Ao lado de adjetivos como “neoliberal” e “negacionista”, chamar alguém de pós-moderno se tornou bastante natural no ambiente universitário. Aparentemente, trata-se de um termo pouco científico, mais ligado a percepções do que a conceitos palpáveis. Quem nunca se pegou falando mal da pós-modernidade? Quem nunca puxou a carta da modernidade líquida em alguma redação escolar? Bem, Zygmunt Bauman tem bastante a ver com tudo isso, mas, assim como tentarei deixar de lado um pouco da superficialidade, precisarei recorrer a um trabalho mais antigo daquele sociólogo.
Em Legisladores e Intérpretes (1987), Bauman traçou um caminho que se mostrou profético até para as discussões mais corriqueiras de Twitter. Antes mesmo de cunhar termos como “amor líquido” e “modernidade líquida”, o sociólogo polonês estudava o que parecia ser uma nova fase da história, na qual as relações sociais, os avanços tecnológicos e os ambientes de trabalho se conformariam a algo que se tornava descontrolável: a própria mudança. Naquela época, a ideia de pós-modernidade era amplamente estudada como uma forma de tornar palpável aquilo que se apresentava aos sociólogos e aos filósofos que, por estarem diante de algo “revolucionário”, demorariam para entender.
Bauman inicia a versão brasileira de seu livro nos avisando justamente dessa percepção abrupta que a comunidade científica tentava encarar de uma maneira pouco produtiva. Essa maneira era tentar definir o novo (a pós-modernidade) a partir da negação do velho (a modernidade), gerando diversas análises e teorias que se prestavam a dizer como as coisas deixaram de ser o que são. O que poucos parecem ter feito, porém, foi definir positivamente essa nova era.
O que é a pós-modernidade
O autor de Modernidade Líquida não se limitou a explicar este conceito. Antes, traçou todo o caminho pelo qual ele acreditava que a humanidade percorreu para estar onde está. Melhor dizendo, sua obra explica como os “intelectuais” passaram de “legisladores”, ou seja, de pessoas que ditam as regras de organização, para “intérpretes”, isto é, pessoas que buscam conformar a (des)organização a partir de alguns ajustes.
O conceito foi originalmente cunhado por Arnold Toynbee como sinônimo de “irracionalidade, anarquia e indeterminação ameaçadora”[1], algo que de certa forma está presente no uso vulgar do termo. Comumente associado a movimentos de extrema liberalização como o poliamorismo, ser pós-moderno ainda significa fugir do tradicional sem um “bom motivo”. Existem muitas consequências desses movimentos, sendo o preconceito um deles.
Porém, o fato de existirem objeções que defendam posições mais “tradicionais” não significa que elas estejam todas sem razão. Aliás, outra consequência deste lado vulgar da pós-modernidade é justamente a aversão a tudo aquilo que se diz natural, tradicional, cultural, enfim, a tudo o que fundamenta suas bases em algumas certezas inquestionáveis (dogmas). E é aqui que mora o coração do conceito.
A pós-modernidade é o período histórico em que hoje vivemos, marcado principalmente pela descrença, de antemão, de quaisquer certezas. Para o pensamento pós-moderno (e, vejam, nosso pensamento é tecnicamente pós-moderno), as hierarquias são, em si, reprováveis; os dogmas religiosos, meras opiniões institucionalizadas; a filosofia, um instrumento de opressão.
No cerne do argumento, o indivíduo pós-moderno não difere muito de alguns dos movimentos céticos ao longo da história. A função da pós-modernidade parece ser justamente acabar com a única coisa que outrora se buscava ter alguma certeza: a legitimidade.
Hoje, por exemplo, borbulham nas redes sociais movimentos antivacina, algo detestado pelos chamados progressistas. Da mesma forma, quando há um movimento que prega a existência de vários gêneros, os chamados conservadores não conseguem aceitar. A comparação é ruim, porém o que está por trás da discordância não é a comprovação de determinada conclusão, mas sim se iremos acreditar nela.
Bauman anota o seguinte: “O que é novo não é a autoridade do consenso, mas o fato de que o tipo de consenso que agora parece possuir a autoridade (…) não é o dos filósofos. O acordo de outras áreas, não filosóficas, também deve se apresentar, e não há como ter certeza de que ele possa ser obtido só pela força do argumento”. Ou seja, para que tenhamos algum consenso e, consequentemente, confiramos legitimidade a alguma conclusão, é preciso que “outras áreas” também concordem. Este é um problema enorme.
Primeiro, porque não sabemos que outras áreas são essas. Uma vez que não podemos, de início, atribuir legitimidade a alguma coisa, também não podemos simplesmente descartar o que nos apresentam. Se alguém se sente ofendido por nossa forma de andar, não teremos como garantir que somos inocentes apenas pelo diálogo. É preciso que haja consenso até mesmo do indeterminado, sob pena de não possuirmos qualquer legitimidade.
Segundo, porque, na prática, o consenso se tornou manifestação de poder. Se o diálogo se torna uma ferramenta restrita a pessoas que concordam entre si, o consenso entre pessoas ou grupos diferentes deve ser conquistado a partir de algum tipo de coerção. Como já defendi em outras ocasiões[2], nem sempre a coerção é injusta. O Estado exerce coerção quando proíbe a discriminação racial, assim como crianças exercem coerção quando param de brincar com o amiguinho que lhes mordeu o braço. Mas a semelhança é mais profunda, dificultando justamente o que se quer alcançar.
A descrença no desconhecido
Como a mordida na creche, nossa sociedade age consciente da incapacidade do diálogo. A legitimidade de nossos atos passa a ser condicionada por elementos de força que se mostram cada vez mais excludentes. Um exemplo atual disso é a política brasileira de esquerda, que atualmente se recusa a dialogar com o outro espectro. Por quê? Pois “não conversam com fascistas”. Simples assim. Alguns tentam justificar, apontando para discrepâncias em suas ideologias e planos para o Brasil, mas a verdade é que o problema surge muito antes de se ler a cartilha adversária.
O problema surge quando a contemporaneidade pós-moderna aceita ser razoável mensurar a legitimidade de algum argumento a partir da correspondência entre as premissas questionadas. Em outras palavras, se a revolução comunista é uma premissa de ação de uma militância política, não importará o quanto alguém de direita defender a igualdade material. As premissas não batem, portanto, ambos se consideram ilegítimos.
Não à toa, a onda bolsonarista se apropriou muito bem do nosso contexto para plantar a “estratégia pós-moderna” como forma de ação. O odiado-por-todos Artur do Val escancarou pessoalmente uma coisa muito interessante do pensamento bolsonarista. No 7 de Setembro, o deputado foi às ruas questionar os apoiadores de Bolsonaro[3], para perceber o seguinte: diante de diversas perguntas rasteiras, os manifestantes geralmente tinham um estalo e percebiam que o MamãeFalei estava ali para criticar seu presidente. Após este momento de curiosa percepção, rapidamente passavam a dizer que todas as perguntas do deputado se baseavam em mentiras, que suas respostas eram fake news e que ele certamente estava em conluio com o governador Dória.
É interessante, também, notar que isso se repete em muitas esferas da vida. Em nossa querida Faculdade de Direito, muitos de nós provavelmente já presenciamos (ou dissemos) algo do tipo “não dê bola, ele faz parte de tal entidade/coletivo” como forma de, justamente, deslegitimar tudo o que é apresentado. Eu mesmo já fiz isso. Mas será que conseguimos justificar essa atitude para nós mesmos?
Consequência de nosso tempo?
A falta de diálogo e todas as desculpas que nos damos para justificá-la podem muito bem ser sintoma de uma cegueira coletiva, em que todos agimos acreditando estarmos conscientes de nosso ideal ou nossas premissas. Porém, suspeito que os teóricos da pós-modernidade tenham diagnosticado o problema cedo demais, de forma que hoje, quando sofremos claramente com os problemas da falta de consenso, passamos a deixar de lado as possíveis soluções apresentadas há quatro décadas.
Bauman coloca a questão da seguinte forma: “O período pós-moderno se distingue [do moderno] por abandonar a própria busca [de certezas objetivas], tendo se convencido de sua futilidade. Em vez disso, ele tenta se conciliar com uma vida sob condições de incerteza permanente e incurável; uma existência em presença de uma quantidade ilimitada de formas competidoras de vida, incapaz de provar que seus termos se baseiam em algo mais sólido e vinculante que as próprias convenções historicamente conformadas.”
Convém trazer outro trecho, para fechar o raciocínio do autor: “A modernidade, em comparação, parece nunca ter nutrido dúvidas quanto ao embasamento universal de seu status. (…) Era evidente para todos, exceto para os cegos e ignorantes, que o Ocidente era superior ao Oriente, os brancos aos negros, os civilizados aos rudes, o culto ao não educado, o são ao insano, o homem à mulher (…). Todas essas ‘evidências’ agora estão mortas. Nenhuma delas resta sem questionamento. E mais: agora podemos ver que elas não se mantiveram separadas umas das outras; que faziam sentido juntas, como manifestações do mesmo complexo de poder (…). Além disso, a estrutura foi progressivamente minada pela resistência e a luta de categorias construídas (…) como inferiores. A medida da efetividade de tal resistência é que hoje nenhum poder se sente capaz de reivindicar uma superioridade objetiva para a forma de vida que ele representa; o máximo que pode fazer, seguindo o exemplo de Ronald Reagan, é exigir o direito de ‘defender o nosso modo de vida’.”
Defender o nosso modo de vida, este parece ser o lema da pós-modernidade. Ele pressupõe que há um modo de vida próprio e individual, mas compartilhado com alguma comunidade; que é preciso preservá-lo de outros modos de vida; que isso é um direito individual e que nós, de alguma forma, o qualificamos como necessário. Fossem apenas esses pressupostos, estaríamos bem.
Afinal, você é pós-moderno?
Após as qualificações que fiz acima, talvez o leitor seja tentado a dizer que não, uma vez que acredita no diálogo. No entanto, é preciso que reconheçamos que sim e isso tem duas razões. A primeira é que é inevitável sermos qualificados a partir da época em que vivemos. Um indivíduo da Idade Média, por exemplo, jamais poderá ser chamado de Clássico ou de Moderno, por razões óbvias. Se disséssemos a ele que seu modo de vida é falho, perigoso à própria saúde e pouco engrandecedor, talvez ele acabasse se considerando um indivíduo superior ao próprio contexto. Acredito que soframos do mesmo mal, pois hoje podemos ser facilmente resumidos em indivíduos que abandonaram um período marcado pela crença na ciência, nas certezas possíveis e no progresso social.
Porém, aí entraríamos na segunda razão. Como seríamos incapazes de nos qualificarmos como pessoas que não acreditam na ciência e no progresso, somos tentados a nos posicionar “do lado de fora” do mundo, como se fôssemos imunes às barbaridades dos incultos e às mentiras dos charlatões. Sinto dizer, mas não acredito que sejamos imunes a isso. O fato de não existirem mais certezas, ou melhor, de não haver mais um consenso sobre certezas é uma via de mão dupla, que autoriza os discursos outrora reprimidos ao passo que desautoriza absolutamente todos os discursos. A profusão de teorias sociais tão distintas entre si acaba demonstrando que tampouco nossos intelectuais aceitam partir das mesmas premissas.
Se ontem o liberalismo inaugurou na Europa Ocidental, por homens brancos, em geral ricos, a defesa teórica da liberdade de expressão, hoje se faz necessária uma completa reviravolta para que tornemos ao mesmo lugar.
[1] BAUMAN, Zygmunt. Legisladores e intérpretes: sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2010. p. 190.
[2] https://gazetaarcadas.com/tag/liberdadeexpressao/
[3] Para quem quiser se entreter, assistam em https://www.youtube.com/watch?v=erMG6cMZdjs

