De 2018 para cá, a Internet tem sido o principal lócus da política brasileira. E isso é de todo ruim?
Para Marcelo,
Para aqueles que apreciam a política nacional, todo período eleitoral mostra alguma inovação na forma de se ganhar a disputa: o pleito de 1950, por exemplo, foi o primeiro a apostar em um grudento jingle – “Retrato do Velho” – para fazer de Getúlio presidente novamente; em 1990, foi a vez de produzir a aparência esportiva e jovial de Fernando Collor em praias para levá-lo ao Planalto etc.
De maneira semelhante, as eleições de 2018 nos guardou a mesma surpresa. Afinal, o uso da Internet e de suas mídias sociais deram voz e vez a Bolsonaro, um político do tal “baixo clero”, sem mídia, medo ou modos. No entanto, a transformação presenciada foi ainda mais radical do que as já citadas, pois, pela primeira vez, tal “inovação” no fazer político foi capaz de romper com todas as estruturas que já ditavam a disputa eleitoral (tempo de propaganda, aparições nos grandes veículos de imprensa, coligação partidária etc.). Enfim, uma verdadeira ruptura.
Já em 2022, os oponentes do então vitorioso correram atrás do prejuízo e a web passou a ser o foco de todas as principais campanhas. Com isso, os debates e sabatinas da televisão cederam espaço às conversas de podcasts; o horário eleitoral, aos “cortes” de Facebook, Instagram e TikTok. Muito mais informal e cômico, o fenômeno batizado de “política pop” tem sido duramente desmerecido pela imprensa tradicional, que criticou o derrotado Bolsonaro por fazer mais tweets do que entrevistas e o vitorioso Lula por não ir ao Roda Viva, mas sim ao Flow.
De fato, trata-se de um processo controverso. Por um lado, ocupar o ambiente das redes sociais significa proporcionar uma arena muito mais ampla para o debate público do que habitar a comunicação unilateral e engomada do rádio e da TV. Como já disse o sociólogo Marcello Barra, “não é muito barulho para nada, a população passou a assumir o poder nas mãos”. Por outro, o mesmo debate é, em virtude da mesma liberdade desregulada dos meios digitais, contaminado pela manipulação das fake news – que foram denunciadas mais de 22 mil vezes ao TSE só no presente ano, um recorde – e pela superficialidade de posts engraçados e “emblemáticos”.
Diante desse cenário, é fundamental ponderar. A digitalização do pleito eleitoral pôde até enfraquecer as engrenagens do poder político, dando popularidade a figuras inesperadas. Porém, isso não criou vícios, deu apenas novos moldes a eles. Ora, se é raso e empobrecedor fazer política pelo Twitter, tão ou mais era garimpar votos por musiquinhas fúteis como a “Retrato do Velho” de Vargas ou pelas fotos apelativas de Collor em seu jet-ski. Do mesmo modo, é uma idealização sem qualquer fundamento pensar que a disseminação de fake news não existia antes da perversidade do bolsonarismo, afinal, foi o mesmo Collor que, com ajuda da Globo, protagonizou uma grande farsa em pleno debate ao apresentar como provas da corrupção de seu adversário pastas vazias em plena rede nacional no ano de 1989.
Em suma, criticar a superficialidade com a qual se processa as eleições brasileiras não é só legitimo, como também sensato. Todavia, entender que isso é um produto das novas eras é sentir saudade daquilo que nunca foi vivido. Dessa forma, deve-se buscar caminhos para fortalecer nossa democracia sem qualquer falso saudosismo, buscando conciliar os meios que possuímos da melhor forma possível. Para tanto, é necessário exigir de todos aqueles que desejam nos representar que, sem qualquer preferência, deem as caras à espontaneidade e abertura da Internet, bem como à seriedade jornalística dos meios tradicionais. Além disso, demandar que as informações das telas de TV e smartphones sejam embasadas, checadas e livres de demagogias, fake news e pastas vazias. Enfim, o caminho é longo.

