A Anatomia do Silêncio

Se lê A Anatomia do Silêncio em uma ilustração que contém o desenho de um rádio antigo.
Yasmin Babadobulos | @yasmintbs

Morei durante um tempo em um sítio. Era um lugar que corria pelo horizonte e parecia tão infinito quanto a Terra.

Lá, tudo era muito quieto. Eu lembro de gargalhar enquanto brincava com os animais e corria atrás deles. Quando estava exausta, o silêncio ressurgia, de supetão. Tudo era tomado pelos sons dos pneus sibilando na rua e das cercas que balançavam com o vento, e a sensação era de que o relógio parava até a hora de brincar com os cachorrinhos de novo.

Uma menina, em silêncio, brinca com cachorros pequenos e filhotes no chão.

Depois disso, eu me mudei algumas vezes, mas ainda vivo em uma casa bastante silenciosa. Daqui, também consigo ouvir os sons da rua, dos bosques e dos transeuntes. Mesmo assim, o silêncio parece tomar muito espaço – mas de uma maneira essencial, ele é diferente do silêncio que me rondava enquanto morei no sítio. Naquela época, meu campo auditivo estava restrito a um grito, e a quietude do ambiente era quase cinematográfica. Hoje, no entanto, posso tolher o meu silêncio sem precisar esperar pela próxima vez de ouvir o eco da minha própria risada.

No intervalo entre uma casa e outra, morei com a minha avó e, lá, tive uma experiência bastante sonora. A orquestra silenciosa do sítio deu lugar a um concerto de estações de rádio, que eram mais tagarelas do que as maritacas no quintal. Os meus dias acabaram divididos em horários de programação, e o rádio, que não podia sair do lugar, abafava o grito até da mais barulhenta das maritacas. Provavelmente, alguma composição sonora parecida com essa fez Ferreira Gullar cravar que deu “o azar de nascer na época da caixa de som.”

O quintal do silêncio de uma casa florida.
O quintal da minha avó habitado pelas maritacas

Hoje, eu lembro nitidamente da ruptura do silêncio quando passei de um lugar a outro, mas não me lembro de nenhuma notícia que ouvi com a minha avó. Apesar de eu não ter me atentado para a função cívica do rádio, ela parece ter sido alvo de muitas polêmicas nos anos 30. Bertold Brecht é um dos maiores símbolos da irresignação com o rádio: “[ele] só tem um lado, quando deveria ter dois,” escreveu. O rádio poderia se tornar “a melhor aparelhagem da vida pública, uma vasta rede de canais. Isso quer dizer, ele seria isso, se soubesse como receber, assim como sabe transmitir, se soubesse como deixar o ouvinte falar, assim como sabe fazê-lo ouvir.” 

O rádio, à época, estava a serviço da propaganda nazista. Quando Hitler tomou o poder, Brecht amargou um exílio de 15 anos na Dinamarca – e, quase implacavelmente, o mundo de um exilado é o próprio silêncio. Mesmo Brecht, que parecia antagonizar com o rádio, foi acompanhado por ele, como uma fonte de consolo para o distanciamento:

Você, pequena caixa que trouxe comigo

Cuidando para que suas válvulas não quebrassem

Ao correr do barco ao trem, do trem ao abrigo

Para ouvir o que meus inimigos falassem

Junto a meu leito, para minha dor atroz

No fim da noite, de manhã bem cedo

Lembrando as suas vitórias e o meu medo:

Prometa jamais perder a voz!

Em Poemas 1913-1956, de Bertold Brecht. Seleção e tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000.

Embora ele tivesse seu rádio como companhia no exílio, as transmissões não reproduziam o som de seus amigos conversando ou a vivacidade de Berlim. Eu consigo imaginar Brecht em um café na Alemanha, sua voz se misturando com a de dezenas de outras pessoas. Múltiplas conversas que se desenrolam e concorrem com o tilintar dos talheres e compõem um tipo muito peculiar de música. Quando eu estava no ensino médio, passava muito tempo dos meus dias vagando por parques e cafés da cidade, nos quais eu lia e estudava, ou fingia estudar. Costumava fazer isso sozinha enquanto ouvia cachorrinhos latindo e pessoas fofocando ou falando sobre política, reclamando do imposto de renda ou discutindo os nomes dos futuros filhos. Era uma mistura de vozes que semeavam e partiam, como uma música confortável, uma válvula de escape para o meu próprio exílio.

Acho que a calada da minha vida amplificou aqueles sons. Naquele verão, o silêncio parecia tomar corpo, quase como uma presença – mas nunca como uma companhia. À medida que os dias se desenrolaram, comecei a sentir que o silêncio existia em uma teia, tecida por mim mesma. Era o espectro do meu próprio futuro, e eu não conseguia me concentrar em nada além da minha solidão. De alguma forma, a toada de vozes dos cafés me fazia esquecer da imensidão torturante de não saber quem eu queria ser, ou quem eu era.

O silêncio também é estarrecedor a quem é forçado a ele. No livro “Journey Into the Whirlwind”, Yevgenia Ginzburg, uma membra do Partido Comunista acusada de ocultar atividades contra-revolucionárias, conta sua experiência na prisão. A maior parte da sentença de Ginzburg foi cumprida em trabalhos forçados no Gulag. No entanto, antes da longa e lenta viagem de trem pela Sibéria até o “arquipélago”, ela passou dois anos confinada em prisões soviéticas regulares, frequentemente em solitárias. Ginzburg narra o silêncio na solitária como uma modalidade de tortura.

“The night grows wider

And the dreams more bitter 

How much silence 

Is there in the world?”

Em Journey Into the Whirlwind, de Yevgenia Ginzburg. New York: Harcourt, 1995.

Ela passava o tempo andando de um lado para o outro na cela; vasculhando a memória; recordando os entes queridos, a vida anterior, as leituras que costumava fazer. E conta que foi capaz de observar o primor que a memória humana pode desenvolver quando aguçada pela solidão e pelo isolamento do mundo.

Por mais avassalador que o silêncio possa parecer, ele também é muito procurado. Durante o século III, na Grécia Antiga, Plotino pregou o silêncio como um caminho para a transcendência. O silêncio se ergueu sobre um valor ascético no Ocidente e, não à toa, a associação da vida monástica ao silêncio se tornou uma constante na civilização europeia. Não foi muito diferente em outras civilizações: os mosteiros de vida contemplativa na Coreia, China e Japão, frequentemente inspirados pelo Budismo, praticam a meditação silenciosa. Os sufis muçulmanos associam o silêncio às práticas da oração. Às vezes eu sinto que o silêncio litúrgico não é só uma obrigação ou um caminho para a ascese: ele é, também, positivamente cruel; e talvez por isso possa ser tão acolhedor.

Na filosofia da maior parte dos retiros espirituais que já vi na internet, o silêncio é a ausência de sons fabricados. Enquanto escrevo estes parágrafos, meus dedos bicam o teclado em um tec tec tec que me parece tão agradável quanto silencioso. Mas ironicamente sou interrompida por uma voz do outro lado do quarto: “que teclado barulhento”. Nós ouvimos o som das chamas murmurando no fogão e da chuva torrencial estapeando os vidros da janela – mas barulhento, é claro, é o frenesi do teclado, que parece mais enxerido para as esperanças de um dia tranquilo do que o grito das maritacas.

Referências

“Silence: A Social History of One of the Least Understood Elements of Our Lives”, por Jane Brox.

“Barulhos”, por Ferreira Gullar. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1303200520.htm

“A Internet segundo a Teoria do Rádio”, por Antonio Sergio Lacarte. Disponível em: https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/04/Antonio-Sergio-Lacarte.pdf

Share via
Copy link
Powered by Social Snap