Laranja Mecânica é um filme de 1971, adaptado e dirigido por Stanley Kubrick – baseado em livro de mesmo nome do escritor inglês Anthony Burgess. O filme, de ficção científica, retrata uma Inglaterra distópica assolada pela violência, impunidade e autoritarismo. Analisando-o sob a ótica do pensamento de Michel Foucault acerca de poder disciplinar e levando em consideração a atualidade do discurso político na temática da segurança, pode-se observar, com esse texto, as origens de uma possível rachadura na democracia a partir da forma que um Estado controla a violência entre seus cidadãos. Alerta-se, entretanto, que o propósito deste texto é muito mais levantar questões da filosofia de Foucault ancoradas em uma obra de arte do que destrinchar teorias que são complexas demais para o redator deste artigo, apenas um estudante leigo no assunto.
A história de Laranja Mecânica é centrada na trajetória de um jovem chamado Alex, líder de uma gangue de criminosos que agridem moradores de rua, invadem casas, matam e estupram. Um dia, porém, Alex é traído por seus companheiros e acaba indo para a prisão – onde ele, após alguns anos, ouve falar da existência de um experimento chamado “Ludovico” e logo se inscreve com a promessa de liberdade após duas semanas no tratamento.
No procedimento Ludovico, no entanto, é condicionado a nunca reagir de forma agressiva, nem mesmo para defesa, por meio de vídeos ultraviolentos e uma rotina de remédios. Toda vez que o tenta fazer sente enormes dores de cabeça e fortes enjoos; consequentemente, ele passa a associar assim, o ato violento a um mal-estar antecedente. Em seguida, depois de concluído o projeto, Alex é apresentado a um ministro de Estado que, feliz com os resultados, torna o procedimento uma política pública para evitar a insegurança e supostamente curar os infratores, transformando-os em “cidadãos de bem”.
Feita breve análise do que nos interessa no longa, faz-se agora um diálogo de seu conteúdo com os estudos do filósofo francês Michel Foucault, que trabalha em várias aulas ao Collège de France, depois compiladas em livros como Microfísica do Poder e Em Defesa da Sociedade, a teoria do poder disciplinar na sociedade da normalização. Nessa teoria, Foucault transforma a visão de poder, visto que, em vez de perguntar “quem tem poder”, como vinham fazendo séculos de estudiosos desde Hobbes e Maquiavel, o francês se questiona sobre como o poder se manifesta e se desenvolve na sociedade, isto é, de que maneira as relações entre os súditos se dão em uma teia onde o poder e as formas de controle se espalham por vários núcleos e não só se estabelecem na mão de um soberano como se apregoava na doutrina clássica hobbesiana.
Em primeiro lugar é importante notar a lógica por trás do procedimento Ludovico: existe aqui uma tecnologia de poder que se manifesta nos corpos e em seus atos de forma a disciplinar o cidadão, ou seja, tornar seus “corpos úteis e dóceis”. Alex, que antes dedicava seu tempo a uma vida criminosa, agora está apto a se concentrar totalmente na vida capitalista do trabalho – ou seja, ele está fisicamente condicionado a viver de acordo com a conduta adequada à sociedade. Além do mais, não é preciso mais que Alex seja vigiado, nem mesmo punido com a clausura ou o suplício: o tratamento, dito científico, faz com que o próprio infrator se regule para que não sofra as sanções do próprio corpo como a náusea ou uma intensa dor de cabeça.
Outro ponto a ser observado em Laranja Mecânica está na maneira como Alex se reinsere na sociedade. O que era anormal se adapta à regra natural e se normaliza, adentrando em uma cadeia de poder em que todos os sujeitos se controlam na periferia e na multiplicidade, ou seja, entre si e em seus vários eixos, para muito além de um poder soberano que atua na centralidade ou “de cima para baixo”. Para exemplificar, lembro aqui que o ministro de Estado liberta o nosso personagem principal pois tem o diagnóstico de que ele está curado, isto é, livre daquilo que o colocava fora do interior social normal. Também, a cura se apresenta pelo fato de ter se tornado um “cidadão de bem”, ou seja, um sujeito disciplinado e normatizado. O indivíduo, por fim, e no seu plano mais extremo como no explicitado acima, vai perdendo a capacidade de decidir por suas próprias vontades e vai sendo “castrado moralmente” ou se distanciando do que seria um livre-arbítrio. As escolhas vão sendo definidas pelo medo de desafiar a ordem natural das coisas.
Dessa forma, fazendo com que os próprios sujeitos da sociedade possam se autorregular, usando de técnicas e mecânicas de poder que inibem o livre julgamento dos indivíduos sobre suas próprias atitudes, o Estado vai aumentando seu controle sobre os cidadãos de forma tácita e bem elaborada. Logo, há uma redução da liberdade e, consequentemente, a tomada de uma forma mais autoritária. A democracia, porém, se apresenta em um ambiente de escolhas livres, descobertas de manipulações ou condicionamentos coletivos da moral.
É importante notar, nesse mesmo sentido, que, para vários líderes políticos da atualidade considerados desafiadores da ordem democrática como Jair Bolsonaro, Donald Trump ou Nayib Bukele – presidente de El Salvador –, a pauta da segurança e do combate à criminalidade é crucial. Mas a questão é que as propostas desses líderes para contornar tais problemas passeiam por caminhos muito mais autoritários, como ampla interferência do Poder Executivo em outros poderes, com o incitamento ao ódio e com o monopólio da moralização.
Por sua vez, isso significa dizer que o infrator é posto como alguém que deve ser disciplinado a todo custo, um imoral anormal, não merecedor de ser tratado conforme os direitos humanos. Nesse caminho, qualquer medida que garanta a manutenção da ordem e segurança pode ser utilizada como política pública tal qual o mundo distópico de Laranja Mecânica nos mostra.
Por último, é interessante a abordagem do diálogo de um filme que já tem mais de 50 anos com a filosofia de Michel Foucault, também desenvolvida no século passado, contudo tão presente na atualidade. Aqui ficam alguns questionamentos. Será que vale a pena fazer da segurança um objetivo máximo a ser alcançado sem se importar com os custos que vem por trás de tudo isso? Será que estamos tão disciplinados pela normalização que já não conseguimos definir por conta própria as nossas vontades? São muitas as reflexões e poucas as respostas que esperam ansiosamente por alguém que as encontre, alguém fora do normal…

