Instruções para vestir um cadáver

Comece se despindo de toda a solenidade, de toda consagração, incenso ou cortesia.
Não és mártir ou algoz, és cabide. És veículo de pragmatismo. Se a família o visse do jeito que está, desabaria. Não o conhece, só tenta; e falha. E ainda está pelado. Não você, ele. Aquilo.
Apelade-se tal qual. Apelade-se de convicção e crítica, de pessoa e sentimento. Não é poesia, é morbidez. Hilda dizia que costura-se o infinito no peito. Na costura do peito do homem, porém, só se via finitude; senão de batimentos, cor e felicidade, da incrível habilidade do médico legista de fechar pontos (não que alguém se importe).

Prossiga por separar as roupas. Dos trajes sumários não se tira muito. Encaixe nos pés,
um por vez, e puxe pelas pernas até que se sinta força contrária. O próximo passo exige uma leve erguida da parte de baixo do defunto. É de se imaginar que agora fique mais fácil. Meias. Seria este seu par preferido? Espera que não. Os pés já inchados te olham com ânsia. Cobiçam rapidez, cobertura, descanso. Se este fora, de fato, seu par preferido, não extrapole. Engenheiro ou contador? Muito generalizante. Se aquelas fossem suas meias preferidas, não duvide de uma coisa e de uma coisa só: não gostava de animais. Um pé por vez (não que isso precise ser dito, é claro).

Doador. Já gosta um pouco mais dele. Enxerga-se que não se despiu corretamente.
Começa a imaginar seu último brinde. À vida longa? Sorri de canto. Algo sobre a vitória de seu time. Quer pegar a camisa, mas imagina que um homem de camisa sem calças em sua mesa seria mais estranho que um de calças sem camisa. Percebe que não se despiu corretamente. Escolhe as calças mesmo assim. Botão, zíper. Um pé, o outro. Puxe pelas pernas até que sinta força contrária. Levante o que for preciso. Zíper, botão. Ajeite a barra. Cinto.

Como está sozinho, pegue a camisa e a ponha em seu ombro. Dirija-se à cabeça do cadáver e levante seu tórax já intumescido, puxando-o em sua direção e formando com suas pernas (não suas, as do morto) um imperfeito ângulo de noventa graus. Ainda não entende como pode uma pessoa não liberar calor. Lembra que não é pessoa, é invólucro. Invólucro de
expectativas, não próprias, mas de afins. Um braço de cada vez (como se estivesse em casa).

Botões. Não compreende como a tarefa adjacente consegue ter tanto peso quando em situação adversa. Cada botão laceado te lembra um ponto final. Sete são eles, mas deixa um aberto. Nem em morte conseguiu algum tipo de fechamento (desejo da família). Por dentro amálgama de formol, álcool e glicerina. Por fora espelho.

Com o paletó não se faz muito diferente; encaixe. Os braços duros já começam a parecer não-humanos em suas mãos, o que deixa a tarefa mais fácil. Deixa os sapatos por
último. Faz sentido - ou acha que faz, e isso vale. Sapatos novos, teve que dançar os cadarços (tarefa surpreendentemente vivaz). Um pé de cada vez.

Pensa sobre a escolha dos irmãos que o levou a vestir essas roupas naquilo. Meias
feias, calças prosaicas, paletó infecundo. Tanatopraxia de praxe não fosse a escolha da camisa: nunca gostou muito de desenhos infantis. Despiu-se

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