O coração dos aflitos aperta dentro do peito. Aperta de um jeito sufocado e agoniado, mas essa não é sua principal característica, ele é contínuo, persistente, insistente. Ele anda junto do coração dos aflitos como um bom companheiro, como aquele amigo que permanece ao lado do leito até o último suspiro do enfermo. O aperto é o fiel – e único – amigo do coração dos aflitos. O aperto no peito é o que faz o coração se tornar coração dos aflitos. O aperto é a conexão entre aflição e coração.
O coração dos aflitos é aquele que sempre está apertado a esperar, está esperando a vinda do futuro, do novo, do melhor. O coração dos aflitos é aquele aperto do jovem que não se reconhece como parte de seu tempo e repudia a memória do passado. O coração dos aflitos é a aflição de saber que tudo poderia ser, mas não é. O coração dos aflitos é aquele que sofre, aperta, chora e sangra, mas nunca se cansa de esperar e é justamente por esperar que sofre. O coração dos aflitos é aquele que espera pelo fim das aflições.
O coração dos aflitos é aquele que mesmo diante de todos os sinais de retrocesso, de manutenção, de morte, não deixa de ter esperança no progresso, na mudança, na vida. O coração dos aflitos é aquele que crê que um momento singular pode transformar o uno em múltiplo; pode fazer da água, vinho; pode fazer do ruim, bom. O coração dos aflitos é aquele que sabe que o momento transformador virá, que tem certeza de sua vinda e que não teme os males do presente, pois sabe que o novo virá.
O coração dos aflitos acredita que o momento da mudança virá de repente e sem aviso, como o ladrão silencioso que entra na sua casa na calada da noite sem ser visto. E esse instante será a liberdade, será a metamorfose de toda a sociedade, será o instante que transformará a aflição em alegria, será o momento de destruição do velho e construção do novo, será o momento da morte do carrasco e da libertação do condenado.
O coração dos aflitos pulsa, bate e balança dentro dos peitos. O coração dos aflitos ainda pulsa com firmeza e disposição. Mesmo diante de tanta morte, tanta aflição, tanta tristeza, tanto ódio, o coração ainda pulsa, pois é isso que lhe dá mais força, ou melhor, é isso que lhe dá existência. O coração dos aflitos só existe enquanto existir aflição e aperto. O coração dos aflitos é aquele que espera ansiosamente a sua inexistência.

