Qual dos seguintes filmes é o melhor: “A Lista de Schindler” (1993), “Matrix” (1999) ou “A Viagem de Chihiro” (2001)? Ao mesmo tempo em que alguns podem ter uma resposta na ponta da língua, por conta de gostos pessoais ou conhecimentos técnicos, muitos encontrarão algo de errado nessa comparação.
Diante do desafio de se avaliar a qualidade de cada um em relação ao outro, uma resposta justa seria a de que são tipos diferentes de filmes. Em uma premiação, por exemplo, biografias e filmes de ação e animações tendem a não concorrer entre si em uma mesma categoria, por conta da distinção de suas características.
Em outras palavras, é possível dizer que os filmes mencionados pertencem a gêneros cinematográficos diferentes, de modo que procurar uma resposta ao questionamento inicial somente revela uma das funções mais óbvias de se agrupar obras de atributos semelhantes a partir de alguns critérios.
Mais do que permitirem comparações apropriadas, contudo, os gêneros servem para conferir previsibilidade, calibrar expectativas e, assim, influenciar decisões. E é exatamente por esses motivos que eles se consolidaram no senso-comum como algo elementar, cuja subsistência se aproxima da continuidade de uma tradição.
Nesse contexto, a crise a que se refere o título deste artigo não implica um movimento de extinção dos gêneros, que sempre terão alguma utilidade – nem que seja, no limite, apenas histórica. Na verdade, a questão é que as linhas de força da vida contemporânea têm colocado em xeque a importância da concepção de gênero cinematográfico no cotidiano.
Isso porque, em última análise, todas as finalidades dos gêneros cinematográficos pressupõem que eles sejam úteis aos espectadores, crença que a cada dia parece ser menos verdadeira. Afinal, boa sorte ao produtor que quiser antecipar o sucesso de um filme com base no seu gênero se o público nem reparar nesse detalhe!
Sim, é um detalhe. Até pouco tempo atrás, chamar assim soaria exagerado, porque escolher ao que assistir recorrentemente passava por saber qual o tipo de filme que se tinha em mãos – a uma, por praticidade; a duas, por ausência de subsídios melhores; e a três, pela menor preocupação com efeitos da escolha. Hoje, porém, o termo é oportuno.
Na ida a uma locadora, a organização dos filmes em corredores e prateleiras conforme o gênero funcionava como um ótimo guia para encontrar um título interessante entre tantos outros, que muitas vezes eram até revestidos capas genéricas. O que se lia atrás de cada caixa era determinante para decidir o que levar para casa.
Nessa mesma toada, para reduzir as chances de não gostar de um filme no cinema, nada mais funcional do que apostar naquele gênero que costuma agradar com mais frequência. Se o acaso levar a um arrependimento na saída, paciência: pelo menos se evitou a fadiga de perguntar sobre cada opção aos conhecidos que já viram alguma.
Na atualidade, de outro modo, as estantes físicas da Blockbuster se converteram na interface digital da Netflix, que permite encontrar facilmente o que se procura, bem como oferece sugestões personalizadas a quem não for tão decidido, com base nos algoritmos que aprendem com as preferências dos usuários.
Quem quiser, ainda pode usar os gêneros para filtrar resultados de busca, mas não há nenhum motivo especial para acreditar que eles sejam um critério superior a qualquer outro. É igualmente simples pesquisar pelas obras de um certo de diretor, estúdio, celebridade ou mesmo pelo que tem sido mais popular nos últimos dias.
Nos bastidores, é claro que os investimentos da indústria ainda se pautam em agradar a um ou a outro público. No entanto, a abundância de informações a respeito dos gostos da audiência permite que esses esforços sejam feitos sob medida, de maneira muito mais fundamentada do que pela confiança no apelo de um determinado gênero.
O maior exemplo disso talvez seja a profusão de obras que reúnem características normalmente atribuídas a gêneros distintos, ou que são tão moldadas às inclinações de um grupo de espectadores que originam uma infinidade subgêneros cada vez mais pormenorizados, a ponto de esvaziar o sentido dessas classificações.

Para seguir no paradigma da Netflix, sabe-se que a plataforma conta com dezenas de milhares de gêneros para organizar seu catálogo, e alguns como: “filmes alto-astral sobre amadurecimento”, “filmes sentimentais baseados em literatura clássica”, “filmes de época do século XX para românticos desiludidos” e “dramas belgas em idioma holandês”.
Por outro lado, a tentativa de adequar filmes mais recentes a um punhado de gêneros tradicionais pode levar a distorções de sentido. A categoria de “Melhor Comédia ou Musical” do Globo de Ouro tem sofrido com isso, vide a premiação de “Perdido em Marte” (2015), sucedida das indicações de “Corra” (2017) e “Green Book” (2018).
Amplos ou específicos demais, os gêneros perdem a razão-de-ser, ao menos nos moldes em que se acostumou a concebê-los. Dividir todas as produções em uma dúzia de categorias inevitavelmente aproximará obras que não se identificam em quase nada, e afastará outras que fariam sucesso com um mesmo público.
Paralelamente, também é muito fácil para o espectador moderno tomar uma decisão bem-informada sobre o que assistir. Enquanto os gêneros oferecem um vislumbre muito breve da feição de uma obra, sinopses, reviews, artigos, trailers, plataformas de avaliação e até bases de dados possibilitam obter muita informação em pouco tempo.
Em um rápido acesso a sites comoIMDb e Rotten Tomatoes (hyperlinks em abos), encontra-se quase tudo que se pode saber sobre um filme: recepção do público e da crítica; listas de profissionais envolvidos; dimensão do orçamento mobilizado; curiosidades; rumores*; teasers*; datas de lançamento; sinopses mais resumidas ou mais detalhadas.
Claro que nem o mais exigente dos cinéfilos precisa saber todas as minúcias de um filme antes de pagar pelo ingresso ou apertar o play, mas o que importa enxergar aqui é como a função informativa dos gêneros cinematográficos tem sua relevância extremamente mitigada pela disponibilidade de referenciais melhores.
A propósito, essa é uma situação tanto mais significativa quanto maior a escassez de tempo e de dinheiro necessários para assistir a um filme. À medida que as pessoas dispõem menos desses recursos, querem aproveitá-los da maneira mais eficiente possível, para não desperdiçar dos raros intervalos que se destinam ao entretenimento.
Gastar um minuto para conferir se um filme é bem avaliado equivale a pedir a opinião de centenas de milhares de pessoas sobre ele, o que pode poupar horas assistindo a um filme desagradável de comédia simplesmente por gostar de comédias no geral. Melhor seria assistir a um bom filme de ação, ainda que o gênero seja menos atraente.
Justiça seja feita, uma utilidade vestigial dessa classificação que não se pode ignorar reside nas decisões do que não assistir. Alguém que odeia filmes de terror, por exemplo, agradecerá qualquer indício que ajude a evitá-los, em que pese a desafiadora tarefa de distinguir alguns horrores de thrillers, suspenses ou dramas mais tensos.
Entretanto, outros dados também podem ser úteis nesse sentido. O espectador médio costuma rejeitar obras com um ritmo mais cadenciado, e o cinéfilo se afastar de filmes sem profundidade ou maior sofisticação técnica. Alguns fogem de filmes dublados, outros resistem a ver filmes em idiomas estrangeiros, e assim por diante.
Em resumo, a importância dos gêneros cinematográficos é, quando muito, marginal, e o passar dos anos tem contribuído para isso. Atualmente, no momento de escolher ao que assistir, existem vários outros elementos a serem levados em consideração antes de se verificar qual o gênero do filme.
Como consequência, a indústria está se movimentando para reagir à nova realidade. Agora, a previsibilidade vem da massa de informações sobre a audiência e as expectativas são calibradas por meio de grandes investimentos em publicidade e interações nas redes sociais. Já está claro que gêneros são superestimados.
Referências:
ALTMAN, Rick. Film/Genre. Londres: British Films Institute, 1999.
COWLING, Lauren. 26 Fairly Odd Subgenre Categories on Netflix. One Country. 13 Mar. 2017. Disponível em: [https://news.onecountry.com/entertainment/fairly-odd-subgenre-categories-on-netflix/] Acesso em: 29 Jun. 2021.

