As tão esperadas eleições para o Centro Acadêmico XI de Agosto acontecem entre os próximos dias 20 e 21. Conheça mais sobre as chapas que pleiteiam a gestão 2022 do CA nesta entrevista preparada pela Gazeta.
Tradicionalmente, o mês de Outubro é o mais agitado nas arcadas. As eleições para o Centro Acadêmico ocorrem uma semana após a Peruada. Este ano, não pudemos desfrutar da saudosa festa franciscana, porém, o clima acalorado das eleições permanece. Marcadas fortemente pelo tema inevitável da pandemia, dentre outras inúmeras polêmicas, as eleições de 2021 ocorrerão por meio de votação online, na plataforma Helios Voting, nos dias 20 (quarta-feira) e 21 de outubro (quinta-feira), das 9h às 23h. As chapas Enfrente e Travessia, que terão Marco Paranhos e Camila Lais como candidatos à presidência, respectivamente, estão na disputa deste ano e responderam a algumas perguntas da nossa reportagem. Veja a seguir as respostas fornecidas por Marco e Camila:
1. O que o XI de Agosto representa para você?
ENFRENTE: O XI de Agosto, para mim, é a entidade que deve ser a cara dos estudantes, buscando representá-los nas mais diversas instâncias de nossas vidas. E não só os estudantes da São Francisco, mas os estudantes do Brasil inteiro, que não tem medo de enfrentar as mais desafiadoras batalhas que a História nos impôs até aqui. Fazer parte dessa Faculdade é uma conquista pessoal de muito valor e pela qual eu tenho muito orgulho. Por conta disso e pelo desejo de fazer da Faculdade um lugar melhor, com um projeto popular e que inclua os estudantes, eu me lanço, junto dos meus companheiros da Enfrente, para ocupar a presidência do nosso CA.
Ele, como os franciscanos gostam de dizer, é o maior Centro Acadêmico da América Latina. No entanto, para que seja possível reconhecê-lo assim, é preciso que ele tenha atitudes dessa grandeza. Nos últimos anos de gestão Travessia, tivemos um esvaziamento das funções sociais do Centro Acadêmico, no sentido de que, não só as ações do XI foram extremamente abaixo do potencial que sabemos que a Instituição tem, como também os próprios estudantes do Largo São Francisco, em especial os calouros da 194, não tiveram a oportunidade de participar efetivamente da gestão e das ações, mesmo que poucas, tomadas por ela. Era dever do CA, especialmente em um ano de pandemia, com o ensino remoto emergencial em vigor, acolher e integrar os calouros, o que foi feito (se é que se pode dizer que foi) da pior maneira possível.
Desse modo, o XI representa um dos maiores instrumentos de luta do movimento estudantil do Brasil, que tem o DEVER histórico de continuamente batalhar por melhores condições de permanência e infraestrutura e combater os diversos tipos de opressões que seus alunos possam sofrer. Mas ele também representa uma das diferentes maneiras de se combater o crescimento do fascismo, do neoliberalismo e de defender a universidade pública que constantemente vem sofrendo ataques no nosso país. PRECISAMOS DE UM XI QUE ENGLOBE TODOS OS ESTUDANTES, QUE SEJA UMA REAL OPOSIÇÃO AO BOLSONARISMO E QUE VERDADEIRAMENTE ATUE PARA MUDAR AS CONDIÇÕES MATERIAIS DOS ESTUDANTES E DA POPULAÇÃO DO CENTRO DE São Paulo.
TRAVESSIA: Acima de tudo, acredito que o XI representa um espaço de poder que nos ajuda a mobilizar e organizar muita coisa, um fundamental instrumento de lutas para dentro e fora da Faculdade, e que por muito tempo não pôde ser ocupado por pessoas como eu. Venho da periferia de São Paulo, me formei no ensino público municipal e sou da turma de 2019 do Arcadas; a minha aprovação veio através de muita luta e desde que pisei na São Francisco, tanto enquanto aluna do cursinho quanto da graduação, soube que a faculdade possuía muitas deficiências, era preciso um XI que continuasse com seu histórico de lutas pela democracia e que não se apartasse das lutas de seu tempo. Em meu período de recepção como caloura e ao longo do ano, observei e vi que era a Travessia que mais representava minha luta e meus desejos para a Faculdade, eu queria contribuir, dar continuidade e ampliar os projetos do coletivo.
Estar no XI de Agosto não é sobre mim ou o título que terei caso eleita. É sobre manter nossas ideias e nosso projeto político. A Travessia mudou a Faculdade e como o CA costumava operar: pagamos dívidas que nem foram contraídas em nossa gestão com os trabalhadores e entidades, colocamos a solidariedade no centro da nossa institucionalidade num dos períodos mais difíceis para o país, lutamos contra o fascismo e fizemos política em coletivo para as alunas e com as alunas.
2. O que marca a trajetória da chapa e o que a diferencia da adversária?
ENFRENTE: A principal marca da Enfrente é ter sido a primeira gestão autodeclarada de esquerda que fez três gestões históricas seguidas e propiciou um bom momento para que a gestão seguinte conseguisse aproveitar a concretização de diversos projetos nossos, como o PL da isenção do IPTU da Casa, maiores resgates do Fundo e a reforma do Porão. Além disso, a nossa trajetória é amplamente conectada com as lutas populares, atuando em conjunto com os estudantes, as entidades e os demais grupos dos quais fazemos parte fora da Faculdade, como o MST, o Disparada e o PCdoB. Por isso, nós nos diferenciamos da chapa adversária por termos um real maior contato com as pessoas, que é extremamente necessário para que o XI de Agosto seja uma entidade atuante na vida dos estudantes e compromissado com o modelo político popular. Consequentemente, nós somos a chapa do diálogo, do acolhimento, do pertencimento e de uma política estudantil saudável e proveitosa!
TRAVESSIA: Nossa gestão definitivamente foi marcada por transformações estruturais na SanFran. Construímos um XI responsável, que construiu em meio a uma pandemia, a AGE que lutou pelos direitos dos trabalhadores negados por gestões anteriores, que garantiu a existência do Campo do XI e da moradia estudantil da Faculdade, ao resolver o problema deixado pelas gestões anteriores em relação ao IPTU. A tesouraria da Travessia se provou responsável e transparente mesmo no momento mais difícil financeiramente para a entidade, mostrando que a política em primeira pessoa é fundamental quando se trata de carregar o peso de gerir o XI de Agosto, e além disso, seremos marcados como a gestão feita na pandemia, num governo genocida, que nunca se apartou da mobilização. Estivemos no movimento Black Lives Matters, e em todos (todos!) os atos Fora Bolsonaro, também trouxemos o XI para dentro das disputas institucionais, com a luta contra a LSN, em defesa da liberdade acadêmica. Aqui somos luta, trabalho e responsabilidade.
Nosso legado ficará para a história, enquanto a chapa adversária ficou marcada pela irresponsabilidade, entregando o XI de Agosto quebrado para a Travessia, pela imobilização e escândalos sobre a recepção da primeira turma cotista.
3. Quais são os maiores desafios a serem enfrentados pelo Centro Acadêmico e como pretendem resolvê-los?
ENFRENTE: O XI de Agosto tem uma peculiaridade que é a sua capacidade de incidir não só na Faculdade, mas, principalmente, na cidade e no estado de São Paulo. Assim, enxergamos que um grande desafio a ser enfrentado é, justamente, gerir essa entidade para que ela consiga estar presente nos mais diversos espaços políticos, buscando integrar os estudantes com as pautas sociais extremamente caras aos franciscanos. Além disso, não podemos esquecer que ano que vem é um ano de grandes desafios nas mais diversas esferas, em especial pelo retorno ao presencial após dois anos de pandemia. Nacionalmente, temos as eleições presidenciais e a possibilidade de um golpe pelo Bolsonaro. Nós precisamos utilizar a força do XI para, como na Assembleia Constituinte de 1988, estar presente nesse momento único e buscar frear as políticas fascistas, genocidas e autoritárias desse desgoverno. Estadualmente, teremos as eleições para governador, deputados e senadores. Nesse sentido, precisamos também impedir a continuidade de políticas liberais que busquem dirimir os nossos direitos sociais e fundamentais tão importantes, bloqueando, por exemplo, o desmonte das universidades públicas, o sucateamento da educação com o novo currículo, o corte nas pesquisas e o agravamento das desigualdades sociais. Por fim, ainda no âmbito educacional, o ano de 2022 é essencial para a luta das cotas, porque elas serão reavaliadas. Dessa forma, é necessário que o XI de Agosto articule com as demais entidades de representação estudantil e órgãos institucionais para que consigamos não só manter a política de cotas, como ampliá-la, a fim de atingir mais e mais os estudantes, garantindo que a Universidade seja ocupada pela realidade de um Brasil diverso. Paralelamente, não só precisamos garantir o ingresso, como também a permanência e o acolhimento dos estudantes cotistas na nossa Faculdade Portanto, mais ainda se faz urgente um XI que esteja próximo dos estudantes, em constante diálogo, para ter a dimensão necessária a fim de concretizar políticas para a Faculdade, incidir nas mais diversas conjunturas e assegurar que a sociedade brasileira adentre em seus espaços.
TRAVESSIA: Acredito que um dos maiores desafios será tratar da integração dos alunos à Faculdade, visto que a 193 viveu em maioria o EAD e a 194 entrou já dentro deste contexto, depois de passar em um dos vestibulares mais desiguais dos últimos tempos, e a 195 que viverá a passagem do virtual para o presencial. Outro desafio será o de garantir condições concretas para que essas alunas se sintam pertencentes a um espaço que é seu por direito. Resolveremos este problema garantindo que as estudantes de outros estados, tenham um apoio-mudança que garanta que os estudantes de outros estados e dos interiores consigam ter os recursos necessários para se mudarem para São Paulo com dignidade. Ainda, pretendemos fazer iniciativas que permitam uma maior integração entre todas as turmas da SanFran, especialmente aquelas que nunca viveram o presencial, por isso, queremos organizar festas e transformar a Faculdade em um ponto de cultura no centro da cidade, organizando eventos culturais e de socialização nos finais de semana.
4. Qual será o plano de retorno presencial, tendo em vista que a pandemia não irá acabar subitamente?
ENFRENTE: Nós da chapa Enfrente entendemos a gravidade da pandemia e também todos os impactos que ela já representa e continuará a representar, não só em nossas vidas pessoais, como também na Sanfran. Por isso, adotamos três frentes principais para o retorno presencial: integração, responsabilidade e acolhimento. Assim, nós, enquanto gestão, nos propomos a estabelecer uma linha de diálogo constante com a Diretoria e outras instâncias da Faculdade para formular um plano que adeque as estruturas do prédio da Sanfran às demandas sanitárias que garantam a saúde de estudantes e trabalhadores no retorno presencial. Sempre teremos em vista um retorno gradual, transparente e aberto a ouvir os alunos, trabalhadores, professores e todos que compõem e dão vida à nossa Faculdade.
Além disso, propomos para os estudantes, o que chamamos de “Conhecendo o SP com o XI”, que é uma forma de integrar e acolher os estudantes que vem de fora de São Paulo e que não tiveram contato com a cidade, estaremos disponíveis para mostrar as principais atrações culturais, lugares históricos e espaços de lazer de São Paulo. Temos também o apadrinhamento, proposta que integra os alunos da 195 com voluntários da graduação que vão ajudar os calouros com a vida nas Arcadas. É muito interessante falar, também, do Curso de Revisão para as Turmas 193 e 194, que se propõe a consolidar os conteúdos dos primeiros semestres da graduação, porque, durante o ensino remoto emergencial, as dificuldades dos estudantes e dos professores se agravaram.
Para que o diálogo e a integração realmente aconteçam e que os alunos sejam reinseridos na realidade da São Francisco de forma gradual, mas constante, abriremos um setor de Retorno Presencial da Diretoria do XI, que ficará aberto por meio do Whatsapp Business. Com ele, os alunos poderão nos enviar suas: dúvidas, angústias, inseguranças, reclamações e sugestões. Assim, poderemos melhorar, continuamente, a nossa gestão e o acolhimento dos novos estudantes na Faculdade, afinal, queremos trazer a Sanfran de volta para casa, porém esse processo não pode ser abrupto e muito menos distante de quem mais precisa de nós! Estaremos presentes e dispostos a transformar o XI no que ele pode ser!
TRAVESSIA: Se eleita, desde o primeiro dia de gestão, faremos audiências públicas com o (novo) diretor para acompanhar a passagem do virtual para o presencial, garantindo que não se dê de forma abrupta e que leve em consideração as vozes das estudantes e das funcionárias. Entre as nossas propostas estão: (1) a elaboração de um plano sanitário que leve em consideração as determinações da OMS e que seja democraticamente debatido com as estudantes; (2) implementação de uma ouvidoria Covid-19, como um canal de reportação de casos de suspeita e/ou confirmação e (3) diálogo com a direção para instalação de purificadores de ar com filtro HEPA, dado que o prédio da SanFran é tombado, impedindo grandes reformas que ampliem o espaço de ventilação.
5. Existe um plano de financiamento para as promessas de campanha?
ENFRENTE: Um programa de gestão bem elaborado deve ter como premissa básica ser factível, se não propostas tornam-se nada mais que promessas. Pensando nisso, nossa carta-programa foi feita com responsabilidade e estabelece como primeira missão para nossa tesouraria a realização de um amplo estudo sobre a atual situação do nosso patrimônio e como o FIXI deve se comportar no próximo período, pois só assim conseguiremos traçar uma estratégia realista e inteligente para a nossa gestão financeira. A exemplo disso, queremos saber se a gestora Rio Verde ainda é a melhor opção para nós, bem como se as aplicações que estamos realizando ainda são o tipo de investimento mais adequado para o momento. Isso se faz necessário, porque a última avaliação do Fundo foi feita em 2017 e, de lá para cá, o cenário se alterou profundamente, principalmente durante a pandemia. Além disso, vamos conversar com a Diretoria da Faculdade, escritórios e empresas para viabilizar o financiamento de projetos específicos nossos, como bolsas de Iniciação Científica e a ampliação do auxílio vestuário. Todas essas medidas são prioritárias para nós, porque estamos comprometidos com uma ótima gestão financeira, que seja transparente e qualificada, para que possamos alcançar as finalidades sociais do nosso patrimônio, tornando-o capaz de realmente promover transformações na vida dos estudantes, fazendo da nossa Faculdade um lugar melhor.
TRAVESSIA: Sim, a Travessia mostrou ao longo de sua gestão que é possível fazer uma gestão financeira responsável, aliando a boa gestão das receitas ordinárias do XI com a arrecadação de recursos externos. Nesse sentido algumas de nossas propostas são autofinanciáveis, como as festas que pagam-se com ingressos, e outras serão realizadas com base em um plano de arrecadação, como é o caso do apoio-mudança. Nós já mostramos que essa política de arrecadação é possível de se fazer: em nossa gestão, arrecadamos mais de 42 mil reais em doações.

