Literatura infantil também é assunto de gente grande

Se hoje a palavra “cancelamento” é mais familiar a muitas crianças que “folclore”, a cultura de nossa sociedade pode explicar. Mas, para além do boicote, será que os livros que revelam o pior de nosso passado também podem servir para educar?

Não há dúvidas de que a relação do brasileiro com os livros certamente poderia ser melhor. Apenas 52% da população é leitora, de acordo com a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2019. A situação é ainda mais preocupante se forem feitos recortes de classe e instrução, já que a maior parte desses leitores faz parte do topo da pirâmide social e possui ensino superior completo. Mas ainda há chance de tentar recuperar o prejuízo?

Para Alfredo Caseiro, com certeza há. Jornalista por formação, decidiu deixar a profissão após mais de 20 anos para se dedicar a um sonho: abrir uma livraria totalmente dedicada ao público infantil em São Paulo, a Pé de Livro, localizada no bairro da Pompeia. O que já poderia parecer um negócio um pouco arriscado para os mais céticos, foi ainda mais ousado por ter sido concretizado em setembro de 2020, auge da pandemia e de múltiplas crises.

Mas a empreitada foi um sucesso. A inauguração da livraria rendeu matérias em grandes jornais, o que trouxe uma emocionante surpresa ao livreiro. Tudo começou com o recebimento de uma carta muito especial. O remetente era um presidiário, pai de uma criança de 11 anos, que desejava adquirir um livro para o filho. Alfredo ficou comovido e não só atendeu ao pedido, mas fez questão de escolher uma obra que considera importante e que estava fora de catálogo: “O Menino do Dedo Verde foi uma obra marcante na minha infância. Vi com a escola uma montagem teatral e depois fiquei encantado com o livro. Durante a pandemia comprei um exemplar para ler com o meu filho de 8 anos, que ficou profundamente impactado. É um livro atemporal”. Além da encomenda, o homem acrescentou um poema que escreveu para o filho e foi compartilhado por uma amiga de Alfredo, viralizando no Twitter:

“Se eu pudesse…

Se eu pudesse, te daria todos os livros que eu gostaria de ter.

Se eu pudesse, leria contigo todos os livros que você desejasse ter.

Se você desejasse ler todos os livros que eu gostaria de ter contigo, então tudo se completaria e, juntos, atingiríamos o amor”. (Reprodução Twitter @subversiva)

Mais que um acontecimento emocionante, o relato é também um diagnóstico: a crise da leitura no Brasil não se trata de uma simples questão de falta de vontade de ler. É um problema sistêmico. As bibliotecas públicas permaneceram fechadas durante longos períodos na pandemia e, mesmo quando abertas, não estão equipadas para despertar o interesse das crianças, oferecem poucos títulos e o espaço não é convidativo para os pequenos.

Também é difícil competir com as infinitas funcionalidades dos eletrônicos que são oferecidos cada vez mais cedo. “A criança é curiosa por natureza e apesar do bombardeio das telas, o livro ainda é muito sedutor. Basta que os livros estejam ao alcance, sejam oferecidos. Ouço de alguns pais que criança não gosta de poesia. Isso é uma grande bobagem! Temos uma prateleira só com obras de Drummond, Cecília Meireles, Mario Quintana, Gabriela Mistral e muitos outros, que faz um sucesso enorme”, diz Alfredo. Assim, a falta de incentivo acaba sendo outro fator determinante para o afastamento das páginas em direção aos smartphones, já que muitos pais subestimam a capacidade dos filhos de se interessarem pela literatura, talvez por também não terem sido incentivados quando mais jovens.

Se não há dúvidas de que as crianças devem ter contato com as obras literárias desde cedo, o cenário muda quando o debate foca no tipo de livro que deve ser oferecido. Essa foi uma grande preocupação do dono da Pé de Livro, que relata: “Na seleção do catálogo, que durou cerca de 8 meses, tivemos um olhar muito abrangente, para que pudéssemos oferecer diversidade de temas e abordagens. Além do folclore, valorizamos muito as pautas antirracistas, feministas, de inclusão e respeito à diversidade”.

Mas mesmo na literatura infantil, existem diversos títulos e autores que dividem opiniões e geram discussões acaloradas, como a controversa obra de Monteiro Lobato. Muitos defendem que, devido ao histórico fortemente racista do autor e os reflexos de suas concepções nos escritos, esses livros devem ser esquecidos ou até destruídos. Ao que surgem os defensores, afirmando que a importância dos textos de Lobato na cultura e literatura infantil brasileira não pode ser ignorada, mesmo com reservas.

Esse questionamento não é exclusivo do país, visto que recentemente foi noticiado que escolas no Canadá realizaram em 2019 a queima de livros infantis que continham estereótipos e representações ofensivas de indígenas, incluindo as famosas HQs de “Tintin e Asterix”. O ato foi denominado “ritual de purificação” pelos idealizadores, buscando reconciliação com os povos nativos do país, muito vitimados por genocídios e apagamento histórico. Com isso, a discussão ganhou força novamente na internet, dividindo opiniões. Afinal, como encarar os clássicos que refletem a pior parte do nosso passado?

Ao ser questionado sobre o assunto, Alfredo considera: “Eu acho todas essas formas de ‘cancelamento’ disparatadas. A questão do Lobato é extremamente complexa. Ao invés de banir um autor, acho que o que é saudável é que se apresente o contexto da época, se discuta e que as novas edições tragam notas de rodapé. Varrer pra baixo do tapete é a pior saída. Tem assuntos que precisam ser discutidos amplamente. Como pais, educadores e disseminadores do hábito da leitura, acho que nosso papel é propor discussões, não fugir delas”.

O assunto é extenso e abarca questões que transcendem o meio cultural. De qualquer forma, não é um tópico que pode ser ignorado. Ao mesmo tempo em que o saudosismo precisa ser abandonado para que as graves falhas de livros clássicos e seus autores sejam apontadas, o simples apagamento dos títulos não muda o passado. E ao aniquilar as evidências de discriminação, não estaríamos apenas absolvendo os intolerantes de suas ofensas, que não serão conhecidas pela posteridade?

O maior desafio é encontrar uma conciliação entre deixar que histórias disseminadoras de preconceito saiam “impunes” e simplesmente fingir que não existiram. Quando se trata de um público infantil, o esforço precisa ser ainda maior, para que a intolerância e o preconceito não sejam normalizados pelas próximas gerações.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap