Boric, Castilho, Obrador, Petro, Lula, entre outros. Administrando mais de 90% do PIB latino-americano, a esquerda parece viver um novo auge, como não se via desde o início da primeira década do milênio. Mas será que essa “nova onda rosa” terá forças para se consolidar?
Panorama geral
É evidente que classificar em ou direita ou esquerda pode comprometer certas nuances, mas o quadro geral revela que um grupo com determinadas características, especificamente aquele mais voltado às pautas de justiça social, distribuição de riquezas e no Estado como promotor do desenvolvimento[1], e não apenas às questões comerciais, estabeleceu um padrão qualificável.
Historicamente, os regimes políticos latino-americanos apresentam ciclos de maior ou menor proximidade com determinada ideologia. Talvez, aquele que obteve maior corporificação tenha ocorrido há cerca de 20 anos, a saber, a chamada “onda rosa”, um período iniciado no começo no milênio que marcou o estabelecimento e consolidação de diversos líderes progressistas na América-Latina.
O fim do boom das commodities, os insucessos econômicos – sobretudo na distribuição de riquezas – e a disseminação de escândalos de corrupção, mormente aqueles desdobramentos da operação Lava Jato, contudo, estabeleceu um onda “anti-rosa” em meados da segunda década, que ceifou momentaneamente a euforia progressista. A consequência: a levada de figuras do espectro liberal e conservador a dominar grande parte das maiores economias latino-americanas.
Com a eleição de Lula, os rumos da política latino-americana aparentam consolidar a retornada do eixo progressista. Somando-se a uma série de conquistas do espectro da esquerda na América-Latina, a eleição presidencial brasileira pode ser a confirmação da tendência já apontada por diversos cientistas políticos. Apesar de mais heterogênea que a primeira onda, capitaneada pelo presidente brasileiro o “bloco” tem tudo para consertar os erros da primeira geração.
Os dados
No início dos anos 90, cerca de 64% dos chefes de estado latino-americanos enquadravam-se em um espectro de direita ou de centro-direita. Entre 2005 e 2008, esse número caiu para 33%, consolidando um período de grande hegemonia progressista.


Ao longo da época conhecida como post-liberal regionalism, ou regionalismo pós-hegemônico, inclusive, que se inicia nos anos 2000, o progressismo sul-americano procurou institucionalizar essa abstrata e informal onda em blocos neodesenvolvimentistas. Esses blocos possuíam forte apelo ideológico, com vistas a combater um passado no qual o regionalismo liberal predominou, por meio da criação de blocos regionais diversos, tais como: a ALBA-TCP, a UNASUR e a CELAC.
Todavia, esse ínterim também teve seu declínio. Os mapas ideológicos sul-americanos revelam a derrocada da onda rosa a partir da metade da segunda década, sendo sucedida pelo apogeu de uma direita liderada por figuras anti-establishment. Esse apogeu, contudo, foi efêmero demais para se dizer consolidado. Muitas dessas figuras anti-establishment sequer tiveram sucesso em suas reeleições
Dessa maneira, hoje, uma vez mais, os rumos latino-americanos com Boric, Fernández, Petro, Castillo/Boluarte, Obrador e Lula apontam para uma esquerda fortalecida, que volta a dominar a região quase que soberanamente, administrando 6 das maiores economias latino-americanas e 5 das maiores sul-americanas[2], o que representa mais de 90% do PIB regional[3].
Mapa dos espectros políticos
| País | Espectro (Antes) | Espectro (Último) |
| México | Direita (Enrique Peña Nieto) | Esquerda (Andrés Manuel López Obrador) |
| Guatemala | Direita (Jimmy Morales) | Direita (Alejandro Giammattei) |
| Honduras | Direita (Juan Orlando Hernández) | Esquerda (Xiomara Castro) |
| El Salvador | Esquerda (Salvador Sanchéz) | Centro-Direita (Nayib Bukele) |
| Nicarágua | Centro-Direita (Enrique Bolaños) | Esquerda (Daniel Ortega) |
| Costa Rica | Esquerda (Carlos Alvarado Quesada) | Centro-Esquerda (Rodrigo Chaves) |
| Panamá | Direita (Juan Carlos Varela) | Centro-Esquerda (Laurentino Cortizo) |
| Cuba | Esquerda (Raúl Castro) | Esquerda (Miguel Díaz-Canel) |
| Haiti | - | - |
| Rep. Dominicana | Centro-Esquerda (Danilo Medina) | Centro-esquerda (Luis Abinader) |
| Venezuela | Esquerda (Hugo Chávez) | Esquerda (Nicolás Maduro) |
| Colômbia | Direita (Iván Duque Márquez) | Esquerda (Gustavo Petro) |
| Equador | Esquerda (Rafael Correa | Direita (Guilhermo Lasso) |
| Peru | Centro-Direita (Francisco Sagasti) | Esquerda (Pedro Castillo/ Dina Boluarte) |
| Bolívia | Esquerda (Juan Evo Morales Ayma) | Esquerda (Luis Arce) |
| Chile | Direita (Miguel Sebastián Piñera) | Esquerda (Gabriel Boric) |
| Paraguai | Direita (Horacio Cartes) | Direita (Mario Abdo Benítez) |
| Argentina | Direita (Mauricio Macri | Esquerda (Alberto Fernández) |
| Uruguai | Esquerda (Tabaré Vazquez | Direita (Luis Lacalle Pou) |
| Brasil | Direita (Bolsonaro) | Esquerda (Lula) |
Assim, recortado o caso sul-americano, contabilizados os últimos 2 governantes de cada país, temos que 4 governos eram de esquerda ou centro-esquerda e 6 de direita ou centro-direita. Após, passaram a ser 7 e 3 respectivamente. Isso significa que, enquanto o número de países administrados por governos de direita caiu pela metade, os progressistas quase dobraram de tamanho.
Onde está a força da esquerda?
Para Luisa Blanco e Robin Grier, professores do Departamento de Economia da Universidade de Oklahoma, historicamente, 3 fatores vêm determinando as razões pelas quais a esquerda assume destaque eleitoral.
O primeiro, ligado a economia extrativista e agropecuária, sucintamente, indica que, quando exportações em agricultura, minerais e de combustíveis óleos aumenta, há significativa probabilidade de a popularidade dos setores de esquerda aumentar também.
Outro fator está relacionado a discriminação política e crises de governo. Assim, países que historicamente tiveram um passado marcado por discriminação política e sucessivas crises governamentais, bem como historicamente marginalizaram minorias, também são mais suscetíveis a governos progressistas.
Por fim, contudo, os pesquisadores demonstraram que países nos quais o governo anterior fosse mais suscetível a negociações com o parlamento, isto é, com maior harmonia entre os poderes, contanto que não um governo conservador, a tendência é que sejam menos propícios a eleger governantes de esquerda.
A conclusão dos pesquisadores foi que “ambientes de instabilidade política são favoráveis a permitir um estado no qual eleitores se inclinam a votar mais em candidato da esquerda”. Isso porque, “presidentes conservadores são punidos eleitoralmente quando ocorrem crises sob sua autoridade, enquanto presidentes progressistas não são”. Quando observado o caso latino-americano, temos esses 3 fatores muito evidentes: economias extremamente dependentes de commodities, com uma história marcada por discriminação e muito pouca harmonia entre os poderes.
O que muda nessa nova onda rosa?
Diferente de 20 anos atrás, a crítica ao modelo de globalização orientado pelos neoliberais do Consenso de Washington não tem mais o mesmo impacto. O aspecto doméstico ganhou muito mais peso, sobretudo com o fortalecimento da retórica democrática, de defesa do meio ambiente e do interesse dos povos originários e de grupos historicamente marginalizados. A heterogeneidade cultural e étnica tornou-se uma pauta de alta demanda, com maior preocupação do que há algumas décadas.
O acirramento da narrativa social e o incorporamento de pautas importantes a minorias com alto apoio popular, de fato, demonstram um cenário substancialmente distinto. Mas não só, o fim do otimismo com relação a capacidade das grandes potências emprenharem sucessos no multilateralismo global revela um refluxo ácido da globalização neoliberal – da qual os próprios governos progressistas tiveram otimismo, sobretudo com a ascensão chinesa, voltando os interesses nacionais para questões intestinas e regionais. Em outras palavras, as clivagens sociais internas se intensificam, e não menos foram as rupturas nas integrações globais.
Apesar do cenário conturbado, a esquerda demonstrou ter aprendido valiosas lições com o passado que podem favorecer a nova onda rosa. As narrativas vermelhas e ásperas à sociedade cidadã adaptaram-se aos requisitos democráticos, dando tons muito mais rosáceos do que vermelhos aos seus discursos. Não só, o distanciamento histórico da Guerra Fria e do temor que representava o mundo soviético para as democracias ocidentais rechaçou grande parte do temor socialista presente até o início do milênio. Assim, o grande adversário à nova onda encontra-se muito mais no campo interno e material do que nos fatores externos e fantasmagóricos. Mas será isso o suficiente para solidificar essa nova onda?
Há quem considere, ainda, essa nova onda progressista uma miragem. Para Jeffrey Webber, professor do Departamento de Política da Universidade de York, em verdade, a América Latina vive um interregno, no qual nem a esquerda, nem a direita conseguem solidificar uma hegemonia.
Por um lado, a esquerda conquista vitórias políticas na atualidade, mas contina a caminhar para o centro, de forma que, mesmo quando vence, perde. A direita, por sua vez, é eclipsada paulatinamente pela extrema-direita. A consequência: nenhum espectro político consegue estabilidade. O povo vota cada vez mais contra o governo atual do que a favor do projeto político de oposição.
Nova onda rosa ou apenas mais um giro à oposição?
Sobretudo entre as democracias latino-americanas, fica clara a insatisfação popular com os governos do momento. No Brasil, pela primeira vez desde a redemocratização, um presidente candidato à reeleição não obteve êxito. Na segunda maior economia sul-americana, a Argentina, Macri também não se reelegeu. Na América do Norte, Trump foi o primeiro desde George H. W. Bush, em quase 30 anos, a não conquistar o segundo mandato.
O movimento já é percebido por estudiosos: o que se chama por turnovers ou tendência de voto na oposição. O momento reflete a descrença na política e no oficialismo por parte da população, principalmente entre aquelas populações marginalizadas. A derrota dos destes, contudo, trouxe à tona o fenômeno dos outsiders anti-establishment, com discursos levianos, rasos, e contrários às forças políticas consolidadas. Os vencedores, os extremos. Os perdedores, os centros.
Benjamin Marx, Vincent Pons e Vincent Rollet, estudiosos do Sciences Po & CEPR, de Harvard e do MIT, respectivamente, expõe que esses turnovers tem seu aspecto positivo em sociedades de democracia funcional. Analisando eleições desde 1945, os pesquisadores descobriram que, surpreendentemente, os giros “aumentam a governabilidade e reduzem a percepção da corrupção” (tradução minha).
Segundo suas conclusões, ao renovar a liderança política do país, “permite-se que novos lideres detentores de maior reputação subam ao poder”. Em um regime no qual a confiança popular e os prospectos políticos e econômicos são fundamentais para a governabilidade, e mesmo para garantir a conclusão do mandato, giros à oposição podem assegurar maior dinamicidade e eficiência.
Contudo, o cenário não é o mesmo quando o país enfrenta recessões econômicas. Como apontam os pesquisadores Nathan Nunn, Nancy Qian e Jaya Wen, dentro os fatores de maior relevância para os giros à oposição podem estar o desempenho econômico e os níveis de confiança geral da população.
Harold Wilson, ex-primeiro-ministro britânico, dizia que “toda a história política mostra que a permanência de um governo e sua habilidade para manter a confiança do eleitorado em eleições gerais dependem do sucesso da sua política econômica”. A confiança geral, por sua vez, enquanto a capacidade ou medida “na qual as pessoas acreditam nas outras” tem impactos extremamente relevantes na consolidação de governos.
Nunn, Qian e Wen concluem que “em geral, os índices de giros à oposição são maiores em países de baixa confiança política”. Assim, quanto maior a descrença na política, maior a instabilidade e menores as chances de reeleições, o que diz muito sobre a situação atual latino-americana.
Em um cenário no qual o país enfrenta graves percalços econômicos, portanto, as evidências apontam que a confiança geral e a manutenção do governo até podem ser positivas para a recuperação econômica. Isso porque, a confiança é fundamental para o crescimento dos mercados internos e dos investimentos e manutenção do governo gera estabilidade em um contexto já insólito. Mas isso tende a ser um resultado de bons e recorrentes desfechos econômicos e não o contrário.
As evidências apontam ainda que, em sociedades de menor confiança geral, o eleitorado pode ser menos suscetível a aceitar as desculpas dos líderes por insucessos econômicos, são sociedades nas quais o esforço ou a habilidade são opacas, mas o resultado se faz evidente e claro. Assim, onde a confiança geral tende a ser menor, como é o caso latino-americano, desempenhos econômicos fracos tendem a favorecer cenários de turnover.
Isso explica o fraco desempenho eleitoral de grande parte dos líderes regionais das maiores economias nas últimas eleições, mormente a partir do fim de 2021, quando o cenário fiscal se encontrava descontrolado em razão das medidas de combate à COVID-19, provocando diminuição na eficiência econômica global.
Por outro lado, quando se observa um país com high-trust levels, “eleitores confiam que baixos resultados são mais provavelmente causados por choques exógenos do que pelo fato de o político ser de um tipo ruim”. Foi o que se observou na Suécia entre 1991-1993 e na Finlândia no começo de 2012. Apesar do fraco desempenho econômico, o cenário político se manteve estável, colaborando para a recuperação do país.
Fato é, como se pode observar acima, em 12 de 19 países latino-americanos, houveram turnovers do espectro ideológico e, em muitos desses casos, sequer houve reeleição. Essa constatação e os insucessos eleitorais de governantes se reelegerem coloca em dúvidas a concepção de uma nova onda rosa em acordo com a tese de Webber de que vivemos, em realidade, um período de instabilidade e descrença no governo do momento, no qual a oposição tende sempre a ser vitoriosa.
REFERÊNCIAS
[1] https://www.ihu.unisinos.br/categorias/622546-nova-onda-progressista-na-america-latina-traz-ao-mundo-um-grito-de-esperanca
[2] https://www.bloomberglinea.com.br/2022/09/25/quanto-os-paises-da-america-latina-contribuem-para-a-economia-mundial/
[3] https://www.poder360.com.br/economia/com-vitoria-de-lula-esquerda-tem-mais-de-90-do-pib-sul-americano/

