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Em 1903, Marie Curie, em conjunto com Pierre Curie, seu marido, e o físico Henri Becquerel, descobriu a radioatividade. Em 1911, ela descobriu o polônio e o rádio. Assim, graças a Marie Curie detemos atualmente conhecimento acerca de elementos químicos radioativos, os quais sabidamente podem ser prejudicais à saúde.
Durante a Primeira Guerra Mundial, centenas de mulheres ocuparam os postos de trabalho deixados pelos homens, os quais se viram diante do dever de servir nos esforços de guerra de seus países. O trabalho feminino era necessário para suprir a falta de mão de obra masculina e não deixar a economia estagnada, além de se tornar imprescindível para garantir o fornecimento de serviços típicos em período de guerras, como enfermagem, entrega de mensagens etc.
Essa brevíssima introdução serve de pano de fundo para melhor contextualizar o fato de que um dos postos de trabalho deixado pelos homens na época foi o de pintor de mostrador de relógio. A pintura era realizada com a utilização de uma tinta luminosa, que tinha o elemento químico rádio por base. Os relógios, por conta da radioatividade, tendiam a brilhar por muito tempo, sendo considerados uma novidade incrível por não haver a necessidade de carregá-los eletricamente ou utilizar a luz solar para tê-los iluminado.


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As mulheres, então, buscando sustento para a família, começaram a ocupar os postos de trabalho deixados pelos homens nas fábricas de relógio, e passaram a pintar os mostradores de relógio. Ocorre que a tinta, como anteriormente explicado, era feita à base de rádio, um elemento radioativo e, portanto, bastante nocivo à saúde. Dessa forma, as mulheres, a cada mostrador pintado, se infectavam cada vez mais, sem saber exatamente dos riscos que corriam pelo contato tão direto que mantinham com o rádio. Essas mulheres ficaram então conhecidas pela alcunha de Radium Girls.
Muitas mulheres costumavam trabalhar até tarde da noite nas fábricas de relógio, o que acabava fazendo com que elas começassem a “brilhar” no escuro. Esse brilho era, na verdade, a extremamente perigosa liberação de energia do rádio, perigo esse não conhecido pelas trabalhadoras da época. As Radium Girls, como gostavam de ser chamadas, também costumavam espalhar a tinta pelo próprio corpo, pelos dentes e cabelos, a fim de que eles “brilhassem”.
De acordo com o jornal britânico The Telegraph, uma dessas pintoras, Mae Cubberley, relatou que o primeiro questionamento que fez a seu chefe quando começou o trabalho foi em relação à possibilidade de a tarefa a machucar, tendo ele respondido que não, já que o rádio não era perigoso. Isso evidencia, portanto, o motivo de tantas mulheres terem espalhado a tinta sobre seus corpos: não tendo conhecimento acerca dos reais efeitos do material sobre a saúde, acreditaram nas palavras de seu superior hierárquico na fábrica a respeito da segurança do produto, tendo, assim, sido enganadas. De lembrar-se, no entanto, que fora das fábricas de relógio os trabalhadores possuíam proteção extra para manusear o rádio, ao passo que as Radium Girls, por outro lado, tinham por hábito passar um pincel contendo rádio nos lábios antes de iniciarem os trabalhos do dia.
A primeira morte por uso de rádio, de acordo com a CNN, ocorreu em 1922, quando uma jovem de 22 anos, de nome Mollie Maggia, faleceu após passar um ano reclamando de dores. A morte de Mollie ocorreu em virtude de uma condição conhecida como radium jaw (ou “mandíbula de rádio”, em tradução livre), a qual deixou a mandíbula de Mollie tão fragilizada que seu médico decidiu removê-la apenas puxando-a para fora.


Fonte: Real Clear Life
O site do BuzzFeed, em matéria escrita por Kate Moore, autora do livro Radium Girls, descreve mais detalhes acerca da morte de Mollie, relatando que tudo começou com uma dor de dente. Após a extração deste, em seu lugar surgiram manchas vermelhas de sangue e pus, sendo que mandíbula e demais ossos começaram a ficar fragilizados na sequência.
Os ossos ficam fragilizados, de acordo com o reportagem do El País, porque o rádio penetra nos ossos, compostos por cálcio, fazendo com que a radiação seja emitida de dentro para fora do osso, deixando-o fragilizado. De acordo com a CNN, a radiação gera necrose e câncer no tecido ósseo.
Com o passar dos anos, mais e mais mulheres faleceram em decorrência do rádio, a despeito de as empresas terem negado tal causa, alegando ainda que as mortes das garotas havia ocorrido em decorrência de sífilis.
Em 1925, Grace Fryer, pintora de mostradores de relógio que esteve por muito tempo exposta ao rádio, decidiu processar a empresa onde trabalhava. Após anos de procura, em 1927 Grace e mais quatro trabalhadoras ajuizaram uma demanda, julgada procedente em 1928.
Catherine Wolfe, também intoxicada pelo rádio, decidiu igualmente travar uma batalha judicial contra a empresa onde trabalhava, sendo hoje lembrada tanto por processar uma empresa logo após a crise de 1929 como por dar seu testemunho já em seu leito de morte.
Tanto o processo de Grace quanto o de Catherine se tornaram precedentes nos Estados Unidos da América. As Radium Girls sobreviventes receberam indenizações, e as empresas passaram a declarar a verdadeira causa da morte das demais. As empresas foram devidamente responsabilizadas por tais mortes, um feito praticamente inédito na história dos direitos trabalhistas.
Além disso, foram estabelecidas novas regulamentações referentes à saúde e segurança do trabalho, para que, por exemplo, os chefes não mais mentissem quanto ao perigo relacionado ao trabalho executado, como o fizeram com Mae Cubberley.
As Radium Girls, como visto, foram importantíssimas para a História, no entanto foram esquecidas por boa parte dos cidadãos, sendo difícil encontrar informações sobre elas. São mulheres fortes que começaram a trabalhar em tempos difíceis e, sem saber, se submeteram a condições que as levariam à morte. E, mesmo assim, buscaram justiça, não só para elas, mas para todos os outros que um dia pudessem sofrer com qualquer abuso nas relações trabalhista.
Precisamos lembrar e enaltecer mulheres como elas, que mesmo com todas as dificuldades no trabalho e problemas de saúde, não desistiram de lutar. Precisamos falar sobre as Radium Girls nas escolas, nas faculdades, nas famílias e nos grupos de amigos. Não podemos deixar que histórias importantes como essa caiam no completo esquecimento ou não sejam ao menos conhecidas. Precisamos contar aquelas histórias que não foram contadas para nós.
Bibliografia:
THE FORGOTTEN FACTORY GIRLS KILLED BY RADIOACTIVE POISONING. Disponível em: https://www.telegraph.co.uk/books/what-to-read/the-forgotten-factory-girls-killed-by-radioactive-poisoning/. Acesso em: 16 ago. 19.
AS GAROTAS RADIATIVAS. Disponível em: https://edition.cnn.com/style/article/radium-girls-radioactive-paint/index.html. Acesso em: 16 ago. 19
A HISTÓRIA ESQUECIA DAS “RADIUM GIRLS”, CUJAS MORTES SALVARAM AS VIDAS DE MILHARES DE TRABALHADORES. Disponível em: https://www.buzzfeed.com/br/authorkatemoore/radium-girls-brasil. Acesso em: 16 ago. 19
RADIUM GIRLS: THE DARK TIMES OF LUMINOUS WATCHES. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/08/cultura/1546980717_212004.html. Acesso em: 16 ago. 19

