Tudo que se pode aprender com Marília

Particularmente nunca fui chegada ao sertanejo. A sofrência de bar não me atraia, e eu preferia sofrer com o choro manso de uma MPB. Também evitava frequentar as famosas baladas country naquele estilo “mulher não paga desde que possua beleza padrão e confunda estar solteira com estar disponível para qualquer um“. Todavia, lembro que, quando mais nova, me pegava ouvindo Marília Mendonça por algumas vezes, sabendo de cor seus refrões e, ainda hoje, me deparo com algumas músicas suas em minhas playlists. A adolescente de 16 anos que um dia fui, na época em que Marília Mendonça se lançava ao mundo com seu primeiro sucesso, “Infiel“, talvez apenas se sensibilizasse com as letras sinceras da compositora que também era dona de uma voz potente e marcante, sem saber a dimensão e a grandeza de seu sucesso, sem entender o que aquela figura, sempre emocionada e exuberante, realmente significaria para a indústria musical nacional e para seus fãs.

O mundo da música sertaneja não se tornou mais atrativo para mim nos anos que se seguiram, muito pelo contrário: o avanço da intolerância à la bolsonaro obteve o apoio massivo de cantores sertanejos. Marília postou “#EleNão” em 2018 e foi intensamente criticada e ameaçada. Ela optou pelo silêncio acerca de questões políticas por temer pelo seu bem-estar e de sua família, mas nunca voltou atrás em suas declarações.

Nesse ambiente de puro machismo, crescia e se afirmava uma voz feminina, cujo timbre formava ondas mais intensas e alcançava notas mais altas que seus concorrentes. Maravilha Mendonça, como se referiu a ela Caetano Veloso, sempre se posicionou a favor das mulheres, colocando em suas composições o eu lírico feminino em destaque: a amante, a casada, a trabalhadora, a mãe, a solteira, a apaixonada, a cansada, a bêbada, a sofredora, a intensa… Todas as facetas sociais que estamos livres para ser ou não ser, tudo que nos pertence, mas nunca nos define por completo.

No ano de 2020, diversos cantores sertanejos protagonizaram notícias de festas clandestinas, principalmente em Goiânia, terra natal de Marília Mendonça. Já ela, foi a dona da live mais assistida mundialmente. Em seu último show no mundo pré-pendêmico, Marília parou sua apresentação ao ver uma mulher ser agredida na plateia. “Você está maluco?”, disse a cantora ao agressor. Algumas semanas atrás, o mundo viu o famoso rapper Travis Scott e sua parceira, não menos famosa, Kylie Jenner, continuarem o espetáculo musical mesmo com parte do público implorando por ajuda. Oito pessoas morreram e uma criança está em coma induzido.

Durante uma corrida de Uber que fiz na semana da morte da cantora, o motorista me contou que Marília havia vendido o jatinho particular para pagar os funcionários: “se não tivesse vendido, estaria viva”, ele disse. Se não tivesse vendido, talvez não pudesse manter tantas famílias que dependiam do seu trabalho. Se não tivesse vendido, talvez fosse obrigada a continuar cantando em eventos clandestinos para sustentar os luxos. Se não tivesse vendido, talvez eu não estaria escrevendo esse texto de admiração pela pessoa que foi. Se estaria viva ou não, já não sei dizer.

Se há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia, não chegaremos a uma convincente explicação do porquê ela e não outro, porque agora e não daqui a 40 anos. E, já que parafraseio Shakespeare falando de Marília Mendonça, aproveito para lembrar do dom que alguns seres humanos possuem de tocar nossos corações com temas tão cotidianos, ao mesmo tempo tão importantes. O amor, o adultério, os términos e os recomeços da vida escritos no papel e cantados no palco: Marília trazia emoção e sensibilidade em tempos de tanta indiferença e egocentrismo. Ela representa - e conjugo esse verbo no presente com tranquilidade - diversas mulheres do Brasil, cada qual com seus desejos, seu corpo e seus talentos.

Tudo que se pode aprender com Marília está longe de caber em um texto, até com a sua partida aprendemos valiosas lições. Sua morte inesperada ressignificou os versos “ninguém vai sofrer sozinho, todo mundo vai sofrer“, e a comoção coletiva foi uma prova de fidelidade para uma artista que tanto valorizou esse atributo em suas canções.

Depois de uma perda tão grande, resta o conforto de poder cuidar de longe, como na música de autoria de Marília e interpretada por ela junto com Gal Costa, em que falam as rainhas:

“E se eu tiver distante

Não quer dizer que eu não ame

Tô ensaiando a despedida

Mesmo tendo outros planos”

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