Vivo em suspensão.
Não flutuando, acima do mundo, mas dentro dele;
dissolvida, porém, insolúvel.
Suspensa dentro do mundo procuro um caminho.
Mas não importa por onde eu ande,
todos me levam ao mesmo lugar.
O Destino é uma estrada de paralelepípedos árdua de ser trilhada a pé.
Mas há de ser trilhada.
A fuga é mental.
Solvida no mundo nada sinto sob meus pés, mas caminho.
E caminho. E caminho…
O Destino é um ônibus quente, sem janelas. Fecho os olhos e sinto-o se movendo
Mas todos os faróis estão vermelhos.
Fugir é cansativo.
Olho para trás e nada vejo.
Não lembro que monstro me perseguia. Era um reflexo?
O Destino é o mar e nele mergulho, tão fundo, que a pressão tampa meus ouvidos.
Mas abro meus olhos e vejo o Universo
Um reflexo.
Nessa sala cheia de espelhos sou passado, presente e futuro.
Sou meu algoz e minha libertação.
O Destino é uma lembrança agridoce. Deitada a dias na mesma cama, nela faço morada.
Mas sinto apenas as quentes lágrimas salgadas.
Um reflexo.
O destino é assombração. O destino é passado, presente e futuro.
O destino é algoz e libertação.
Libertação, completa e sem ressalvas.
Como a desejo! Mas algo falta.
À minha alma.
O véu que nos separa é feito de vidro.
Quero quebrá-lo mas minhas mãos estão atadas.
O véu que nos separa é feito de densa fumaça.
Quero soprá-la, mas não há ar em meus pulmões.
O véu que nos separa é apenas uma ilusão.
Quero sair! mas meus pés estão presos ao chão.
Enraizada ao solo observo o mundo.
Dia após dia, tudo permanece.
Assim como eu.
À minha alma.
Conheço bem essas amarras.
São feitas de medo. Sou covarde.
O véu que nos separa é feito de vidro.
Por ele posso ver tudo que eu poderia ser
Mas o medo me prende. Me impede.
Libertação, completa e sem ressalvas.
Apenas se unisse meu morto corpo
à minha livre, livre alma.
O Destino é mar e nele me afogo.
O Destino é lembrança e nela me perco.
O Destino é ônibus sem janelas e nele sufoco.
O Destino é uma música que cresce cresce e não tem fim.
Pouco importa o fim enquanto o caminho existir.
Ando na cidade sem sentir o chão sob meus pés.
Sou fantasma e as pessoas atravessam meu corpo
sem alma.
O véu que nos separa.
Eterno ciclo, cruel cilada.
Pesada cortina de fumaça.
Meus pulmões clamam por ar e não faço nada.
Acovardo. Contentada em ser fantasma,
Permaneço.
Meu corpo sólido, dissolvido no líquido mundo. Vivo em suspensão.

