No topo da torre, de cima da cidade; tudo fica tão longe, tão perto, tão belo…
Vê, Romeu? que nada somos… Contigo o tempo tá parado e lá embaixo, como é lindo!
o movimento da cidade. Indo e vindo, andando e parando, hipnoticamente, sem parar…
O mundo nunca para de girar. Tão pouco importa nossa passageira presença.
As engrenagens da máquina do mundo nunca vão parar de funcionar.
Ouça bem meu coração, Romeu, enquanto há tempo: Amo-te, quero-te, desejo-te!
Mas tanto me agonia! querer e não poder ter…
Você é como uma aranha em meu cérebro, andando nas teias dos meus neurônios
Quando fecho meus olhos, no escuro, no breu, tu és tudo que vejo!
Quando plantou em meu cérebro a tua semente, Romeu?
Leve-a, não a quero, a semeie em outro lugar! Aqui não é fértil a terra para morar.
Quero ser livre, Romeu, entende? que nessa vida estamos presos
na teia cruel do destino,
no tênue fio do tempo…
No topo da torre, de cima da cidade: Vê, Romeu, que nada somos?
“Até que a morte os separe”, dizem-nos, mas como?
Quando as mesmas moscas nos pousam e as mesmas larvas nos devoram.
Quando o mesmo solo é nosso leito e nossos fluidos, nele, fundem-se.
Quando nele sobram apenas: os cabelos, um punhado de ossos e as almas mui cansadas!
Amo-te, amo-te mais do que tudo
do meu sepulcro pro teu sepulcro!
Iguais em eterno silêncio, felizes no eterno escuro!
Até que a morte os separe, dizem-nos. Mas como estar mais unido?
Vê, Romeu, como na morte, pulsa vida
Como na mais pura química há poesia!
E no frio mármore de minha lápide se lia:
Que o inorgânico solo engula a orgânica má sorte
De quem não pôde ter em vida o amor
e foi buscá-lo no beijo sereno da Morte.

