PRECISAMOS FALAR SOBRE AS IGREJAS EVANGÉLICAS

Não há dúvidas de que a liberdade religiosa deve ser respeitada. Mas e quando a religião interfere na política, a política deve interferir de volta?

A máxima das discussões de família sempre foi muito clara: futebol, política e religião não se discutem! No tocante ao esporte nacional, de fato, é melhor não arriscar, visto que poucas coisas mexem tanto com o brasileiro quanto seu time do coração. Em relação à política, o provérbio popular parece estar um tanto perdido, já que poucas coisas são tão adequadas à discussão quanto a própria política. Mas é quando chega na parte da religião que tudo fica mais complicado. Afinal, religião se discute ou não?

Ora, o próprio debate teológico já consiste em uma espécie de contenda a respeito da fé. Os choques entre agostinianos e tomistas, por exemplo, representa como percepções diferentes sobre a “Palavra de Deus” podem engendrar discussões saudáveis e em que nada interferem na crença alheia. Obviamente qualquer tentativa de imposição teológica ante o próximo deve ser entendida como uma espécie de autoritarismo, mas o mero debate em nada ofende a fé do próximo. A situação hodierna, contudo, não se faz tão simples.

A grande problemática atual não é a mera discussão religiosa, mas o debate a respeito das relações entre religião e política. Quando se observa o cenário brasileiro, nota-se que os elementos os quais, de acordo com o provérbio popular, “não se discutem” mantêm uma relação íntima. Como este artigo não trata de futebol, atentemo-nos a política e religião.

Quando se observa a história da relação entre ambos os elementos, é difícil dizer qual se sobressai a qual. O que se percebe, na realidade, é que tudo depende da dominância social ou não de dado credo. O Estado brasileiro que sempre observou as demandas políticas do cristianismo é o mesmo que perseguia abertamente religiões de matriz africana. No fim, a questão central retorna a uma disputa pela hegemonia do poder político, como tantas outras.

Chegando à questão dos evangélicos, a análise não difere muito. As Igrejas Neopentecostais tiveram uma difusão extremamente acentuada nas últimas décadas. O Brasil segue predominantemente cristão, mas o tradicionalismo da Igreja Católica vem gradativamente perdendo seu protagonismo para expressões cristãs mais próximas da realidade material do povo. Os pastores não usam vestes sacerdotais, tampouco rezam em latim. Os cultos são mais simples, e as onerosas catedrais podem ser substituídas por uma garagem com algumas cadeiras de plástico. Tal expressão da religiosidade popular, portanto, surge como uma reação a um cristianismo elitizado e distante da realidade do povo.

Culto evangélico realizado em um espaço simples. Fonte: Igreja Maranata

A problemática surge, entretanto, a partir do momento em que tais igrejas deixam de ser uma manifestação popular e se tornam verdadeiros oligopólios da fé. Muitos dos pastores, que antes eram pessoas comuns, tornaram-se verdadeiros astros, passando a ter ampla influência não só religiosa, mas também cultural, moral e mesmo política. São incontáveis os grandes líderes evangélicos que passaram a ter livre acesso ao Palácio do Planalto antes mesmo do Governo Bolsonaro, dentre os quais: Silas Malafaia, Edir Macedo, R. R. Soares, Marco Feliciano, Magno Malta e Valdemiro Santiago.

Desse modo, o que se percebe é que, goste deles ou não, tais personagens, por conta de sua envergadura religiosa, tornaram-se agentes políticos fundamentais do Brasil. Suas ideias influenciam milhares de indivíduos não só na condição de varões e varoas, mas também como cidadãos e cidadãs. Os grandes pastores deixaram de ser meros guias espirituais da população para se tornarem também autênticos formadores políticos. Não é coincidência, assim, que muitos deles usaram dessa influência para pedir votos a seus candidatos de preferência nas eleições mais recentes.

Silas Malafaia fazendo propaganda a Jair Bolsonaro em culto. Fonte: Domingos Peixoto / Agência O Globo

A compreensão dessa expansão de lideranças religiosas para a política é algo inclusive já estudado pela sociologia. Pierre Bourdieu, ao dividir o poder em “capitais” (político, religioso, cultural, econômico etc.), demonstra que a tendência é que os detentores de certo tipo de capital busquem acumular outros. Seguindo o caso emblemático de Malafaia, este, através de sua influência religiosa, formou riqueza e passou a ter acesso livre ao Planalto; ou seja, a partir do capital religioso, acumulou poder econômico e político.

É importante observar, por conseguinte, que tais sacerdotes deixaram de ser meros pastores. São líderes religiosos, mas, ao mesmo tempo, verdadeiros agentes políticos. Devem, dessa forma, ser tratados como tal. A liberdade religiosa existe para que a fé não seja sobrepujada pela política, mas, outrossim, não parece coerente permitir que a política seja sobrepujada pela fé. Os sacerdotes do neopentecostalismo, portanto, não possuem carta branca para desrespeitar a Constituição e os direitos humanos e, se o fizerem, devem ser punidos com as sanções previstas em lei, assim como qualquer outro cidadão.

Por fim, é preciso deixar claro que existem as exceções, mas é fato sabido que as Igrejas Evangélicas se tornaram redutos da extrema-direita e de suas opiniões protofascistas, defendendo a morte, a tortura e a eliminação do diferente. Não é possível continuar tratando tal situação como simples exercício de liberdade religiosa. As consequências políticas de tomar uma atitude complacente ficaram claras no trágico Governo Bolsonaro. Com novos tempos surgindo, é necessário tomar novas atitudes.

A fé é uma das expressões mais individuais e elevadas da espécie humana, mas não pode ser usada como pretexto para a escalada de projetos fundamentalistas que ameaçam surrupiar direitos e garantias do povo brasileiro. As religiões não podem fugir do crivo da opinião pública e mesmo do direito alegando uma suposta liberdade de culto absoluta e irrestrita. Existem limites, sempre existem. Retornando à máxima familiar: se a religião interfere na política, é necessário que a política também saiba interferir na religião, estabelecendo regras e cobrando o estrito respeito à Constituição e aos direitos humanos.

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