“Onde está Deus, mesmo que não exista?”
Fernando Pessoa, Livro do desassossego¹
– Aceita mais uma taça de vinho?
– E por que não, Dulce? – tio Heráclito respondeu numa voz distante, chacoalhando debilmente a cabeça, ressurgindo de algum lugar muito escondido em sua mente.
Ante a anuência, a sobrinha dirigiu-se até a mesinha de centro onde já pousava uma garrafa destampada. Com o olhar periférico, observava enquanto o tio mudava as estações do rádio, ansioso para encontrar algo familiar aos ouvidos.
Heráclito Meirelles era um homem desconfiado. Frequentava os mesmos restaurantes, comia os mesmos pratos e bebia os mesmos rótulos. Com a música não era diferente. Dulce não aguentava mais ouvir as repetidas composições de Nepomuceno, o Imbapara de Lorenzo Fernández, as operetas de Guarnieri e os arranjos de Gnattali. Este nacionalismo de Heráclito arrastava-o para arenas estéreis, isolando-o de novidades, atraindo apenas discursos pedantes ao seu redor. Não surpreendia a carência de amizades e de correspondências, somente amiúde quanto a clubes e organizações rasas de conteúdo.
– Ah! Não há coisa igual a este Tannat! Prove um pouco, querida. Somente um gole. – disse enquanto estendia abruptamente o tinto para a sobrinha.
Dulce rejeitou com um meneio sutil. A jovem quase nunca bebia e certamente aquele não era um momento propício.
– Ela não está mais aqui, Dulce – após o silêncio melancólico como resposta, continuou – Vamos. Beba.
– Não, obrigado. – A sobrinha tentou ofuscar a voz embargada.
– Mas que inferno! Beba, Dulce. Sua vó se foi. A santa se foi. Agora beba o maldito vinho.
A jovem ficou muda enquanto novamente sentia abrir a recente ferida do luto. A avó Lúcia não havia sido tão presente na vida de Dulce. Na verdade, somente nos últimos anos conviveram, desde que a sobrinha retornara da capital. Estranhamente, encontrara na anciã um misto de paz inigualável. Na presença dela, sentia um impulso crescente para a caridade, beatitude e contemplação. Uma corrente de calmaria que a avó nitidamente inspirava às pessoas ao redor.
O apelido de santa, contudo, não viera desta atmosfera singular, mas sim de um episódio ocorrido há muito antes.
Quando criança, Lúcia Maix Meirelles estava com os familiares numa chácara do interior paulista. Dentre as comemorações ocorridas naquele 24 de junho, Dia de São João Batista, a que mais chamou a atenção da pequena foi a imensa fogueira instalada no meio do pátio. A pilha de brasas atingia volume considerável, chamuscando labaredas alaranjadas a quase dois metros de altura. O brilho e calor emanados do fogo, contrastados com a escuridão noturna, despertaram uma curiosidade indizível na criança. Até que, quando já muito próxima da pira, tropeçou sozinha e caiu em cima do fogo, cena que foi seguida por gritos de alarde e escândalo de todos os lados. Somente após quase meio minuto Lúcia foi então resgatada, puxada de dentro daquele inferno. Para o espanto e alívio geral, contudo, a criança não apresentava nenhum chamuscado, até suas roupas estavam intactas, surgindo daí a alcunha de santinha, reforçada pelo pendor amoroso de Lúcia. Tanto é que não foi surpresa o seu rumo para o convento quando mais velha, designando-se a capelinha da cidade com o seu nome.
– Desculpe-me, Dulce. É que eu tenho um sonho recorrente e durante o dia de hoje tudo piorou. – disse Heráclito como que para se justificar do recente arroubo.
– E qual foi o sonho?
Os sonhos manifestam o destino dos seres, embora sejam despidos de cunho profético. Como as ondas que podem tomar rumos diversos, acelerando ou refreando sua trajetória, os sonhos também podem mudar, descrevendo resultados mutáveis, mas sempre instantaneamente certeiros. Somos descendentes de sonhadores desde a mais primeva aurora, submissos desta oscilação inexorável de destinos.
Naquela noite, como em tantas outras antes dela, Heráclito sonhara com um homem sob um cavalo amarelo e por todo lugar que a figura passava havia sombra. O cavaleiro não parecia triste ou feliz, orgulhoso ou humilde, apenas seguia imaculado pelos abismos infinitos.
– Não dei importância a este cenário lúgubre até sentir uma dor no peito durante a tarde. Corri para o médico, aflito. Após um exame, fui diagnosticado com uma isquemia próxima ao coração – Receoso, completou – Amanhã farei uma cirurgia complicada, Dulce. – Heráclito apertava os dedos ansiosamente enquanto emitia o relato.
Emudecida, Dulce ouviu atentamente cada detalhe. Não devolveu nenhuma palavra ao tio, apenas se levantou e subiu escada acima. Passado algum tempo, retornou segurando o pedaço de um lenço axadrezado usado pela avó Lúcia.
– Tome, tio. Coloque isto sobre o peito antes de dormir.
Heráclito não conseguiu segurar uma risada de escárnio sobre o convite.
– Oh, Dulce. Por favor, não me venha com isto. Vamos, eu quero é mais uma taça de Tannat. Não vá, Dulce. Perdão. Não precisa chorar. Ah, para o inferno você com seu lenço também.
Mais tarde, ébrio e imerso em ressentimentos, Heráclito foi para os seus aposentos e, contrariado, finalmente colocou o pedaço de pano sobre o tórax. Baixinho e com os punhos fechados, pediu a intercessão de Lúcia. Pensou na calmaria da presença dela, no seu rosto sereno e no semblante humilde, até por fim cair em orações. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, sonhou um sonho tranquilo.
¹(PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 116).

