O esporte é para todos, mas é para todas?

Yasmin Talarico | Gazeta Arcadas

Casos de machismo, pontuais, recorrentes, escancarados ou sistemáticos não são novidade para meninas e mulheres que praticam, torcem, noticiam ou estão envolvidas no meio esportivo. Na realidade, trata-se de apenas mais alguns dentre muitos obstáculos que devem ser superados por aquelas que amam e/ou trabalham com esportes. Em muitos casos, esses obstáculos acabam por se tornar fatores de limitação, afastando definitivamente atletas de perseguirem a prática como profissão ou mulheres de se envolverem com o meio esportivo no geral, tirando-lhes a oportunidade de aproveitar os benefícios trazidos com o esporte, que vão muito além de saúde física.

Ainda, a prática e a teoria mostram que o machismo dentro do esporte pode assumir diversas facetas, e algumas delas são potencializadas a depender da modalidade esportiva em questão, enquanto outras o são a depender da classe social e da etnia da atleta. Nesse âmbito, a própria percepção da sociedade sobre modalidades específicas se divide no que são esportes “para mulheres” e “para homens”, caindo na primeira categoria esportes mais delicados e visualmente bonitos, enquanto na segunda estão os esportes de contato, agressivos e com uso de força, como o futebol, o basquete, lutas em geral e… o rugby.

O rugby, para muitas mulheres, é apresentado pela primeira vez quando elas ingressam na faculdade e são convidadas a entrar no time da casa. Para algumas, como foi para mim, representa uma nova oportunidade. Afinal, eu, que nunca “fui de esportes”, resolvi conhecer a modalidade mais diferente que consegui encontrar porque, ao contrário do meu irmão mais velho, não fui criada com incentivo à prática de esportes. Aprendi a detestar a Educação Física na escola, que era um momento em que apenas os meninos jogavam futebol. A prática ocasional de outros esportes clássicos era obrigação, mas as meninas eram as últimas escolhidas para os times. Na faculdade, no entanto, recusei-me a acreditar que eu não gostava de esportes só porque eu supostamente era incapaz de praticá-los.

Para aquelas que ainda não conhecem, ou sabem pouco, e explicando de forma simplificada, o rugby é um esporte de território em que o objetivo é avançar no campo adversário até a linha ‘final’, passando a bola para trás ou para o lado e a colocando no chão, fazendo um “try”, que vale 5 pontos. Também há a oportunidade de tentar chutar a bola entre os aros que compõe o “H” no fim do campo (“conversão”) — a conversão bem-sucedida vale mais 2 pontos. Para impedir esse avanço, o time adversário pode partir para o tackle (derrubar, com técnica, o adversário no chão) contra a jogadora que está em posse bola. Existem diversas modalidades diferentes de rugby, sendo as mais comuns a jogada com 15 jogadoras e a jogada com 7 jogadoras (o “Sevens”).

Fazendo uma breve contextualização histórica[1], esse esporte “diferente”, dizem as lendas, nasceu em 1823 na cidade de Rugby – Inglaterra, obviamente entre meninos. Importante mencionar que o rugby surgiu antes do “futebol americano”, amado entre os norte-americanos, que surgiu em meados de 1867 como uma adaptação do rugby.

Por sua vez, apesar de ter crescido no meio universitário europeu apenas nos anos 60 e 70, registros de partidas de rugby feminino remontam aos anos 1880. No Brasil, a primeira equipe de rugby masculino a que se tem registro é de 1891. A União de Rugby no Brasil foi fundada em 1963 e não há registros dos primeiros jogos femininos, mas os primeiros times apareceram nos clubes em 1997. A seleção brasileira feminina começou a jogar a relativamente pouco tempo, em 2004.

Já na Faculdade de Direito da USP, o time de rugby feminino foi fundado em 2014, inspirado na fundação do time da Seleção USP, em 2013. Nas primeiras partidas, as atletas tiveram que usar o uniforme do time masculino emprestado, nos intervalos de seus campeonatos.

Foi com o acontecimento das Olímpiadas de 2020 nesse ano, que muitos brasileiros ouviram a falar do rugby pela primeira vez. Não apenas do esporte, mas especificamente do rugby feminino, já que o time brasileiro masculino de “Sevens”, modalidade jogada nas Olimpíadas, não se classificou. Por sua vez, o time feminino brasileiro foi o único da América Latina a se classificar, junto aos grandes nomes do rugby feminino, que vêm de países onde o esporte é muito mais conhecido e valorizado, como na Nova Zelândia, na Austrália, no Fiji e no Canadá.

Aqui, é importante mencionar que as atletas da seleção de rugby do Brasil não apenas chegaram às Olimpíadas, dentre os 12 melhores times do mundo. Elas chegaram às olimpíadas ao lado de diversas atletas vindas de um país que desvaloriza o esporte como profissão no geral; um país em que falta incentivo, patrocínio e renda para a maioria das atletas; inclusive, muitas das atletas que compõem a seleção possuem outros empregos e fazem faculdade.

Até aí, “tudo bem”, essa é uma realidade presente na vida da maioria dos atletas que foram representar o Brasil nesse momento mágico, nos fazendo esquecer, por algumas horas, o momento político e social em que nos encontramos. Mas, depois de anos enfrentando tudo isso, além de muito machismo no caminho, as meninas da seleção chegaram a Tokyo para enfrentar mais um desafio: o torcedor brasileiro.

Quem estava torcendo e já conhecia o rugby se deparou com cenas chocantes de linchamento virtual contra essas atletas depois da derrota nos primeiros jogos. Enfrentando seleções favoritas mundialmente e de alto nível, o desentendimento técnico sobre o jogo, em que um try pode valer de 5 a 7 pontos, traduzindo-se em altos valores finais nos placares, traduziu-se em comentários absolutamente repulsivos nas principais redes sociais esportivas no Brasil. Um grande veículo jornalístico esportista chegou a reportar a primeira derrota com uma manchete particularmente desrespeitosa: a ESPN Brasil postou em suas redes que a derrota da seleção feminina era “Inacreditável!”. Neste momento, por óbvio, não faltaram homens, que provavelmente nem conheciam o esporte, jorrando comentários de cunho sexista e homofóbico nas publicações.

Episódios assim, como já mencionado, não são novos, apesar de ser inacreditável continuarem acontecendo em pleno 2021. Mas, saindo de Tokyo, vamos rebobinar para uma situação que ocorreu poucos meses antes do maior evento esportivo do mundo, que chamou atenção para mais uma face do machismo no esporte.

Em julho desse ano, o time feminino de handball de areia da Noruega, durante o torneio europeu, foi multado em 1.500 euros (mais de 9.500 reais) por descumprir o regulamento oficial da modalidade quanto ao uniforme dos times femininos[2]. O regulamento da Federação Internacional de Handball, quanto à vestimenta, requer que as atletas femininas usem a parte de baixo do biquíni com laterais de no máximo 4 polegadas, enquanto homens podem utilizar shorts de até 4 polegadas acima do joelho, desde que não sejam “muito folgados”. O motivo técnico por trás da regra? Desconhecido.

Essa hiperssexulização de atletas mulheres, em que a exibição dos corpos femininos é utilizada como forma de atração do público masculino, é mais uma faceta do sexismo no esporte. Isso fica ainda mais óbvio ao olharmos para o uniforme utilizado no campeonato de futebol americano conhecido como “Legends Football League”.

Nesse sentido, vemos que o esporte feminino continua sendo visto como forma de entretenimento sexual pelos homens e, já que nenhum homem assistiria um esporte jogado por mulheres apenas pela técnica esportiva das mesmas [contém ironia], devemos fazer algo para prender a atenção deles. Por que não jogar seminuas? Afinal, os corpos femininos, como reiteradamente somos lembradas[3], não pertencem às mulheres.

O esporte, como é muito dito por aí, tem um grande poder de transformação social. Para as mulheres, ainda, vai além: transforma a relação consigo mesma, a forma como enxergamos nossos corpos, revoluciona o que acreditamos que somos capazes de fazer e muda nossa percepção de mundo.

Em nosso país, em que as grandes disparidades socioeconômicas o tornam, por vezes, a única alternativa lícita de mudança de classe no atual sistema econômico, estamos cercados por exemplos. O Brasil, durante as Olimpíadas, encheu a boca para exaltar as histórias de superação dos medalhistas de Rayssa Leal, Ítalo Ferreira e Rebeca Andrade. E o mesmo Brasil encheu a boca para espalhar ódio e deboche em face de atletas, principalmente mulheres, que mostraram desempenhos abaixo do “esperado” durante o evento.

Diante desse cenário, fica o apelo: não só em época de olimpíadas deveríamos discutir o potencial transformador dos esportes, os exemplos de superação ou evidenciar as dificuldades que existem para se perseguir o esporte como profissão no Brasil. Também, não só em época de olimpíadas deveríamos apoiar e torcer por nossas atletas e times femininos. Mas, como é o caso com o machismo em todas as suas facetas, o âmbito sistemático, enraizado em nossas estruturas, que foi ao longo de centenas de anos ensinado e reforçado nas mentes e na criação das pessoas, é o mais difícil de combater.

Para as meninas e as mulheres que leem, talvez o esporte ainda não seja, mas com certeza deveria ser para todas. A profissionalização não é o único caminho, e se você não pratica esporte por quaisquer outros motivos, tudo bem. Mas não deixe de praticá-los por se ver como incapaz. A sociedade, como um todo, ensina meninos a terem coragem e meninas a terem medo, mas, seja para o que for, se todos eles podem, todas nós podemos.


[1] RUGBY, Portal do. História do Rugby. Disponível em: https://www.portaldorugby.com.br/entenda-o-rugby/historia-do-rugby. Acesso em: 08 out. 2021.

[2] TIMES, Ny. Women’s Handball Players Are Fined for Rejecting Bikini Uniforms. Disponível em: https://www.nytimes.com/2021/07/20/sports/norway-beach-handball-team.html. Acesso em: 08 out. 2021.

[3] Veja mais: https://g1.globo.com/saude/noticia/2021/10/07/veto-de-bolsonaro-a-distribuicao-de-absorventes-expoe-pobreza-menstrual-entenda-o-conceito-e-o-que-esta-em-jogo.ghtml

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