Sala especialmente projetada ajuda estudantes autistas a “despressurizarem” quando sentem que estão experimentando um episódio de sobrecarga sensorial. A medida visa evitar crises e promover a inclusão
Um patrocínio intermediado pela Associação Nacional para Inclusão de Pessoas Autistas (ANIA/BR) viabilizou a doação de equipamentos para a instalação de uma sala sensorial permanente dentro da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O novo espaço será instalado onde costumava ser a Salinha da ALZ (antiga Sala Lygia Fagundes Telles), que está atualmente passando por reformas.
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Silvano Furtado, franciscano da turma 191 e vice-presidente da Associação, conta que o contato com a empresa Spider se deu durante a organização do II Simpósio Internacional de Inclusão no Ensino Superior, que aconteceu no Salão Nobre nos dias 29, 30 e 31 do último mês.
Ele explica que os equipamentos fornecidos pela Spider e o apoio de psicólogos e terapeutas ocupacionais fornecidos pela Ludens foram fundamentais para que a Sala Visconde de São Leopoldo pudesse ser adaptada para servir como uma sala de regulação sensorial durante os três dias do simpósio.
Após o grande sucesso da sala sensorial adaptada, a Spider resolveu doar os equipamentos para instalar uma versão permanente na São Francisco.


Depois que conseguimos a doação dos equipamentos, falamos com a diretoria da Faculdade sobre a possibilidade de reservar uma sala para que servisse como sala sensorial permanente. Eles atenderam prontamente. Após a reforma, a antiga sala da ALZ vai ganhar uma dupla função: sala de amamentação e sala sensorial.
Silvano Furtado
Com a entrega da sala reformada, a São Francisco se tornará a primeira instituição de ensino superior do Brasil a oferecer uma sala de regulação sensorial para alunos autistas. Para estudantes das Arcadas como Silvano, é um importante passo na direção da inclusão das pessoas com transtorno do espectro autista (TEA).
Ana Elisa Bechara, vice-diretora da Faculdade de Direito, conta que a renovação da antiga sala da ALZ está na reta final.
Acabamos de comprar o mobiliário e a empresa que doará os equipamentos tem feito visitas para tirar medições da sala. Ainda neste semestre as novas instalações estarão disponíveis.
Ana Elisa Bechara
Para aqueles que eventualmente estejam preocupados com o destino da Academia de Letras - se é que a ALZ ainda existe - todo o mobiliário da antiga Sala Lygia Fagundes Telles foi transferido para a sala do coral, que também herdou o nome da ilustre escritora franciscana.
Agora, a nova Sala Lygia Fagundes Telles abrigará simultaneamente o coral e a ALZ.
Pioneirismo franciscano


A professora Bechara destaca o pioneirismo da Faculdade na implantação da sala sensorial e afirma que “o mérito dessa conquista foi dos alunos, que se organizaram coletivamente para expor suas demandas e mobilizar a diretoria, a comissão de graduação e outras comissões da Faculdade.”
Embora outras faculdades pelo país possuam salas sensoriais similares, estas são utilizadas exclusivamente para fins didáticos, principalmente no contexto dos cursos de Terapia Ocupacional. A São Francisco será pioneira na implementação desse tipo de equipamento para uso da comunidade acadêmica, com o objetivo de promover inclusão e senso de pertencimento.
Política de Acessibilidade Pedagógica
Ainda acerca do pioneirismo franciscano, Bechara destaca que atualmente apenas a Faculdade de Direito possui uma Política de Acessibilidade Pedagógica, mas que propostas inspiradas nessa iniciativa estão tramitando nas comissões de graduação de outras unidades da USP.
O novo regramento, que foi idealizado por Silvano, construído junto ao Coletivo Autista da USP e submetido às instâncias decisórias da São Francisco via Representação Discente, foi aprovado no ano passado pela Comissão de Graduação e entrou em vigor neste ano na unidade.
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A medida visa evitar os constrangimentos frequentes aos quais pessoas autistas são submetidas em salas de aula, como quando alguns professores não entendem a necessidade de avaliações diferenciadas para esse grupo. Ocorre que, para muitas pessoas que sofrem com o Transtorno do Espectro Autista, atividades como seminários e provas-surpresa são simplesmente inexequíveis, de modo que foi necessária a criação de uma política específica para orientar professores e viabilizar a requisição de atividades alternativas.
Segundo Bechara, a Faculdade está aprendendo a lidar com as diferenças junto com os alunos e quer trazer essas questões, como a acessibilidade de avaliações, para serem discutidas sem tabus, de forma natural e propositiva.
Criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento
No âmbito da USP, a criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) em maio de 2022 representou um importante avanço para a centralização e coordenação das ações da Universidade voltadas para as políticas afirmativas e de permanência. Na primeira reunião do Conselho da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, ocorrida em junho do ano passado, a pró-reitora Ana Lúcia Duarte Lanna explicou que “A PRIR pretende estabelecer uma relação entre as políticas de inclusão, pertencimento e diversidade com a excelência universitária”.
A proposta da PRIP é atuar em questões étnico-raciais, culturais, socioeconômicas, de gênero, de saúde mental, de deficiências, de memória e de direitos humanos, de modo a propor ações para criar oportunidades de mais igualdade e convergência na Universidade e estimular uma cultura pautada pelo respeito e valorização da diversidade. Para tanto, o órgão incorporou a Superintendência de Assistência Social (SAS), o Escritório de Saúde Mental, o Escritório USP Mulheres e a Comissão de Direitos Humanos, entre outros.
No que se refere à causa autista, é importante destacar que a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento conduziu uma pesquisa recente que apontou que cerca de 3% de toda a comunidade USP possui Transtorno do Espectro Autista. No entanto, Bechara ressalta que há subnotificação e que o número real deve ser maior, uma vez que muitas pessoas não se declaram autistas por medo de sofrer preconceito e muitas outras não são diagnosticadas.
Cotas para PCDs
Em 2016, a Lei 13.409 alterou a legislação que instituiu as cotas, reservando vagas para pessoas com deficiência (PCDs) nos cursos técnico e superior das instituições federais de ensino. Já nas universidades estaduais paulistas, ainda não há uma política de reserva de vagas para esse público, mas tanto a professora Bechara quanto Silvano confirmaram que uma proposta nesse sentido já está sendo discutida.
É o início de um caminho, a ideia é que novas iniciativas venham e é papel da USP dar o exemplo.
Ana Elisa Bechara
O que é uma sala sensorial?
O mundo que nos cerca está repleto de estímulos sensoriais. Nossos sistemas sensoriais tátil, visual, auditivo, olfativo, etc, atuam de forma integrada com o objetivo de nos fornecer informações fundamentais para a compreensão e interação com o ambiente exterior. Essas informações externas são recebidas pelo nosso sistema nervoso central, que realiza o trabalho de interpretação, modulação e processamento. Desta forma, somos capazes de decodificar os estímulos ao nosso redor e utilizá-los de modo funcional.
A sensibilidade sensorial experimentada por uma pessoa autista consiste justamente na dificuldade de processamento de estímulos sensoriais, que pode se manifestar de diferentes formas: desde um incômodo causado por uma hipersensibilidade a odores, sabores, texturas, ruídos e luzes fortes, até preferências sensoriais que podem envolver a busca de atividades prazerosas, estimulantes ou calmantes.
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As restrições impostas por essa sensibilidade sensorial costumam impactar muito negativamente a qualidade de vida das pessoas autistas no âmbito acadêmico, sobretudo no caso de exposição constante a situações de excesso de estímulos. Isso porque no contexto acadêmico nem sempre é possível evitar aglomerações, barulho alto, luzes fortes e outras sensações intensas, e ocasiões como essas tendem a ser extremamente desgastantes física e emocionalmente para pessoas autistas. A consequência é que a pessoa fica sobrecarregada e exausta demais para realizar outras tarefas, podendo apresentar a uma série de sintomas, como ansiedade intensa, necessidade de escapar da situação (colapso) e dificuldade de comunicação (desligamento).
As salas sensoriais foram pensadas por psicólogos, terapeutas ocupacionais e outros especialistas para servir de local de atendimento e regulação sensorial de pessoas autistas. Dentro dessas salas é possível encontrar objetos como redes, piscinas de bolinhas, balanços, tapetes texturizados, pelúcias e paredes de escalada, equipamentos especificamente pensados para trabalhar a percepção, regulação e modulação sensorial.


Silvano explica que as salas sensoriais ajudam as pessoas autistas a “despressurizarem” quando sentem que estão experimentando um episódio de sobrecarga sensorial, o que ajuda a evitar crises e viabiliza a inclusão desses estudantes no ambiente universitário.
Com equipamentos fornecidos pela Spider e apoio de psicólogos e terapeutas ocupacionais fornecidos pela Ludens, a Sala Visconde de São Leopoldo (1º andar, direita, direita) foi adaptada especialmente para o simpósio e ficou à disposição dos alunos e visitantes autistas durante os três dias de evento.
Além disso, a Associação Nacional para Inclusão de Pessoas Autistas ajudou a intermediar a doação de equipamentos para a instalação de uma sala sensorial permanente na Faculdade de Direito, o que deve acontecer a partir de junho, após a reforma da antiga Sala Lygia Fagundes Telles (3º andar, esquerda, direita, esquerda).
Essa iniciativa visa aperfeiçoar a inclusão de estudantes autistas no ambiente acadêmico, proporcionando um espaço seguro e confortável para a regulação sensorial e a redução do estresse, fatores que contribuem para o melhor desempenho acadêmico e a qualidade de vida dos estudantes.
Segundo a Professora Bechara, a Faculdade solicitará um treinamento para que a nova sala seja usada da melhor forma possível, sem desvirtuar sua função, de modo a criar uma cultura de utilização responsável.








II Simpósio Internacional de Inclusão no Ensino Superior
O Simpósio Internacional de Inclusão no Ensino Superior foi organizado pela Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (ANIA/BR) em parceria com a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD) e teve como objetivo discutir a inclusão de pessoas com deficiências, historicamente marginalizadas no ensino superior, em uma perspectiva de reconhecimento e valorização da diversidade.
O encontro, que ocorreu nos dias 29, 30 e 31 de março em modalidade híbrida, contou com a participação de especialistas e pesquisadores de diferentes países, que participaram de palestras, mesas-redondas, apresentações de trabalhos e outras atividades relacionadas ao tema da inclusão no ensino superior.
Embora o direito à inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior seja garantido por lei em diversos países, incluindo o Brasil, sua efetivação passa obrigatoriamente pela adaptação dos espaços e recursos educacionais, com disponibilidade de apoio pedagógico e tecnológico adequado para atender as necessidades específicas de cada estudante. Entre outras coisas, os participantes do evento discutiram medidas para promover a acessibilidade arquitetônica e comunicacional dos alunos com deficiências, como a disponibilização de audiodescrição, legendagem, materiais em braile, acompanhamento de intérpretes de Libras, tutores para apoio pedagógico, sala para regulação sensorial de pessoas autistas, entre outras.
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O Simpósio foi o primeiro evento presencial sobre inclusão de pessoas com deficiência no ensino superior realizado na Faculdade de Direito e contou com vários convidados dignos de menção, como o Secretário de Estado Marcos da Costa, os deputados estaduais Andrea Werner e Caio França e a Diretora de Proteção à Pessoa com Deficiência do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Naira Rodrigues Gaspar.
Ao final do encontro, o Diretor e a Vice Diretora da São Francisco, professores Campilongo e Bechara, aderiram ao selo de certificação “Todos Nós” . Esse selo, criado pela ANIA/BR, serve para atestar que uma organização ou instituição se compromete com determinados requisitos e critérios relacionados à promoção da inclusão de pessoas com deficiência, incluindo condições como o autismo.
Segundo Silvano, o compromisso público expresso no selo “é uma importante forma de reconhecer e incentivar as boas práticas, para que as organizações continuem trabalhando para manter e aprimorar suas ações inclusivas.”










A Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas
A ANIA/BR é uma jovem associação composta por pessoas com autismo, suas famílias e profissionais da área que tem como objetivo informar, conscientizar e mobilizar a sociedade para a importância da inclusão das pessoas autistas em todos os aspectos da vida, como a educação, o trabalho, a saúde, a cultura e o lazer, promovendo a inclusão e a defesa de direitos.


Dentre as atividades promovidas pela associação, é possível destacar a realização de parcerias com outras organizações, tanto no Brasil quanto no exterior, para promoção da inclusão das pessoas com autismo e direcionamento de políticas públicas que levem em conta as necessidades específicas dessa população. Além disso, a entidade oferece suporte e orientação para pessoas autistas, bem como desenvolve projetos e programas de conscientização e formação para profissionais. Eventos e campanhas de conscientização sobre o autismo também são objeto da associação, por meio das quais busca desmistificar preconceitos e estereótipos em relação às pessoas com essa condição.
Sobre a motivação para fundar a associação, Silvano conta que veio da necessidade de uma roupagem institucional para viabilizar a judicialização de questões pelos autistas e conseguir ter força em políticas públicas.
Já Guilherme, presidente da ANIA/BR, destaca as dificuldades que enfrentou em encontrar algum grupo ou coletivo a quem recorrer para suporte. Ele teve um diagnóstico tardio de autismo, já durante a graduação, e, depois de muito procurar, acabou por concluir que não havia na Unicamp um único grupo voltado para PCDs (pessoas com deficiência). A única referência era o recém-criado Coletivo Autista da USP (@coletivoautista).
A partir dessa inspiração, fundei o Coletivo Autista da Unicamp em 14 de julho de 2021. O Coletivo nasceu como uma conta no Instagram para encontrar meus pares, mas eu sabia que isso não bastaria e, com algumas primeiras pessoas me apoiando, busquei profissionais e pesquisadores para falar sobre autismo e inclusão dentro da minha universidade. Nos unimos ao Coletivo da USP e Unesp e criamos uma liga, e, no ano de 2022, fundamos a Associação.
Guilherme de Almeida
Ana Elisa Bechara é franciscana da turma 177 e possui os títulos de doutora (2004) e livre-docente (2011) pela Faculdade de Direito, onde ocupa o cargo de Professora Titular de Direito Penal e atua como Vice-Diretora.
Guilherme de Almeida é bacharel em Direito pela PUCPR, cursa o doutorado na área de educação inclusiva na Unicamp e é presidente da Associação Nacional para Inclusão de Pessoas Autistas.
Silvano Furtado é franciscano da turma 191 e vice-presidente da Associação Nacional para Inclusão de Pessoas Autistas.


