - sempre a diplomacia e nunca o conflito; além da proposta da união de diferentes etnias e governos formando a Federação Unida dos Planetas. Roddenberry imaginou uma realidade a milhares de anos à frente onde não existiriam disputas nacionalistas e econômicas, sem preconceitos e distinções raciais; era, portanto, um projeto que visava uma sociedade evoluída, tudo isso aliado ao avanço científico a serviço da exploração espacial. As disputas humanas teriam sido superadas para o bem maior com um objetivo ousado: a exploração de novos mundos e a investigação espacial pacífica pelos tripulantes da USS Enterprise, a “menina dos olhos” da Frota Estelar.

A premissa da série é básica com cada episódio funcionando como uma história fechada e centrado em sua equipe de protagonistas liderada pelo intrépido Capitão James Tiberius Kirk (William Shatner); de ascendência mista vulcana/humana o estóico Sr. Spock (interpretado pelo carismático Leonard Nimoy) como o oficial de ciências e primeiro oficial comandante; o sério Leonard McCoy (DeForest Kelley) como oficial médico-chefe; nosso herói de guerra James Doohan como o engenheiro-chefe Montgomery Scott; a bela afro-americana Nyota Uhura (Nichelle Nichols) no cargo de chefe de comunicações da nave; o piloto japonês Hikaru Sulu (George Takei) e o navegador russo Pavel Chekov (Walter Koenig).

O curioso é que Star Trek não foi um sucesso imediato, estando sob ameaça constante de cancelamento em todas as suas três temporadas, se mantendo firme mais pela força dos fãs com milhares de cartas implorando pela permanência da série do que pelo trabalho dos produtores. Entretanto, o verdadeiro sucesso da série veio na década de 1970 com a reprise e a avalanche de novos fãs que passaram a amar o universo de Jornada nas Estrelas.

Para uma nova geração de espectadores do século XXI, acostumada com os efeitos computadorizados de filmes no estilo Blockbuster talvez seja difícil, em um primeiro momento, acostumar-se com uma série da década de 60. Ainda que as aventuras de Kirk e companhia ocorram no espaço ou em planetas pela galáxia afora, o que vale é o uso de efeitos práticos e cenários reais, portanto sem tela verde aqui. Tudo é feito de modo que nos dá a sensação de estarmos vendo um teatro, no espaço, mas ainda teatro. Se alguns efeitos visuais ou especiais podem nos causar estranhamento, não perdemos em nada no que concerne às atuações, sobretudo do “trio parada dura” encabeçado por Kirk, Spock e MacCoy. Aliás, é aqui que reside o maior valor da série: o espaço é, em muitos momentos, o ambiente que ajuda a potencializar os conflitos e dúvidas de personagens tão diversos; a viagem interestelar, ainda que seja o principal objetivo também funciona como “pano de fundo” para revelar os dilemas pessoais e profissionais que cada um dos tripulantes enfrenta a bordo da nau capitânia da Frota, tudo isso aliado a representatividade de uma sociedade ideal.

Movimento de câmera inovador em episódio da primeira temporada de Star Trek: A Série Original. Fonte: Hulu.

William Shatner como o Capitão Kirk é o responsável pela segurança de sua tripulação, por isso recai sobre ele todo o peso de uma decisão. Seu Kirk é audacioso, bonito, carismático e responsável por 99% das conquistas amorosas (é difícil encontrar um episódio onde uma moça não caia sob os seus encantos), o que não significa que ele faz o tipo “mulherengo clássico”, pelo contrário, ele é incrivelmente romântico. Sua personagem funciona como uma espécie de herói, se sacrificando por seus tripulantes e colocando sua vida em risco por sua nave inúmeras vezes.

S’chn T’gai Spock (não, você não vai conseguir pronunciar o primeiro nome dele) é talvez o personagem mais querido da série. O personagem de Nimoy é carismático de um modo diferente, uma espécie de Sr. Darcy à moda Vulcana que é inteligente, comedido e absurdamente lógico. A riqueza de Spock reside no embate que o oficial de ciências enfrenta ao tentar equilibrar a sua metade humana e a metade vulcana, bem como o fato dele ser um dos poucos vulcanos a servir na Frota Estelar, o que rende alguns dos melhores episódios da série. Muito do que está na tela foi criação do próprio Nimoy: a famosa saudação com os dedos unidos, a reclusão, a tática de fazer seus inimigos desmaiarem ao apertar um ponto em específico entre ombro e pescoço. Não à toa que, por muito tempo, o astro sofreu para delimitar sua própria identidade para além de seu personagem.

O médico Dr. MacCoy (também conhecido como magro) é o irônico da equipe e por vezes o mais rabugento. É o aliado perfeito, porque onde Kirk e Spock não funcionam, o médico está lá para auxiliá-los. Suas discussões com Spock são cômicas e, às vezes, carregadas de filosofias de vida.

A química entre esses três personagens entrega para a série algumas de suas melhores facetas, pois os coloca em constante aprendizado, tornando a parceria do trio algo crível, onde somos capazes de nos reconhecer, sobretudo no que diz respeito a química de Spock e Kirk que, aliás, gera muitos debates. Se nos bastidores William Shatner teve ciúmes do sucesso de Spock, na tela o que reina mesmo é a amizade e a cumplicidade de ambos. Para alguns ainda seria mais que apenas amizade. Como esquecer o episódio 16 “Shore Leave” da primeira temporada, quando Kirk crente que Spock atendeu ao seu pedido de coçar as suas costas fica completamente desapontado ao perceber que outra pessoa estava fazendo o serviço? Inúmeros fãs alimentam a teoria de que existiria a tal “broderagem” entre o vulcano e o capitão humano, o que gerou um séquito e fez surgir inúmeras montagens na ‘internet’ com os personagens aos beijos e amassos, com direito à muitas “fanfics” para explorar essa relação.

Spock, Capitão Kirk e Dr. McCoy em um meme ancestral de Star Trek. Fonte: Treklore.

Mas o brilhantismo do elenco não para por aí. Outra premissa básica de Star Trek é a superação das diferenças étnicas e raciais. Gene Roddenberry teve uma grande sacada ao colocar uma mulher afro-americana na ponte da Enterprise como chefe de comunicações. Nichelle Nichols dá graça e beleza à sua Uhura e, no auge das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, uma mulher negra assumindo um posto de liderança não é algo que possa ser ignorado. Whoopi Goldberg, uma grande estrela de Hollywood (e que mais tarde viria a interpretar a vidente Guinan em Star Trek: A Nova Geração), teve sua vida marcada por esse momento, anos mais tarde ela confessaria como: “Quando eu tinha 9 anos de idade, Star Trek estreou na TV. Quando eu vi aquilo, comecei a gritar pela casa. ‘Mamãe, vem ver! Vem logo, todo mundo! Tem uma mulher negra na televisão e ela não é a empregada!’ Eu sabia naquele momento que eu poderia ser o que quisesse.” O impacto foi tão grande que ainda se comenta do famoso encontro entre Nichols e o ativista Martin Luther King, que a convenceu a não abandonar a série devido à importância de sua personagem para a TV.

Temos ainda o primeiro beijo inter-racial da história da TV e suas muitas histórias de bastidores que vão desde a proibição da transmissão por órgãos censores do governo, o veto dos produtores e alguns que afirmam que os lábios dos astros nunca se tocaram. Outra história que circula na boca pequena é de que Shatner teria passado por cima do roteiro original quando, na verdade, o beijo seria trocado por Nimoy e Nichelle.

Não podemos nos esquecer ainda das hostilidades que a população japonesa sofreu nos EUA após os ataques a Pearl Harbor. Colocar um japonês como navegador ao lado de um piloto russo, sim, caros leitores (era a década de 60, tempos de Guerra Fria), foi, no mínimo, corajoso. Sulu e Chekov formam uma dupla excelente. George Takei, atualmente um grande ativista da causa LGBT em Hollywood, confessaria anos mais tarde que a série pecou na falta de representatividade homoafetiva, mas que achava curioso o fato de alguns espectadores identificarem essa relação na dinâmica Spock-Kirk.

Filmes mais recentes têm feito da representatividade sua razão de ser. Eternos de 2021, dirigido por Chloé Zhao, traz essa mesma proposta, 55 anos após Star Trek ter se aventurado nesse terreno que era considerado perigoso. Alguns produtores da série clássica foram contra essa atenção para a diversidade… mas felizmente saíram vencidos.

O primeiro beijo inter-racial da história da televisão dos EUA, protagonizado por William Shatner e Nichelle Nichols em Star Trek. Fonte: NBC News.

Jornada nas Estrelas é rico por criar um universo que serviu de referência para praticamente qualquer produção que tem como tema espaço e interação com novas formas de vida alienígena. Alguns episódios são icônicos como o “Mirror, Mirror” ou “Universo Espelho” o quarto episódio da segunda temporada que é uma excelente aula de como contar uma história de realidade alternativa. O Reboot de filmes, a partir de 2009 dirigido por J.J. Abrams, usaria o mesmo recurso para re(visitar) sua versão de Star Trek; os filmes da Marvel aderiram a essa temática sem medo. Mas nem tudo no seriado é perfeição, alguns defeitos estão, por exemplo, na exaustiva sensualização das personagens femininas.

Os “trekkies” (como se autodenominam os fãs de Star Trek) tem muito o que comemorar. O legado deixado pela série clássica bem como seus bastidores teve impacto não apenas na indústria cultural e do entretenimento como na própria ciência. Toda uma mitologia foi criada para o universo de Jornada nas Estrelas. A produção de séries, filmes, spin-offs, brinquedos, as convenções de fãs de escala global, uma série animada, o desenvolvimento do universo Geek, o ensino da língua Klingon e, como se não bastasse, a NASA ter rebatizado seu primeiro ônibus espacial para “Enterprise” a pedido dos “trekkies” ou ainda o uso dos nomes dos personagens do seriado para batizar corpos celestes recém-descobertos e a última da vez com William Shatner fazendo sua primeira viagem ao espaço ao lado de Jeff Bezos, causando comoção no “fandom” e desconfiança nos mais céticos, o que prova que a série está mais viva do nunca. Muitos apreciadores da série tiveram suas vidas modificadas: Neil Armstrong e Mae Jemison, a primeira astronauta negra, se inspiraram nos personagens de Star Trek para seguir na carreira.

O maior legado de Star Trek está em levar uma mensagem pacífica para o mundo tendo como porta-vozes personagens que representavam a diversidade, pensando em um universo capaz de lidar com suas problemáticas de modo diplomático, unindo esforços visando explorar novos mundo, novas formas de vida e civilizações e audaciosamente indo onde nenhuma série jamais esteve. A missão de 5 anos da USS Enterprise se tornou uma missão de 55 anos e enquanto o homem ainda desejar descobrir e explorar, ao olhar para o céu ainda poderá ver Kirk e sua trupe nos guiando para além do horizonte em velocidade máxima de dobra.

Ficha Técnica: Star Trek - Série Clássica

  • Transmissão: 1966 até 1969 - Três temporadas com 79 episódios ao todo (média de 50 minutos por episódio);
  • Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Nichelle Nichols, George Hosato Takei, Walter Koenig;
  • Criador: Gene Roddenberry.

Nota do editor - Recomendações para quem quer começar no universo de Star Trek

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