Um verão qualquer

Pense em uma cidade de praia qualquer no Brasil, daquelas frequentadas somente durante a alta temporada do verão e nos feriados prolongados durante o ano. Casas disfuncionais: cinco quartos, todos com banheiro, cozinha e sala de estar-jantar em continuidade e, por fim, um espaço de convivência externo com churrasqueira, sauna e uma micropiscina. Não se esqueça do ar condicionado ligado ao longo de todo o dia (e sempre janelas e portas sempre esquecidas abertas, afinal, a conta de luz já está inclusa no pacote). Replique esse padrão arquitetônico de caixote às dezenas e terá a plena representação em sua imaginação dessa cidade, diferencie somente as casas que são pé na areia ou não, bloqueando a paisagem da beleza natural que é o motivo de todos estarem por ali: o infinito mar azul de águas quentes e tranquilas encontrado por toda a costa tupiniquim.

Um espaço urbano estranho ao cotidiano das grandes metrópoles. Tudo está preparado para receber o turista que passou o ano todo respirando o CO2 e borracha queimada dos pneus e, agora, está tendo àquelas merecidas férias de uma semana que ainda é repleta de ligações do escritório e respostas de e-mails (os quais poderiam esperar até a próxima semana, mas o workaholic não se aguenta). Uma farmácia, duas padarias, um mercado, um posto de saúde, uma capela que não tem missas aos domingos, lojas que vendem as mesmas coisas, bares e restaurantes aos montes e uma gelateria com sorvetes de nomes italianos que os frequentadores não conhecem o seu significado. Não se esqueça dos preços, sempre pelo menos o dobro do comum.

Agora pense em uma família do interior, classe média-alta em ascensão (com político recém inserido no toma lá, dá cá). É claro que ele pegou carona no carro oficial para trazer a família, nem se dando ao luxo de esconder a placa especial.

- Esse ano meu governo foi um sucesso! Não estou com nenhum processo acumulado, mereço minhas férias!!! Vamos estourar a Champagne que em trouxe e comemorar a nossa chegada!

          Beberam como não tinham bebido em anos, recordaram a juventude e foram dormir mais de duas da madrugada, já pensando no dia seguinte, que, por sinal, seria igual a todos os outros: café da manhã- protetor solar- caminhada na areia -cerveja+caipirinha- banho de mar – cerveja + caipirinha – piscina – cerveja + caipirinha – almoço – sesta – cerveja + caipirinha – passeio no pseudo-shopping – cerveja + caipirinha- churrasco – cerveja + caipirinha – cama.

          Em meio a esse cotidiano etílico-festivo, destaco o neto do político que também veio a essa viagem. Com apenas cinco anos, sendo o neto único, era muito paparicado por todos e não tinha o mínimo de proatividade por fazerem tudo por ele. Logo no segundo dia, durante o passeio entre as lojas de produtos superfaturados, o menino viu uma boia inflável em formato de baleia orca e gritou-chorou:

- Vovó! Vovó! Olha a baleia, compra pra mim! Compra pra mim!

- É claro queridinho, você anda fazendo tudo direitinho, você merece!

          A excitação do menino pelo novo brinquedo era descomunal, tiveram de logo abandonar o passeio e ir para casa para que ele pudesse começar logo a brincar com ela. Encheram-na de ar, colocaram na piscina e o garoto pulou na piscina de uma vez, mesmo não sabendo nadar direito. A mãe foi ao seu socorro e ficou brincando junto a ele até que a hora de jantar e dormir (às 20h para que desse sossego e a mãe pudesse beber o seu vinho rosé).

          A baleia ficou na piscina, esperando para ser apertada centenas de vezes no dia seguinte pelo menino

Nesse mesmo horário, escondido no fundo do condomínio de casas iguais, João estava assistindo seu desenho animado favorito na pequena casa quando seu pai chegou e o chamou para jantar. O pai de João era o zelador do condomínio, garantia que as portas ficasses fechadas, tratava a piscina, levava as cadeiras e guarda-sóis até a praia e buscava no fim do dia, e fazia todo tipo de serviço geral que fosse necessário. Já a mãe, era a cozinheira-arrumadeira de uma das casas do condomínio, servia os turistas de toda a forma, fazendo o café da manhã, a caipirinha, o aperitivo da praia, o almoço, a janta e a sobremesa para tudo isso, além de arrumar as camas, dar uma geral na casa e limpar o mijo respingado de homem bêbado do lavabo. A janta daquela noite eram as sobras do almoço do primeiro dia da família do político, logo, já bem mexido e remexido, mesmo que estivesse gostoso, João, da mesma idade do neto citado, mas muito mais esperto, sabia que aquele alimento já estivera bem melhor da primeira vez que fora servido fresco.

Já quase na hora de João dormir, por volta de 22h, seu pai o chamou para ajudar a colocar o produto de decantação na piscina, para que, no dia seguinte, seu trabalho fosse mais fácil. A família já estava para lá de Bagdá, em suas camas, quando João viu a Baleia boiando na água. Nunca tinha visto um brinquedo tão bonito! Ficou encantado! Mas, sabia, no fundo, que nunca teria um igual ou parecido, devia custar muito caro.

Assim, logo voltaram e foram dormir, para descansar e recomeçar a mesma rotina no dia seguinte. Os três dormiam na mesma cama, por ser uma habitação minúscula, aproximadamente do tamanho da cozinha de uma das casas do condomínio, que, na realidade, não é das grandiosas. Na cama, João só conseguia pensar na Baleia e como seria incrível brincar com ela sobre a água, imaginar que está no fundo do mar junto aos peixes, corais, lulas e polvos que ele só ouve falar ou sente um retrogosto no caldo que sua mãe traz toda terça-feira (dia de levar frutos do mar na praia para os turistas), mesmo morando a poucos passos do interminável oceano atlântico sul.

No meio da madrugada, João não se aguentou. Raciocinou que seria a única oportunidade de sua vida de nadar com uma baleia daquelas. Saiu de fininho para que seus pais não acordassem e lembrou que a porta dos fundos, que dava para a piscina, sempre ficava aberta. Ali ele se esbaldou, nadou por mais de meia hora com o brinquedo inflável, pensando que esse era um dos momentos mais legais que tinha experimentado. Até que ele apertou exageradamente na baleia sobre o canto pontudo da piscina e ela estourou.

Nesse instante lembrou das diversas coisas que seu pai se recusara a comprar, dizendo que não podiam gastar com supérfluos. Já imaginou que iria levar uma grande surra e que nunca mais iria poder sair de casa. Chorou muito. Depois, lembrou que se os turistas vissem aquilo, seu pai poderia perder o emprego, então foi correndo acordá-lo.

O pai acordou assustado e João não conseguia nem explicar o acontecido, só chorava.

- O que aconteceu filho?

- Eu que-quebrei o brinque-quedo- falou choramingando e puxou a mão do pai para ele ver o que tinha acontecido.

Chegando na cena do acontecido o pai viu e colocou as mãos na cabeça, desesperado, se contendo para não gritar, e acordar os hóspedes, e assustar seu filho que era ainda tão novinho.

- Foi sem querer pai!

- Eu sei filho, mas você não pode pegar as coisas dos outros sem pedir, ainda mais dessas pessoas desconhecidas e ricas. Esse brinquedo ainda deve ser muito caro…

          João chorou no colo de seu pai até adormecer, e ele colocou-o na cama para dormir. Assim, saiu de casa e ligou para seu amigo de infância, parceiro de tantas aventuras nessa praia, tantos futevôleis e ondas surfadas, que trabalhava na loja de brinquedos do pseudo-shopping. O amigo concordou em levar até ele mais uma baleia inflável da loja em troca do celular do pai de João, seu único bem de valor que poderia ser oferecido em troca.

          O pai, pensando em sua condição de vida, seu trabalho e no futuro de seu filho, inflou a baleia e colocou-a na piscina, e viu o quão discrepante era o cotidiano que ele levava em comparação com os inúmeros hóspedes que vinham de fora, quiçá de seu patrão.

João lembraria desse dia para o resto de sua vida. Em contrapartida, para a família do político, o dia seguinte foi apenas mais um dia da semana de férias, com as brincadeiras do neto com a baleia e a grande quantidade de álcool consumido pelos adultos.

Era apenas mais um verão comum em uma cidade do litoral brasileiro.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap