Marinheiro só

“Eu não sou daqui
Marinheiro só
Eu não tenho amor
Marinheiro só
Eu sou da Bahia
Marinheiro só
De São Salvador
Marinheiro só”

Foi no balanço do mar que eu aprendi nada. Meus cabelos brancos e meu jeito
estranho de falar demonstram como é difícil para eu sonhar. Minha vida, na verdade, nunca teve sonho, é só dureza, é só tristeza é só fazer. Minha vida é navegar no deserto do real, que alguns poetas gostam de chamar de mar. Eu, pessoalmente, sempre detestei esse nome: há nele algo de positivo, algo de belo que a realidade não tem, algo idealista demais, pouco materialista para um marinheiro (um trabalhador, antes de tudo) como eu.
Minha vida, caro colega, é navegar e quando vocês ficam endeusando o “Marrrr”, a
“praaaia” e o “Soool” esquecem que essas belezas naturais – que para vocês são símbolos da diversão, do lazer e do prazer – são, para mim, coisas que extraem o suor grudento, espesso e fedido do meu corpo para que eu possa comprar o pão de hoje e ter forças, assim, para trabalhar amanhã. Aí, mais tarde, quando vocês estiverem curtindo um som a beira mar com uma gin tônica, eu passarei fedido do seu lado carregando uma rede de peixes ainda mais fedida e vocês, certamente, vão fazer careta, dar uns risinhos, tampar o narizinho ou apontar com o dedo de vocês para mostrar as suas crianças os peixinhos, ignorando o marinheiro.
Eu sei que eu fedo. Eu sei e não me envergonho, queria poder não feder não
trabalhando, ficar apenas sentado contanto meus trocados. Mas saibam que vocês fedem pra caralho, mas têm dinheiro pra comprar perfume, como diria meu colega Falcão.
Eu sou o fim da tarde que vem estragar a praia de vocês. Eu sou o fedor que faz vocês
botarem os bofes pra fora. Eu sou o incômodo no fim da noite de sábado. Vocês não me
toleram, mas precisam de mim, sou eu que trago peixe. Odeiam meu fedor, mas amam comer o peixe assado no forno de lenha com folha de bananeira servido com uma banana da terra grelhada e tudo isso preparada por uma mulher chef de cozinha vegana. Ora, não podem ficar sem peixe e vocês mesmo não pescam: precisam de mim.
A solução de vocês é simples: “vamos criar chuveiros públicos para dar banho de
graça aos marinheiros!”, “vamos distribuir perfume aos marinheiros!”, dirão os
“progressistas”. Os conservadores, sempre mais honestos em seus pressupostos, dirão: “gente fedida, porca e suja não pode andar do nosso lado, vamos separar praias reservadas só para marinheiros e praias só para nós, se os porcos não respeitarem, colocamos o exército na rua e proibimos a passagem dos marinheiros nas nossas praias”.
Eu digo pra vocês uma coisa: são todos farinha do mesmo saco, nenhum dos dois vão
deixar de comer todos os peixes do meu trabalho e me deixarem só com o pão. A diferença
é que um me dará um pão fresco com manteiga ou, se a coisa tiver muito boa pra ele, me dá
até um pedacinho de peixe; e o outro vai me deixar só com um pão seco e, se perceber que
eu aguento o tranco, come metade do meu pão.
Eu sou o incômodo dos dois. Eu odeio os dois. Eu sou o marinheiro só, sobre o qual
vocês gostam de fazer poesia, música, contar histórias fantásticas e irreais, mas eu sou a
realidade, eu determino o futuro de vocês. Eu sou o marinheiro só, não porque estou sozinho, mas porque junto dos meus somos um contra vocês.

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