A Gazeta Arcadas teve a honra de entrevistar neste mês Benedito Vitor Januário dos Santos, o famoso “Vitão”. Talvez uma das mais icônicas figuras franciscanas, Vitão é o rosto da Peruada e do Departamento Jurídico XI de Agosto e, sendo mês de outubro, impossível passar o mês em branco sem contar um pouco da história dessa grande festa e de seu maestro.
A entrevista foi dividida em duas partes, sendo a primeira essa, sobre a peruada, e a segunda, a qual versará principalmente sobre a trajetória do Vitão no DJ, mas será disponibilizada somente no mês de novembro.








Gazeta: Já entrando no assunto da peruada… a peruada sempre foi uma festa tradicional da São Francisco, principalmente pelas críticas políticas feitas pelos estudantes, mas ficou interrompida durante o período da ditadura militar..Como foi retomar a peruada ao final da ditadura militar? Vocês sofreram algum tipo de
repressão ou perseguição pela polícia na época?
A volta da peruada foi na gestão do Douglas, aluno da graduação na São Francisco, que foi descobrir nos arquivos da Faculdade. A peruada era um movimento feito para os calouros, representando a libertação deles no mês de maio. A peruada já estava interrompida havia muito tempo em virtude da ditadura e, quando veio esse movimento de redescoberta do arquivo, já era tarde para colocá-la na rua.
Então, o que aconteceu, nós resolvemos fazer em outubro mesmo, e claro que foi um movimento muito perigoso. Isso em 1983. Acontece que era ditadura, então havia um grande risco se nós fôssemos presos… na época, até o secretário de segurança estava em São Paulo.
Quando vieram falar comigo da volta da peruada, eu estava no jurídico, e falaram: “Então precisamos de alguém como você para comandar a festa” e, assim, fui eu para a peruada.
Naquela época, nós colocávamos a festa na rua e íamos atrás dos circos para trazer animais, e vinham jaulas com elefantes, com tigres, seus devidos cuidadores… essa era a parte circense da peruada.


Mas quem encabeçava tudo isso foi sempre o peru vivo. Na primeira vez, quem resolveu levar o peru, foi o Douglas, mas ele não tinha jeito nenhum com o peru e ele veio parar na minha mão. Aí eu comecei a desfilar, coloquei o bicho em um estandarte e comecei a encabeçar a peruada com o peru vivo. E daí para frente não parou mais. Hoje já não pode mais isso. Tiveram momentos sensacionais, foi uma briga, sim, para que a peruada pudesse sair, mas não houve atrito com a polícia, nós conseguimos fazer a peruada com muito sucesso.
Antes, era uma coisa muito mais voltada para a São Francisco, não tinha essa multidão de alunos de outras faculdades e sempre foi uma coisa muito respeitosa dos alunos. Desde então, o símbolo da peruada era essa festa político-circense-etílica-carnavalesca. Na primeira, em 1983, foi um grito de libertação…
No início, a peruada era muito mais politizada que agora… tinha toda a parte etílica-carnavalesca, mas o político sempre estava de frente, em destaque. Por exemplo, sempre acontecia do professor Goffredo, que morava na rua São Luís, descer do prédio e fazer um discurso ali em frente, falando da São Francisco, dos alunos… aquilo era muito
emocionante! E foi se perdendo com o tempo essa parte política… agora é muito mais Carnaval fora de época!
Gazeta: Como surgiu esse formato atual da peruada: o grito do peru na quarta e, depois, a saída do trajeto na sexta? Se você puder contar como funciona para os calouros, que ainda não tiveram ideia do que é a peruada.
Na primeira vez, ninguém sabia como era a peruada, então nós organizamos o grito do peru. Fizemos um grupo para convidar os alunos para participar da peruada, que ia acontecer na sexta e contratamos uma banda que até hoje é a que toca. Aí, a gente pegava o peru vivo e invadia as salas para convidar a todos, com a bandinha e tudo. Nós chegamos a convidar também escolas de samba para animar, veio o pessoal da Vai-Vai e da Rosas de Ouro.


Nós não tínhamos dinheiro para nada, então a primeira coisa que fizemos foi procurar pinga. Nós fomos até Pirassununga, onde tem a Jamel, que depois ficou conhecida como a Caninha do bacharel. Nós fomos lá, explicamos a festa, e pedimos para que eles fornecessem a cachaça… eles enviaram barris de pinga para a gente.
Depois, nós fomos no bandejão, que era no porão, pegamos os tachos grandes e saímos pedindo suco, limão, para fazer uma batida, que nós colocávamos em garrafinhas e íamos distribuindo para os alunos durante a festa, já que era a única coisa servida para eles (risos). Isso na quinta feira que antecede a peruada.
Com o tempo, o pessoal começou a ficar mais exigente, começaram a exigir que eu me fantasiasse, já que eu era o símbolo da festa. Começou aquela coisa de fantasia. Na primeira peruada, eu abri o guarda-roupa do Medieval, que era a boate em que eu trabalhava e tinha um corpo de baile, e eu usava as fantasias para empolgar a moçada. O pessoal começou a tomar gosto pelas fantasias.
Aí, a Saraiva, que ficava onde é agora o prédio novo da faculdade, também gostou muito dessa coisa da peruada, das fantasias… nos chamaram lá e se ofereceram para pagar as fantasias, desde que eu colocasse uma faixa agradecendo a Saraiva e entrasse lá dentro para tirar fotos, levando um ofício de agradecimento, como uma pindura. Depois, o XI resolveu encampar e pagar as fantasias.
Gazeta: Vitão, como vocês definiram o trajeto para ir passando nos lugares?
Na primeira peruada, nós definimos esse trajeto que passa pelo Viaduto do chá, passando atrás do Teatro Municipal, pegando a São João, Avenida Ipiranga, Praça da República, São Luís e Câmara Municipal. Agora, nós vamos direto para a Faculdade, mas antes nós fazíamos a invasão dos fóruns para fazer um grito pela justiça.
Ali onde agora é o Ministério da Fazenda era o Fórum Criminal. Eles deixavam a porta aberta, eu entrava, cantava o hino nacional e vinha alguém que fazia um discurso falando sobre o direito criminal. Falávamos tudo a respeito da Justiça Criminal. Depois, nós íamos caminhando até o Fórum Central e, de novo, fazíamos a invasão, tinha chuva de papel picado, os juízes saíam…Depois passava em frente ao DJ e era feito outro discurso dos alunos.


Antes, se falava muito, agora só é feito um discurso em frente à Câmara. Quando começaram a ir os carros acompanhando, tinha gente que falava representando a Casa do Estudante, outros que falavam pela Academia de Letras, com poemas sobre a São Francisco e a peruada. Dava-se voz aos alunos. Quem falava na peruada eram os alunos.
Agora perdeu um pouco de sentido para mim.
Teve uma vez em que os membros do Departamento Jurídico saíram com um carro representando os Cavaleiros da Távola Redonda. Nós montamos esse carro alegórico para falar sobre a justiça e a assistência judiciária gratuita à população carente, era isso que os
cavaleiros representavam. Em cima, um aluno estava vestido com uma armadura de metal e, de um lado, estava a Dama da Justiça, e, do outro, a Justiça propriamente dita. Os alunos, estagiários do jurídico, saíram vestidos de cavaleiros e nós convidamos os assistidos para irem junto.
Isso foi perdendo foi perdendo muito… é uma pena que isso tenha sido perdido. Era uma coisa rápida, mas nós estávamos parando o coração de São Paulo. Não tem sentido você parar o coração de São Paulo para ver só um Carnaval fora de época. A gente chamava atenção e as pessoas prestavam atenção no que os estudantes queriam dizer com aquilo.
Gazeta: Vitão, você poderia comentar um pouco se já houve alguma tentativa de proibição da peruada por parte dos docentes ou alguma forma de resistência à peruada dentro da São Francisco?
O único que tentou barrar a peruada foi um antigo diretor da Faculdade e esse foi um dos anos que eu não pude sair de jeito nenhum. Nessa época, durante o grito do Peru, os alunos
fizeram máscaras minhas e invadiram as aulas de alguns professores. Mas essa foi a única manifestação contra. Depois, apesar disso, eu resolvi voltar a participar do grito do Peru, que já estava morrendo, o pessoal já não sabia mais se comportar.

