Eu o observo. O gato preto esparrama-se pelo alto do muro. O cimento, amalgamado ao céu, enrosca em seus pelos. Os excessos de gordura penduram-se, quase que escorrendo. O bicho se mantém ali, estático. Parece ansiar um grande momento. Uma enorme relevância de qualquer coisa. Enquanto isso, seu rabo balança cá e lá. Os ponteiros do relógio invejam tamanha harmonia. Tique, toque. Não, não parece viver. Seu estado é o de um desesperado sentir que falha miseravelmente. Um cadáver do que não foi apreciado, uma inventada lembrança. Nesse constante desejar, é, como diria Pessoa, “flor de estufa”. Dessas aleivosas, que não medram por razão alguma. Gotas de uma fonte ilusória de vida. Inerte ao que o rodeia mas de vontade palpável e dolorosa, desvive-se por não saber viver. Desabita em si ser flor e desabrochar. Descompreende amar muro e céu. Cobiça o todo, ainda que irrisório seja. A monotonia arraiga-se nesses pelos escuros, nessa alma felina. De nada adianta florescer. Inanimou-se há tempo demais. Mantém-se em eterna insônia. É alma ruça.
Uma folha pousa no fio elétrico. Amarelada de outono, avoada. O animal se agita, o que mudou? A sombra faz-se à sua frente, mas a face preguiçosa recusa-se a olhar para cima. Contenta-se com o contorno escuro. Extasia-se por uma inverdade. Tenta persegui-la. As patas da frente sofrem para mover o corpo grande. Ele esfola o nariz triangular em pedra. Arranha as unhas pela superfície áspera. Ronrona sofregamente. Treme em desespero. Maníaca criatura! É mera sombra! O real e palpável, tão ao alcance de sua existência. Onde se entremeia a esperteza fria e calculista dos gatos? Defeituoso. Um miado esganiçado. Chora? Meus ouvidos doem e o bicho berra mais alto. Sangue escorre. Ele não é capaz de se levantar. Não consegue sequer alcançar a quimera folha. A vida está além do intangível para si.
Acaba. O mesmo sopro que a trouxe, levou-a embora. Silêncio. O odor da desistência mistura-se ao ferroso. O choro tem seu último aval. Paz, para nós dois. Ele, de volta a sua irrelevância melancólica. Eu, a l’eau de la vie*. O líquido vermelho ainda desce. Pobre muro, manchado. O então rítmico rabo para, forma espécie de lemniscata. Nem ele suporta a vergonha de um dono incompetente. Desiste de marcar as horas. “Sempre caem de pé”. Por que não se joga? Um único ato de coragem, apenas. Finda-se tristeza, angústia estagnada e desação. Fácil. Pragmático. Rápido. Que grandeza sobrevive nele para ocupar tão alto lugar? Para se lembrar e ser lembrado? Coragem! Vá ao chão! … Mas cairia de pé? Ou abandonaria o espírito? A morte, sombra persecutória de um oposto insignificante. Só se vive, sabendo-se morrer. Talvez a desconcertante condição de morto-vivo lhe caia bem.
Meio-dia e cinco, a catedral soa trinta e três badaladas. O mundo ainda acontece e, para o gato, é francês. Uma cacofonia de sílabas desprovidas de sentido, gestos insignificados e razões de uma cultura alhures. Transforma-se em ébrio, afoga-se em sons de mentes incompreensíveis, rodopia uma dança mental solitária. Não se encaixa, pertence a um espaço esquecido, concretiza-se música surda. A língua do amor, desconhece-a. Ainda, afasta-se do silêncio. A mente grita, desespera-se e implora à honra. A humilhação crava-se em si, l’amour, le sentiment, la vie, que significam? Um sussurro etéreo suspira: “La souffrance.”
Outro felino aproxima-se. Branco, com bigodes longos e curvilíneos. Cruel comparação, poemas me saltam ao corpo quando o vejo. Quanto ao preto, há o puro e somente desgosto. Não sustenta o peso das palavras como aquele.
‘’Safiras azuis, onde a alma mistérios
Guarda, habita quietude incerta.
Provoca-me sufocante arrepio,
Desejo afoito, de alma não liberta’’
O novo companheiro foge. Insuporta a mediocridade impregnada no ar.
”Esquecer-te se perfaz impossível
Para o restante de mim. Sobrevive
Deste outro eu, um fugaz e ínfimo véu
Passado, limbo de eterno declive’’
O petricor surge. Já é tempo de ir. O jornal abandonado ao lado do banco denuncia: Chuva prevista. Levanto-me, acerto o chapéu e busco a bengala. O gato preto não se importuna com o rasgar estrondoso do céu, permanece na ilusória juventude, parado. O tédio ansioso das coisas não feitas ainda está ali. Encaro o relógio de pulso, atraso-me. Caminho para longe, para um compromisso qualquer. Antes de virar a rua, miro o animal uma última vez. A água passa por seu corpo e o derrete. Os pelos pretos metamorfoseiam-se numa espécie de espelho líquido. Marcas, como lágrimas que escorrem, formam-se. No instante final, resta, unicamente, meu reflexo.
*aguardente

