Adeus, Amâncio de Carvalho 

Isabella Nobre

A instância máxima de deliberação da Faculdade se reuniu na tarde desta quinta (30) para aprovar a retirada do nome de Amâncio de Carvalho de uma das salas do terceiro andar.

Há pouco menos de dois anos, a Ponte Jornalismo exumou um antigo - e vergonhoso - episódio da São Francisco. A historiadora Suzane Jardim, responsável por redescobrir o ocorrido, narra que, ao estudar alguns jornais publicados por entidades negras ao longo do século XX, encontrou um texto de 1929 que descrevia o enterro de uma múmia: “Senti um imenso desconforto, pois o caso me parecia surreal”. Foi a partir daí que iniciou a busca pela identidade daquele corpo embalsamado: seu nome, as circunstâncias de sua morte, os sucessivos vilipêndios a que foi submetido o seu corpo bem como o sepultamento tardio.

O cadáver era de Jacyntha, mulher negra e em situação de vulnerabilidade, cujo corpo foi requerido por Amâncio de Carvalho para uma de suas experiências com embalsamamento. O corpo mumificado foi utilizado a título de instrumento didático por mais de 30 anos, tendo sofrido vários vilipêndios ao longo de sua estadia na São Francisco.

Veja também a matéria feita pela Ponte Jornalismo, responsável por recuperar esse episódio do esquecimento!

Amâncio foi o primeiro professor de medicina legal das Arcadas e era ligado à Sociedade Eugênica de São Paulo. Trata-se de uma história que se passa em um tempo no qual um professor racista, machista e eugenista era chamado de uma “alma bondosa e nobre”.

Retrato do professor Amâncio de Carvalho.

Amâncio de Carvalho estudou Medicina na Bahia e trabalhou em vários cargos relacionados ao controle de epidemias até se estabelecer no Rio de Janeiro, onde se tornou legista. Foi o trabalho como legista que lhe garantiu a nomeação, feita pelo Governo Federal em 1891, para atuar na nova cadeira de Medicina Legal, que acabara de ser criada na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Já na Faculdade, em 1896, Amâncio começou seus experimentos com embalsamamento. Sua primeira múmia foi uma criança, cujo corpo ficou 30 dias exposto na sala dos médicos da Polícia Central. O ineditismo da prática no Brasil e o crescente aperfeiçoamento de sua técnica renderam ao professor certa notoriedade e reconhecimento. 

Quatro anos após esse primeiro experimento, em 1900, o professor solicitou à Polícia Civil o cadáver de Jacyntha Maria de Santana. Jacyntha era uma mulher negra, pobre e sem ocupação fixa, que costumava caminhar pelo centro da cidade de São Paulo e que havia sido presa várias vezes durante a vida em razão de sua “intemperança”.

Jornal O Commercio de São Paulo, edição de 1º de dezembro de 1901.

O corpo embalsamado de Jacyntha passou então a ser usado para ensinar medicina legal aos alunos do quinto ano e era constantemente alvo de vilipêndios. Certo dia, ele desapareceu da Faculdade. Cogitaram-se as teorias mais extraordinárias para explicar o ocorrido, que não passou de uma brincadeira de um grupo de franciscanos. O corpo havia sido furtado e escondido em uma chácara. Dias depois, foi abandonado entre um grupo de árvores, onde foi encontrado. O professor ficou bastante zangado com o ocorrido, mas acabou por perdoar os estudantes.

Ficou interessado pela história de Jacyntha e gostaria de saber mais? Confira a matéria especial publicada pela Gazeta Arcadas em 2020, Múmia in memoriam!

Amâncio de Carvalho faleceu em julho de 1928, mas Jacyntha ainda teve de esperar quase um ano para ganhar o descanso merecido. O Centro Acadêmico XI de Agosto tratou de organizar o sepultamento, que ocorreu no Cemitério São Paulo em jazigo cedido pela prefeitura municipal no dia 6 de junho de 1929.

Participaram da cerimônia muitos estudantes da faculdade, bem como a família do finado professor Amâncio. Vicente Ferreira, expressivo militante do movimento negro que se dedicava a frequentar os eventos públicos para falar a favor de sua classe, discursou aos pés do túmulo salientando a importância da estada de Jacyntha na Faculdade e de seu lugar como parte das tradições da Academia.

Jornal O Estado de São Paulo, edição de 7 de junho de 1929.

Mais de um século depois, a história de Jacyntha ressurge como um emblema do racismo e do machismo que ainda persiste nas estruturas da sociedade brasileira. Mas os tempos são outros, e esse episódio não poderia escapar ao revisionismo do olhar contemporâneo. Ainda mais na São Francisco.

Foi então que começaram as discussões acerca da possibilidade de retirar o nome de Amâncio de Carvalho da sala batizada em sua homenagem. Vários coletivos e extensões se uniram na tarefa, com destaque para o Coletivo Angela Davis, o Centro Acadêmico XI de Agosto, sob a gestão do Movimento Travessia e a Representação Discente, sob a gestão do Coletivo Construção.

Foram 2 anos de articulações, 8 meses de trâmite da proposta na congregação e 4 pedidos de vista, que culminaram na sessão desta quinta (30). A discussão da pauta levou mais de 4 horas, mas, ao final, quase todos os professores votaram a favor da proposta estudantil de retirada do nome. Houve apenas uma abstenção de um docente que não havia lido o processo. Contudo, cumpre apontar que foi alegada insuficiência probatória em relação à responsabilização de Amâncio de Carvalho no caso Jacyntha e o que mais deu respaldo à proposta, na visão da maioria dos integrantes da congregação, foi o fato do professor ter sido um notório eugenista.

A decisão foi bastante celebrada pela comunidade franciscana. Cristóvão Borba, representante discente que acompanhou a deliberação na congregação, falou com exclusividade para a Gazeta Arcadas:

“O que aconteceu hoje foi histórico. A pressão estudantil, depois de dois anos, conseguiu tirar das paredes da São Francisco o nome de um eugenista. É o primeiro, mas não será o último. A São Francisco está conectada com o espírito do nosso tempo e vai agraciar os pleitos do movimento estudantil e do movimento negro”.

Veja o vídeo mostrando o início da retirada da placa com o nome da sala:

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