O Fantasma

I - A Dúvida

Minhas crenças desajustadas,

com diferenças semi-pensadas.

Passadas a limpo, passados os panos.

Os panos passados de outros planos.

Nos portamos, agora, como uma legião estrangeira:

Espiões ou detetives particulares.

Escondendo nas sombras,

nos escombros encontrados da razão.

Como eu deveria gerenciar meu desejo?

Nesta decadência de estilo,

nesta galeria de arte abandonada,

chamada “Memória”.

Como se portar?

Uma predileção diferente, proveniente da espera:

eterna maquinação de uma máquina,

de uma porta para o futuro imediato.

A situação, de versos escandalosos,

escritos, sobre fatos escabrosos,

transpassados de uma triste alegria.

Chamada vida,

Chamada, viva.

Minha chama. Viva-a.

Uma música de protesto, um samba.

Um drama e um poema escondido.

Esconda-se do seu desejo e me esqueça,

no vagão deste pensamento mágico.

Trágico, como me porto.

Tétrico, como te suporto.

Nas minhas crenças semi-quebradas,

com diferenças reajustadas.

Dos meus passados, o seu.

A dúvida do meu.

Como estátuas, em um corredor absurdo,

ou quadros mal pintados, nesta Catedral,

em suma devoção, neste palacete de cristal.

No meu pedestal de perdição,

tentação, luxúria, loucura,

imaginário polido e político:

jardim das delícias terrenas

ou das mais assombrosas aflições.

II - Surrealismo Amoroso

Te vejo. Te vejo quando te moves.

Quando sai do quarto.

Quando sai e choras.

Quando sai, apenas.

Quando sai.

Te vejo, como te toco.

sinto sua pele próxima,

seu rosto próximo.

Sua alma, distante.

E sei o que pensas.

Não analisa não,

mas sem essa, aranha.

Estranha, o que pretendes.

Sei o que pensas.

Das destrezas e estranhezas,

com prezado pesar e desprezo,

sem pensar. Um jogo de você.

Uma razão de insensibilidade, ebriedade,

e falsa sentimentalidade: aqui me entrego.

Como dois amores vãos.

Como amores pagãos.

Em uma recepção. De dizer:

ou sim, ou não.

Para você, talvez.

Para mim, insensatez.

Da maior importância:

o esquecimento.

O esquecimento como único remédio,

para a nobreza de uma existência poética.

Ou uma punição enfática de quem se ama.

O espírito do condenado. Da morte surrealista.

Uma tela de Magritte, estampada em meu rosto.

Como tatuagem, que implica e afirma a necessidade.

De sair. De sair e viver. De sair e morrer.

Morrer de amores, fora das dores.

Mas, com todas as cores.

Colorido em Technicolor.

Chamado para o New York Mets, na mais nova categoria.

Em uma captura emocional de uma locomotiva.

Filmado em Super 8.

Capturado em uma câmera,

duas ou três sentenças sensacionalistas.

Os bancos do passageiro, o trem de até mais tarde.

Show-business norte-americano,

com trilha sonora

de um compositor italiano.

Chegada a hora.

III - Canções do desespero

Os últimos acordes da madrugada,

de um piano velho e decadente.

Na baixa luminosidade aparente,

de uma tranquilizante música abafada.

Com os últimos convidados a sair,

no imaginário decrépito de nossas mentes,

com duas ou mais noções deselegantes,

desta pseudo-festa delirante; a fugir.

Décadance: sons de jazz de noite.

Midnight jazz, blessing my soul.

Abençoe a decadência da alma,

calma e que conclama:

um lounge club, um pub.

Um bar.

Um mistério. O meu pretérito.

Meu soturno repertório.

Imperioso e imperfeito, projetam-se:

as essências e indecências de encontros,

marcados, demarcados e reencontrados.

Sob a fina luz do luar, corpos a dançar,

na insalubridade noturna.

Um prelúdio. Um ensaio. Uma sinfonia.

A orquestra nos cercando, como dois procurados.

Entre dois em dois. Se faz o que sois.

O que és, além de mim?

A decepção externalizada,

com um anseio desterritorializado,

e masterizada: minha sorte lesada.

Uma previsibilidade obtusa.

Fábulas do bis deste espetáculo:

as crônicas da intensidade,

os versos de um amor impossível,

as rezas perdidas de uma morte anunciada,

as canções do descompasso,

as cores brilhantes de um novo arco-íris

e as predileções de um samba discreto.

É quando a realidade se esvai,

e a turbidez da visão encanta o ambiente.

Eu e você bem sabemos que não somos mais nós.

Neste salão de espelhos, se repartem em cinco ou mais,

as imagens da minha vida dupla.

Mas parece que já vimos isso antes.

O anúncio preparado de uma esfinge:

a condenação eterna ao juízo

da estrela que brilha solitária.

O maldito estrelato,

o perverso verso

de uma canção violenta.

Depois de avançado o tempo da noite,

não existe certo e errado,

todos os gatos são pardos,

e as diversas intenções nos deixam atordoados.

IV - O Estranho

Visão obscurecida por lentes,

performáticas de uma intenção indecente,

contra os estabelecimentos do ser e do estar.

O cotidiano aplacando sua horrenda infinitude,

desfazendo as predileções e implicando:

sua noção de normalidade.

Um sentido vago de obedecer.

A crença cega nas simulações de passado,

com uma promessa de uma saudade do futuro.

Me ajude a desvendar os meus olhos e voltar,

voltar para um ponto de entendimento comum.

Voltar para algo como templo.

Voltar para algo como casa.

Numa coletânea de palavras,

espalhadas por esplanadas.

Explanadas como segredos.

Entregues, em degredos.

Beije-me antes que descubram a verdade.

Beije-me antes que busquem a sinceridade.

Nos arquétipos da mentira:

minha sincera vaidade.

O lado obscuro da liberdade.

Entregue de bandeja.

Entregue, com uma cereja

no topo do bolo.

Persiste a dúvida:

de quantas gerações serão necessárias

para mudar a visão caquética que temos,

sobre as pessoas que amamos?

E nos entregamos. E me entrego.

Um “eu todo retorcido”.

Um gauche.

Um tolo.

Romântico?

Emotivo. Cínico.

Fáustico?

Devoto de uma religião desfeita,

há muito esquecida, numa iconografia desbotada.

De uma coloração estagnada e deslanchada.

Uma religião desfalcada, dentre as decadências

do que significa a intransitividade do verbo “amar”.

E no princípio, era ele.

Éramos nós, e o verbo.

Éramos o verbo.

Te prometo, da promessa desfeita,

do nosso apetite insaciável,

por uma vontade irremediável.

Assino, com o olhar estelar,

na cestialidade delicada de um banho lunar.

No estado de espírito, das inalcançáveis versões,

de outros verões. Versões de mim.

Meu lado obscuro, celebrado e emaranhado,

na tentativa de bloqueio, da emoção.

Do meu ponto de vista privilegiado:

de dentro do que se passa comigo.

Onde jaz um abrigo, ou ombro amigo.

Está esquecido. Fornecido às distintas regras de convivência,

destrutivas de um comportamento humano.

Demasiadamente humano.

Desumano, como quem inventa histórias.

Odisséias e poemas, com problemas.

Permeando a minha mente,

que gostaria apenas de parar.

Por isso quero que saibas de mim.

Quero que saibas do coração que possuo.

Quero que saibas das cruzes que carrego.

Quero que saibas das vozes que escuto.

Quero que saibas dos amores que destruo.

Quero que saibas.

De mim.

V - O Profeta

Teatral.

Visceral.

(A)Normal.

Carregando as desilusões de fantasmas do presente,

de repente se repetem: o fantasma que vive.

Morre, como uma taquicardia.

Vive, como quem renasce.

O que não fazia parte dessa diversão?

De visão exacerbada, dentro dos enquadros da loucura.

Divisão estremecida, nas extremidades da existência.

Como quem guarda as memórias na gaveta do quarto,

de uma amizade, de uma familiaridade, de uma peculiaridade.

De um amor.

E de se apaixonar.

No seu altar elevado, sagrado e posicionado:

a Catedral da religião dos marinheiros afogados,

dos bêbados desequilibrados, dos soldados desgraçados.

Dos trovadores cansados e dos poetas degredados.

Como pôde fazer isso comigo?

A graça salvadora, de um espírito ululante:

nas sombras de meu destino.

Como pôde, fantasma?

Nas rebarbas escuras dos espelhos do quarto.

Ou no retrato diabólico dos condenados:

o poder, a corrupção e as mentiras.

Cava a cova dos derrotados,

perante a altivez dos desregrados.

Perdidos e perdidos.

Belos e malditos.

Rebeldes e marginais.

Me encontre diante de outros cartões postais,

que revelam as realizações que me esperam.

A égide de meus erros,

o suprimento dos meus suplícios.

A graça plena, de quem se viu,

derrotado tantas vezes,

destruído, às vezes.

Não se avexe,

de impaciência e pressa.

Mudanças e mudanças.

Mas a sua permanência.

De uma canção desolada,

dos mais sôfregos versos,

caminhantes sobre esta névoa espessa.

Drena-se o ethos desse frio e débil poema.

O meu problema: crente de esperanças infalíveis,

navegante de águas turbulentas,

numa extensa correnteza flutuante,

no lado bom do otimismo poético:

desbancam os ceticismos histéricos,

nos inundamos de iluminismo romântico!

Como teclas, de um piano solitário:

compõe suas novas melodias,

como velhas amigas,

que recebem-te, em um aconchego único.

Que recebem-te, mesmo que não mereça.

E se desfaz a derradeira a ilusão,

mesmo com dor e escuridão,

posiciono-me frente à tempestade.

De temor e ímpeto, à vontade.

No sopro de vida, do fim.

Na sombra da morte, do começo.

Um recomeço, uma fé:

em algo mais, que o amor traz.

O trágico penhor da guerra,

travada, incansavelmente,

entre eu e você.

Fantasmagórico.

Assombroso, diante dos vales sagrados.

em sua montanha mágica,

em templos sagrados da fúria apaixonada

ou nos clubes de jazz abandonados.

Assombroso, em aparições

de lares desesperados e despovoados.

Venerável, honroso e sombrio.

Fantasmagórico.

Como uma visita à Lua,

ou outra aspiração delirante.

Uivante, em vão.

Promitente, ou não.

Em última instância, o sobrevivente de um amor cândido.

Em última saída, o fantasma de um viver romântico.

Em última vida, o valor do apaixonar-se poético.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap