Na última vez que sonhei, foi um grande salto temporal: acompanhou a vida de um
homem que era perseguido por uma assombração desde sua adolescência. Foi exatamente
como um filme. No fim, o homem, já adulto, achava que estava livre; tomava um café numa
sala onde apenas a luz do dia iluminava o ambiente em algumas frestas e todos os móveis
eram de madeira. Consigo lembrar de detalhes como a poeira caindo, iluminada pelo sol. O
homem respirou fundo, aliviado. No entanto, tudo é temporário, principalmente a paz.
Quando o homem viu, dentro da xícara de café, o símbolo da assombração que o perseguia se formando na espuma marrom, acordei, sentindo o mesmo frio na espinha que o homem sentiu no meu sonho. Desde então espero por outro sonho como um filme, sem sucesso. Queria a chance de assistir outra vida que não a minha. De sentir o frio na espinha por outra pessoa que não fosse eu.
Já fazem anos que tive esse sonho. Desde então, não tive outros. Apenas durmo. Sinto o
vento que vem quando o trem se aproxima da estação. Mãos abertas. Sorriso. Respira fundo. O pânico começa a nascer no meu estômago e sobe pelas minhas veias no sentido contrário do sangue, até meu cérebro, pois podia jurar que vi do outro lado da plataforma alguém igualzinho ao O trem chega. Procuro o vagão mais entrável e deixo a multidão me encaixar lá dentro.
Estava no meio de uma aula quando acordei. Não lembro como cheguei ali. Olho ao
redor… não reconheço o professor, nem a matéria, nem as pessoas. Imediatamente procuro
meu celular. Quase não o reconheço, pois a foto no fundo de tela é diferente, mas o rachado
na tela é o mesmo. Em choque noto que é dia 10 de outubro: saltei, dois meses, no tempo.
Encaro o reflexo no espelho preto da tela do celular, mas me assusto com quem está me
olhando de volta. Era eu, claro, mas algo estava diferente, pela passagem do tempo. Decido
pegar minhas coisas e sair da sala, pois meu desespero transparece para os demais.
Ando em passos rápidos procurando um banheiro. Olho ao redor, olhos arregalados,
procurando alguém conhecido. Passo, veloz, pelas pessoas em contrafluxo. Um frio na
espinha repentino me assola, pois pude jurar que cruzei caminho com o Acho o banheiro,
finalmente. Sento no chão e me deixo surtar por um breve instante. O pânico borbulha no
meu estômago, mas abro as mãos, forço um sorriso e respiro fundo para mandar a mensagem ao meu cérebro que não estou em perigo imediato. Eu preciso me recompor e descobrir o que aconteceu. Levanto e encaro quem me encara no espelho. Algumas lembranças começam a voltar, mas são como cenas de um filme, tão distante, não as sinto. Sentir as memórias é algo tão simples e elementar, mas essas… essas não parece que fui eu quem vivi. Vejo-as, na minha cabeça, mas cobertas de névoa.
Vasculho meu celular em busca de qualquer resposta. Noto que, durante minha
ausência, continuei mandando mensagens para minha psicóloga, marcando consultas;
mantive contato com meus amigos mais próximos; paguei todos meus boletos e faturas, no
prazo. Fui mais responsável do que nunca. A única coisa fora do ordinário era uma
mensagem arquivada. Meu corpo gela e, desconfiada, abro.
É ele, tenho certeza que é ele. A eu do presente sabe disso. A eu do passado, que me
controlou inconscientemente, também sabia. O contato, salvo apenas com um ” . “, enviava
mensagens constantes. Em 10 de Agosto, enviara a seguinte mensagem: “Te vi na estação
hoje. Não ganho nem um oi?” “Depois de tudo que fiz por você?” “Depois de tudo que você
me fez passar?”. A eu inconsciente respondia apenas “Não quero conversar” “Não quero
contato”, como foi ensinada na terapia. Estabelecer limites, não sucumbir ao ódio. A verdade é que a eu do presente acha o ódio uma ótima ferramenta de cura. Então, sem pestanejar, apago a conversa e bloqueio o contato, sabendo que a retaliação virá, eventualmente. Fujo de lá, imediatamente, para casa.
Não sonhei. Dormi, sentindo por completo todo o vazio do preto, do breu, do meu
subconsciente. Senti todas as horas e todos os minutos, todos os segundos. Aqueles breves
segundos quando você acorda, abre os olhos e não entende perfeitamente onde está, que dia é, quem é você e quais as suas responsabilidades, tarefas, vontades, o que fez, o que irá fazer. Aqueles são meus únicos segundos de paz, conforto e felicidade. Liberdade plena e
verdadeira. Não há limites para o sofrimento, veja só, apenas para a felicidade. Limitada pelo simples abrir dos olhos…
São 05h01, logo, não há tempo para lamentações. Me levanto, me arrumo, como
usual… Gosto de observar o café subindo dentro da cafeteira italiana, borbulhando,
espumando. Me lembra da cachoeira que visitava, na infância… forço-me a parar de pensar. Ser prisioneira de memórias boas é o pior lugar para se estar. Mas é meio engraçado mesmo, não é? Como um lugar é um lugar ontem, hoje e amanhã. Como estar ou não estar em um lugar é tão relativo quanto o tempo ou qualquer outro tipo de baboseira científica. Estar sentada aqui, hoje, em minha própria casa, é tão diferente. A mente voa. Consigo sentir as lembranças como fantasmas ao meu redor. Tantas risadas, tanto amor, tanto ódio, rancor, dor, sofrimento. Vejo tudo em uma fração de segundos, em uma tragada de um cigarro. Vejo tudo ali, acontecendo, ao mesmo tempo, de uma vez só. Solto a fumaça e as lembranças sublimam junto dela. Bato as cinzas e os pensamentos queimados caem junto.
05h30. Sei que é hora de sair de casa, mas não consigo. Faz frio hoje em São Paulo e
congelei, encolhida, no lugar onde estou. Nada é capaz de me tirar da inércia. Imóvel, encaro a janela. Moro em uma casa baixa, onde a janela dá pra rua. Consigo ver as figuras
fantasmagóricas passando por ela, indo trabalhar. A temperatura amena de dentro de casa,
com todas as janelas fechadas, as fez embaçar, então as figuras tremulantes vão ficando cada vez mais fracas… Decido passar outro café para me aquecer. Dessa vez, fiquei tão imersa nos meus pensamentos que o deixei queimar. O som crepitante do café sendo derramado no fogão me tirou do transe. Despejo ele na caneca, mesmo assim.
Café queimado tem um péssimo sabor, mas decido não diluí-lo com açúcar. Sento onde
estava, congelada, observando a janela. O primeiro gole é o pior de todos, mas os seguintes
vão ficando mais fáceis de engolir. Nem parece mais defeituoso! Uma das figuras
fantasmagóricas para em frente a minha janela. Tomo mais um gole de café, porém, sinto esse parado no meu estômago. A figura se aproxima. Consigo distinguir os traços de seu rosto. É isso. Não tenho dúvidas. Com toda certeza, é o Corro para meu quarto e tranco a porta. Coloco algumas roupas e objetos em uma mochila, respiro bem fundo e destranco a porta. Fujo pelos fundos.
Essa noite, sonhei. Parada na frente de um espelho, vejo uma mancha vermelha no meu
pescoço. Apertando os olhos, percebo que a mancha tem o formato de uma mão. Meu
coração aperta. Levanto a camiseta, em desespero, apenas para ver mais mãos vermelhas: no meu peito, na minha cintura, na minha barriga. Todo meu corpo está coberto delas. Esfrego freneticamente. Preciso apagar elas. Mas é um esforço inútil Essas marcas estão impregnadas em algo muito mais profundo que derme e epiderme. Tentar apagá-las só me machuca mais.
Acordo num salto e meu primeiro reflexo é buscar um espelho. Procuro as mãos
vermelhas, mas elas ficaram apenas no meu sonho. Tento acalmar minha respiração ofegante e lembrar que estou segura. Abra as mãos, force um sorriso, respire bem fundo. Estou segura. Mas onde estou, realmente? Essas viagens no tempo me esgotam. Estou tão cansada disso que não quero saber mais quanto tempo se passou nem o que aconteceu. Só quero sair desse lugar.
As paredes dessa casa são de madeira, como o chão, como os móveis, mas assim que
abro a porta vejo-me em um lugar verde, ensolarado. Fecho a porta atrás de mim. Fecho os
olhos para sentir melhor o calor do sol na minha pele. A sensação da grama nos meus pés é algo que não sinto faz tanto tempo! Ando de olhos fechados, sentindo, apenas sentindo! Que outro sentido tem a vida, se não, estar no mundo, estar presente? Estive ausente por tanto tempo, palmilhando, vagarosamente, as ruas de São Paulo, esburacadas, mas aos meus pés não vi abrir nenhuma máquina do mundo como prometera Drummond! Ando até não sentir nada abaixo dos meus pés. Assustada, abro os olhos para apenas confirmar um terrível fato: estava de frente para um precipício.
Na linha tênue da vida e da morte lembro-me de tudo. Das noites sem dormir, do
pânico, da tristeza, do nojo e da culpa. O medo que alimentava o meu dia a dia. Vejam, a
assombração do homem do meu sonho seguiu-me do meu subconsciente para a realidade,
porém, tentava a todo tempo convencer que não era o que era. E era convincente, amado por todos ao seu redor. A assombração que passava-se de humana, me dizia: “Com você, posso ser quem sou de verdade”, e eu achava romântico. Me servia doses diárias de café queimado, que tem um péssimo, péssimo sabor. O primeiro gole deixou meu estômago embrulhado por dias. Vomitei, reclamei, contestei, mas sempre havia uma justificativa. “É o melhor que consigo, me desculpa, sou um lixo assim mesmo.”. Aprendi a não reclamar, portanto, para não a deixar mais mal. Tomava seus cafés queimados até não aguentar mais. A gastrite, a úlcera, doíam, mas só queria deixá-la feliz.
No começo, a assombração tinha figura humana. Um homem comum dentro de muitos.
Cabelo, nariz e sorriso distintos. Usava uma bolsa que carregava de lado, sempre. Mas
comigo ela podia ser quem era de verdade. Então, no final, tomou sua verdadeira forma
grotesca, um gigante meio humano, meio demônio. Apenas eu a via dessa forma. Assustada, tentei contar para as pessoas, pedir ajuda, mas ninguém acreditava em mim. Fui tida como louca e mentirosa.
A assombração retirou de mim meu eu. De formas inimagináveis reduziu-me a algo que
mal reconheço no espelho. Hoje, vivo, sabendo que jamais serei o que era. A assombração
continua me perseguindo: na estação, onde estudo e na minha própria casa, para lembrar-me que nada sou; lembro-me do dia em que ela pegou quem eu era, esmagou e engoliu e eu
assisti a tudo. Nada ser tem suas consequências, como o salto no tempo, a perda de memória, a perda do controle. Os dias que parecem todos o mesmo, enevoados.
De tudo isso me dou conta na frente do precipício. A sensação de fim é iminente e
choro, choro por minutos que pareceram horas até me dar conta de quão simples e idiota era a solução: apenas dar um passo para trás e aproveitar a vista. Quando eu era criança e descobri que o mundo era uma bola, achava que o horizonte era o fim do mundo. Mas é tudo tão mais amplo do que isso. Assistir a imensidão do mundo acalenta o peito, conforta, pois é lindo, tão lindo, que não há palavras. Estar diante de tanta beleza é querer mergulhar nela, para tentar pegar um pouco para si. Carregar a beleza do mundo, vasto mundo, em si!
Entendi, finalmente, entendi! Diante do precipício decidi buscar a verdadeira catarse.
Apenas catarse me libertaria das amarras do passado, da assombração. Será que me traria, de volta, meu eu? Dou um passo à frente. Uma bela borboleta amarela voa ao meu redor. Agarro ela e engulo inteira. Liberdade plena e verdadeira. Como a bela borboleta, aprendo a voar.
Sinto o breu, a escuridão, em cada minuto, cada hora, cada segundo do meu sono.
Aqueles breves segundos, quando você acorda, abre os olhos e não entende muito bem onde está, que dia é, quem é você… Me levanto, me arrumo, observo o café ficando pronto na cafeteira italiana. Às 05h30, em ponto, saio de casa, a caminho da estação. Sinto o vento que vem quando o trem se aproxima. Não há ninguém do outro lado da plataforma.

