Sanfran. A Faculdade de Direito do Largo São Francisco (convenhamos, nem os professores colocam “Universidade de São Paulo” no final da sentença). Localizada, como indica o nome, no Largo São Francisco, ao lado da Igreja Chagas do Seráfico Pai São Francisco e do Convento São Francisco. A alcunha dos estudantes da nobre e bicentenária faculdade? Franciscanos. Os estudantes do convento? Igualmente franciscanos. Convido você a conhecer o homem que deu nome à Academia de Direito de São Paulo: Francisco (o santo).
Antes de entrarmos de cabeça na história, preciso deixar algo avisado: é provável que boa parte do que aqui será relatado seja parte de uma narrativa mitológica representativa da Europa Latina católica dos séculos XI e XII. Há registros, inclusive memórias escritas pelo próprio, da vida de San Francesco d’Assisi, contudo, os milagres que lhe foram atribuídos seguem como parte da cultura papista e não configuram fatos históricos pela falta de registros.
Seguimos. Giovanni di Pietro di Bernardoni, nascido na cidade de Assis, bem no centro da Itália, provavelmente entre 1181 e 1182, era filho de um rico comerciante. Durante seu nascimento, seu pai realizava uma viagem de negócios na França (um de seus principais mercados) e, chegando em casa, decidiu rebatizar o filho como Francesco - um apelido para francês em italiano. O nome original, Giovanni, fora dado por sua mãe por ser devota ao santo, que no Brasil é conhecido como São João. Por muito pouco nossa faculdade não foi a Sanjão.


Durante a infância e juventude, nosso Santo Chico era um garoto de classe média alta que seguia estereótipos vistos até hoje: estudara em uma boa escola episcopal, aprendera a ler (algo raríssimo à época), mas vivia de gastar o dinheiro do pai e comparecer a festas. Uma espécie de playboy medieval. Tudo isso mudou quando, durante uma turbulenta passagem de governos no Sacro Império Romano-Germânico, participou de uma guerra de mercadores contra nobres por poder. Foi preso e, durante o cárcere, contraiu tuberculose e malária.
Em 1203, aos vinte-e-poucos anos, é liberado e volta para casa. Emocionado pela prisão, decide que irá fazer tudo que não pôde nesse tempo encarcerado e se lança à cavalaria. Isto, porém, nunca chegaria a acontecer. Durante sua missão para encontrar um nobre (todo cavaleiro deveria servir ou a um nobre ou ao príncipe), é tocado pelo deus cristão, que lhe pergunta por quê ele opta pela servidão humana quando deveria ser servo de Deus. Francisco fica mexido com o evento e cancela seus planos.
Antes de retornar à casa, Francisco passa pela Basílica de São Pedro, onde fica revoltado ao ver que as pessoas do local prestavam poucas homenagens ao santo. Transtornado, Francisco lança grande quantia de ouro em oferenda e entrega seus pertences a um mendigo que estava no local. É o primeiro contato de Francisco com o estilo de vida pelo qual ele ficaria conhecido. Chegando em casa, é recebido com decepção por não ter completado sua missão como cavaleiro e começa a vender tecidos com o pai.
Certo dia, durante uma oração na Capela de São Damião, na sua cidade, é novamente tocado por Deus, que ordena “Vá, Francisco, e restaure a Minha Casa”. Passa a utilizar o dinheiro arrecadado nas vendas para pagar reformas em capelas nos arredores. Após vender tecidos por preços irrisórios para as pessoas mais necessitadas e utilizar os recursos da família nas reformas, é preso pelo pai em casa e foge para um convento próximo, onde oficialmente se desvincula dos bens da família, herança e toda sua vida até então.
Em 1208, já na vida religiosa, percebe que a mensagem de Deus falava de “Casa” enquanto a instituição da fé cristã, e não exatamente as igrejas físicas. Começa a pregar na cidade em ode à vida simples, sem bens ou lucros, em que tudo seria partilhado como mandava o evangelho. Em pouco tempo ficou conhecido na região e atraiu seguidores, seja pela sua palavra ou seja pelo seu estilo de vida. Institui-se oficialmente a Forma di Vitta di Francesco, regras seguidas até hoje por alguns grupos religiosos.
Um ano depois, contra os conselhos gerais (posto que recentemente alguns profetas da vida simples evangélica já haviam sido queimados pelo que pregavam), foi com alguns seguidores conversar com o Papa Inocêncio III, pedindo sua bênção para peregrinar passando a palavra. De maneira inusitada, o chefe da Igreja permite a ação e diz que Francisco é um homem que representa a vontade de Deus. Isso aconteceu em consequência de um sonho que o Papa tivera recentemente, em que Francisco segurava nas costas a Arquibasílica de São João de Latrão.
Em 1215, ainda peregrinando, Francisco funda a “Ordem dos irmãos Menores de Assis”. Sua ideia era que ele e seus seguidores deveriam se sentir os menores e menos importantes, mesmo em comparação às menores criaturas. Tomás de Celano escreve: “(Francisco) Tinha um amor enorme até pelos vermes, recolhia-os pelo caminho e os colocava em um lugar seguro, para não serem pisados pelos que passavam”. Graças a essas ações, ficou conhecido como padroeiro dos animais.
Certa vez, pregando em Jerusalém, é preso pelo sultão local por não aceitar ser convertido ao islã. Para mostrar que sua fé era superior, Francisco desafiou-se a andar sobre brasas em frente ao líder. Após Francisco realizar tal feito sem problemas, o sultão decidiu que ele poderia ir embora. Após alguns anos, decide voltar para casa.
Em 1220, quando retorna à Itália, descobre que seu movimento havia se desmembrado. Cardeal Ugolino, que ficara como protetor da Ordem, pressionava os seguidores de Francisco por uma flexibilização do voto de pobreza, que vinha recebendo duras críticas dos comerciantes do Império. Francisco decide reescrever as normas da ordem de maneira a apreciar a vontade de todos, o que é negado por Ugolino por três anos, até que o novo Papa concede permissão com grandes alterações.
Em 1223, passando pela cidade de Greccio, enquanto contava para a população local histórias cristãs, utilizou como cenário uma manjedoura com três bonecos: o bebê Jesus, Maria e José. Essa representação ficou tão famosa que, até hoje, presépios são muito vendidos no fim de ano. Em 1224, decepcionado pelo rumo que sua irmandade havia tomado após as mudanças na Forma di Vitta, e já muito prejudicado pelo avanço das doenças, Francisco prefere a reclusão na natureza, onde vive com alguns seguidores.
Foi nesse tempo recluso que seu milagre mais famoso aconteceu (representado na figura acima). Durante uma oração, um Arcanjo desceu sobre Francisco, segurando uma cruz e as mãos e pés do homem começaram a sangrar, assim como as famosas Chagas de Cristo. Após isso, aparentemente já sabendo o que o destino guardava, Francisco implorou a seus seguidores que o levassem de volta para Assis, à Igreja Porciúncula, onde veio a falecer.
Quem o via no tempo na floresta, relatava que quando Francisco passava por um rio os peixes pulavam, que quando andava sob as árvores os pássaros pousavam em seus ombros e mãos. Chiara d’Offreducci, uma das seguidoras de Francisco, assim como alguns outros, ficou conhecida por também realizar milagres e ser uma mulher santa. No Brasil ela é conhecida como Santa Clara (também de Assis).


Dois anos após sua morte, Francisco é canonizado pelo Papa Gregório IX, quando se torna, oficialmente, São Francisco. Em 1256 é construída, em sua homenagem, a Basílica em Assis, hoje o principal ponto turístico da cidade. Em 1929, 700 anos depois, o Papa Pio XII elevou Francisco ao posto de maior padroeiro da Itália e principal santo do país. Quase 800 anos depois, em 2013, durante após votação do Conselho Papal, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, atualmente conhecido por outro nome, declarou:
“Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E quando os votos chegaram a 2/3, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. […] Ele me abraçou, me beijou e disse: ‘Não se esqueça dos pobres’. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei de São Francisco de Assis” (Papa Francisco, 2013. Entrevista coletiva na Sala Paulo IV)
Contudo, antes de encerrarmos, há ainda algo a ser contato. E quanto ao Largo? Ao Convento? À Faculdade? Bem, isso já é parte da história documentada.
Em 1640, mesmo ano da expulsão dos jesuítas de São Paulo, durante uma caravana de sete frades franciscanos à província, é decidido que eles passariam mais tempo no local. Sete anos depois, no dia em que se comemorou a festa de Chagas de São Francisco (17 de setembro de 1647), foi oficialmente fundado o Convento de São Francisco e de São Domingos. No mesmo ponto da cidade que conhecemos hoje, no marco central, ao lado da Sé e dos prédios das repartições públicas. O Largo onde se situa o convento começou a ser chamado por São Francisco, até ser oficialmente batizado. A Faculdade, não só nascida do Largo e vizinha da igreja e do convento, como construída nas edificações do convento, sobre ossos franciscanos, recebeu o carinhoso apelido.
A Sanfran nunca teve e, provavelmente, nunca terá “São Francisco” no nome. Contudo, seus alunos e sua alma são tão franciscanos quanto poderiam sê-los.

