Sou viajante do tempo presa no ciclo sem fim do passado. Os homens são cães que pegam
tudo que é seu até não sobrar nada. Hoje, não resisto mais - ataquem-me os cães pois nada
sinto, não ligo, provavelmente, esqueço-me. Eles ganharam; quem irá querer, quem irá
aceitar, quem é que vai sequer amar uma deslocada viajante do tempo, senão os cães, os
malditos cães?

Tenho um segredo. Trabalho longe de casa, na paulicéia desvairada e retorno todo dia
ao conforto da periferia, sempre envolta da brisa noturna, do caminho rotineiro, da mesmice que acalenta e preenche o vazio no peito. Sou comum, ordinária, como qualquer um nessa multidão que passa por mim, com pressa, sem me tocar, sem trocar sequer um olhar. Meu segredo? Sou viajante do tempo.
Das várias maneiras de locomover-se na cidade, a minha preferida sempre foi o trem.
Até mesmo nos horários mais caóticos, lotados, gosto da sensação de não ouvir meus
pensamentos, de trocá-los por música, pela preocupação de qual estação irei descer, pela
atenção ao caminho que devo fazer na baldeação. Mas as circunstâncias forçaram-me a
mudar o meu favoritismo. O ônibus não é tão ruim quanto parece; te dá uma vista única da
cidade passando pelo meio dela. Você observa as pessoas. Elas te observam. O tempo, tão
valioso tempo que você passa lá dentro, seja refletindo, seja dormindo, parece infinito. Não se chega nunca aonde se quer chegar. A maioria dos dias é só frustrante e cansativo. Alguns poucos dias, raros dias, você até consegue ver um pouco de beleza, um pouco de poesia, entre o frustrante e o cansativo. A cinza cidade de São Paulo parece ter esse efeito mesmo. Algo inerente em sua construção, sua história, em seus habitantes, nas luzes dos prédios ou na das casinhas de tijolo na rua estreita do trajeto do ônibus.
Gosto de ver fotos antigas do meu bairro. O passado me assombra, mas seu
magnetismo, a força da curiosidade, sempre vence. Tanto me interessa pensar na magia do
tempo e dos lugares. Um lugar será sempre um lugar, mas o que se viveu lá, pra onde vai?
Perde-se no tempo, apenas? É tão simples assim? E as memórias? Se desmancham em mil
pedaços no ar. Congeladas na foto de alguém que já morreu. O passado me assombra, mas
seu magnetismo sempre vence.
A circunstância que me fez trocar o trem pelo ônibus foi o medo, a fuga do lugar, de
seu magnetismo mortal. Sou viajante do tempo, afinal; uma simples olhada, pelo canto do
olho, àquele lugar, me faria voltar para lá, anos atrás, e sofrer, novamente, suas inevitáveis
consequências, sua inescapável dor. Um lugar sempre será um lugar, mas o que se viveu lá
não se perderá no tempo enquanto lá ainda habitarem seus fantasmas, perdidos, vagando,
assombrando. A espreita. Esperando…
Hoje passei por lá. Tive que pegar o trem, a muito contragosto. Como a vida é uma
piada cósmica, ironicamente, o trem parou por dois minutos naquela Estação, com as portas abertas, pelos problemas técnicos de sempre. Eu estava sentada exatamente na janela, no vagão, que tinha perfeita vista para lá. Evito olhar. Olho pras mãos, pro chão, pra porta aberta do trem, mas é difícil lutar contra o magnetismo mortal do passado. Era um sábado, meio-dia, não havia quase ninguém no trem, até mesmo o assento ao meu lado estava vazio. Uma tarde tão linda de sábado! Daquelas que dói o peito em saber que será desperdiçada; ensolarada, na medida certa, um céu azul com poucas nuvens, perfeitamente pintadas no céu.
Perdi a luta contra o passado. Olhei pro lado, para lá, pela primeira vez em uns três
anos. Para minha surpresa, nada estava igual como na última vez que estive lá; por cima do frio cimento onde habitavam meus pesadelos, construíram um parquinho. Um parquinho!
Tanta alegria, positividade, movimento, no lugar dos meus pesadelos, em um lugar outrora
tão negativo, tão vazio. Sorrio. Mas não dura muito. Logo, o questionamento inevitável vem
à cabeça: se lá já não há mais espaço para as memórias ruins, enterradas debaixo do
parquinho, para onde foram os fantasmas?
Maldita pergunta. Vejo-os atravessando a rua. O trem soa o sinal, mas as portas não
fecham. As poucas pessoas no trem não me parecem impacientes com a demora. Eu fico
quieta mas, por dentro, o pânico toma conta. Preenche meu peito, me sufoca. Corre nas
minhas veias. Soa o sinal novamente, mas já é tarde. Os fantasmas entram no trem e as portas fecham. Um senta no banco vago ao meu lado. O outro, para bem na minha frente. Vejo-os na minha visão periférica, pois os meus olhos arregalados permanecem fixos na janela do trem e nela vejo o passado passando. Aliviante, em certa medida. Brevemente penso que deixei tudo para trás. Mas um fantasma agarra o meu pulso e o outro, meu pescoço. Observo as casas de tijolo sem pensar muito. Pensar, agora, é um esforço inútil. Não há retorno. Próxima estação: Terminal. Levo-os, comigo, para casa.

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