“E como foi, Lúcia?”
A mais nova perguntou, sentada no vão da escada, balançando os pés.
“Ah. Não sei direito. Já faz tanto tempo”. A senhora segurava uma tigela acastanhada. Estudava o objeto com curiosidade, como se estivesse tentando enxergar qualquer coisa no meio daqueles veios de argila.
Após um instante de silêncio, contrariada com a inércia da sobrinha, continuou.
“Foi depois de um verão desses. Tudo seco. Era só poeira. O gado morrendo aos poucos. Coisa triste”.
Ana, com o olhar oblíquo, pensava naquelas palavras com uma doçura ignorante. Não
conhecera aqueles dias. Desde pequena, chovia pelo menos uma vez a cada inverno e a água descia do céu feito mar. Era como um presente. O chão encharcado, o cheiro de terra molhada e um punhado sem fim de bichos felizes correndo no chão – homens, lagartos e preás. Depois de alguns dias, chegava o tempo do verdume surgir, cobrindo os galhos nus e retorcidos das plantas, culminando no perfume doce da flor de tangerina e do amarílis.
Não mesmo. Jamais conheceu a seca.
“Sempre tinha sido difícil, mas nunca naquele tanto. Não tinha verde em lugar nenhum.
Primeiro, foi a vez de tudo que era bicho, nas fazendas e no mato. Depois, secaram as árvores, até as espinhentas caíram mortas. Por fim, até os bebês não acordavam mais. Nenhuma mãe tinha leite. Credo”.
Lúcia remexeu a cabeça, tentando ofuscar as lembranças que apareciam por detrás dos olhos úmidos. Desatenta, a tigela escapou de seus dedos e caiu no chão com um baque surdo.
Sem hesitar, Ana exclamou alguma coisa em tom de simpatia e correu para pegar vassoura e pá. Quando já estava quase terminando de recolher tudo, ouviu a tia voltar à conversa, quase num monólogo.
“Até que ele apareceu. Não era daqui, não mesmo. Tava perdido lá no meio do nada. Quase
morto”.
“Ele quem, tia?”
“Eu falei pra sua mãe se aquietar. Ela sempre foi assim, né?” O rosto parecia perdido no
horizonte, mas seus olhos voltaram a se ensimesmar em contemplação de dias passados.
“A gente estava racionando. Guardando tudo que dava. Eu tinha um lugar lá embaixo onde
costumávamos enterrar os potes com água para o verão”.
Ana terminou de limpar o chão e voltou a ouvir o conto da tia. Precaveu-se para não falar nada. Não queria quebrar a fala dela. Precisava absorver cada palavra.
“Mas quando ele chegou, eu vi no rosto dela. Estava perdida. Eu disse pra deixar os potes lá
embaixo. A seca não daria trégua, mas ela não me ouviu. Ela nunca me ouviu, Ana”.
De repente, a sobrinha deparou-se com o rosto marejado da tia. Não parecia ser de dor, mas de saudade. Um misto de respeito e censura que a senhora nutria pela mãe de Ana.
“Pouco depois eles se engraçaram. Eu não conseguia acreditar. Não tinha mais água. Ela deu o último gole para ele, mas ainda assim os dois estavam tão sorridentes. O mundo podia acabar em brasa e eles não se soltariam”.
O vento soprava por perto e chacoalhava as folhas secas no chão. Acima, um rebanho de nuvens seguia para leste, trazendo consigo o escuro da noite.
“Antes de os dois sumirem, ela me abraçou bem forte. Disse que voltaria logo. Que era pra eu ficar esperta. Sempre sorria. Ele, distante, apenas me encarava com os olhos faiscantes. Não parecia ser desse mundo”.
Ana segurava a respiração para fazer o mínimo de barulho possível. Se pudesse, anularia sua presença totalmente, seria apenas um par de ouvidos e olhos, respirando o relato de sua tia.
“Não sei como aguentei aqueles meses que se seguiram. Até que, numa noite, o céu todo
desabou com chuva. Os trovões eram altos demais e a noite ficou em claro com tantos raios. Ninguém esperava. O povo todo foi pra dentro da igrejinha com medo do fim do mundo”.
Após um momento de hesitação, continuou.
“Foi a noite em que sua mãe te deixou comigo, Ana. Disse que você não conseguiria ficar com ela por enquanto. Algo sobre o ar lá do alto ser muito diferente daqui. Mas ela vem te buscar. Sei que vem”, terminou enquanto fazia um gracejo nos cabelos da menina.
Ana, sem saber como reagir, apenas passou a encarar a paisagem em busca de alguma nuvem cinzenta. Soltou um suspiro esperançoso ao perceber um trovão ao longe.

