OS OLHOS IGNORAM, O CORAÇÃO NÃO SENTE

Vestido vermelho com bolinhas brancas. Brincos de pérola. Sapatilhas pretas. Colar
de crucifixo. O Carnaval tinha chegado, e Ana estava perfeita. A avenida de tijolos
beges deixava o céu azul vibrante e sua pele ainda mais clara. As mechas loiras caíam
em seus ombros suavemente, similar às fitas coloridas nas paredes.
Do outro lado da calçada, Drauzio esperava. A gravata borboleta e o longo bigode
arrebitado faziam dele o par perfeito, até mesmo suas roupas combinavam com as da
moça.
Com cumprimentos envergonhados, risos abafados e braços entrelaçados, o jovem
casal começava a perambular pela festa. Ele adorou as máscaras gregas, ela também,
mas preferiu as fantasias egípcias. Ambos concordaram que os fogos de artifício
foram a parte mais extraordinária.
”Drauzio, a igreja de São Francisco de Assis!”
”Você quer entrar?”
E assim os pombinhos ajoelharam-se lado a lado, rezaram pelos menos favorecidos,
admiraram as belas estátuas, doaram quantias generosas e foram embora. Na saída,
a noite já caía, as luminárias estavam acesas e a rua completamente vazia. De dentro
de um restaurante, a música ainda soava baixinho, a Canção do Mar. Drauzio
envolveu a cintura de Ana e a puxou para dançar. Aquela era uma de suas melodias
favoritas.
Dois passos para direita, dois para a esquerda e um giro. Dois passos para trás e dois
para frente. Ir para a esquerda e ….
“Ai!”
“O que foi, querida?”
“Você esbarrou no meu pé.”
“Não esbarrei.”
“Esbarrou!!”
“Como quiser, esbarrei então. Me desculpe.”
Ir para a esquerda, Drauzio tinha certeza de que não tinha esbarrado, ir para a
direita, ela devia ter tropeçado nos próprios pés, um giro e depois outro.
“AI! De novo!”
“O que foi agora?”
“Você machucou o meu pé!”
“Ana, meu bem, se você quiser parar de dançar é só me dizer, não precisa disso!”
“A culpa não é minha se você é um desastrado. Olha, até o salto da minha sapatilha
quebrou!”
Virando-se para onde a mulher apontava, ele viu um pedaço preto solto. Ele tinha
certeza de que não havia chegado nem perto de pisar naquilo, as sapatilhas deveriam
ser realmente baratas para se desmantelarem tão facilmente. Ainda assim, com todo
seu cavalheirismo, ele se abaixou para pegar o troço.
“DRAUZIO!”
“O que foi agora, Ana? Eu esbarrei magicamente no seu pé de ….”
“Tem alguma coisa ali!”
“Onde?
“Perto do meu salto”, “Se mexeu!”, ela olhava para algo alguns centímetros mais à
frente da calçada, onde a luz das luminárias do outro lado da rua quase não
iluminavam.
Apesar da penumbra, ambos se aproximaram da coisa com ar curioso. O peito subia
e descia, baba escorria pelo canto da boca e havia sujeira incrustada por todo o corpo.
Parecia viva, ainda que desnutrida e sangrando. O que arranhou os pés de Ana podia
muito bem serem as garras daquilo. Drauzio analisava a mulher. Esticando o torso
para frente, ela franzia o rosto por conta do cheiro fétido.
“O que a gente faz?”, disse, com a voz doce falhando. Seu rostinho ficou ainda mais
bonito assustado.
“Calma, querida, uma boa cola e um bom sapateiro conseguem dar jeito nos seus
sapatos, eu mesmo conheço um ótimo.”
“Drauzio, o que a gente faz agora com… com…com isso! E eu mesma posso consertar
o meu salto!”
“Com isso? Bom, nada”. Consertar os próprios saltos?
“Nada? Mas acho que fui eu quem machucou ela!”, “A gente devia procurar por
ajuda…”, sussurrou, enquanto pressionava os braços em volta de si mesma e
observava o amontoado de carne.
“Ajuda? Você quer que achem que foi a gente quem fez isso? Essa coisa já estava
assim muito antes de você tropeçar nela”. Que tipo de pessoa conserta os próprios
sapatos? Comprar um novo, sim, ou levar ao sapateiro, mas consertar?
Ana o olhou feio enquanto se abaixava. Colocando as madeixas de lado, ela inclinou a
cabeça em direção à criatura, como se quisesse ouvir algo.
“Sai de perto disso.” Drauzio a puxou apressadamente para longe, quase derrubando
os dois no chão.
“Você é surdo? Ele balbuciou algo! Ou tentou, antes de você me arrastar como um
brutamontes.”
“Essa coisa é perigosa, Ana. Você deveria me agrade…”.
Um som agudo brotou da garganta da mulher antes que a frase pudesse ser
terminada. Ela havia se jogado para trás. O crucifixo balançava no mesmo ritmo da
respiração apressada, lágrimas de nojo começavam a se acumular nos olhos e os
cantos da boca tremiam sem conseguir emitir qualquer som. A criatura tentara
agarrar seu pé. As mãos pútridas ainda tateavam o chão em busca de algo.
Drauzio apressou-se em sua direção. Pegando-a no colo, ele a ninava como uma
criança. Sua expressão carregava o mais puro desprezo enquanto se apressava para
longe daquele ser, para a calçada iluminada.
Sem se dar conta do porquê, ele viu a moça gritar em histeria novamente, seu braço
apontava para todas as direções do lado oposto, suas pupilas dançavam pela rua.
Somente quando ela fixou o olhar em determinado beco, ele entendeu. Não havia
uma criatura, mas sim uma miríade delas. Seus milhares membros e restos
mostravam-se em partes quando o pouco de luz as alcançava.
Em meio a confusão, Drauzio, atordoado, compreendeu que Ana ainda não sabia e
nem tinha adotado o significado do símbolo que carregava no colar. A comoção
exacerbada vinha de sua ignorância. Apoiando a mulher no chão, ele a encarou e

segurou seu pequeno rosto, agora completamente inchado e desmantelado, com
ambas as mãos.
“Meu bem, fique tranquila. Não há nada com o que se preocupar.”
Esperando a mulher se acalmar minimamente, ele a levantou, segurou sua cintura,
ergueu seu queixo e voltou a dançar. Dançaram até a próxima rua, quando o
restaurante finalmente fechou e a música cessou. Confiantemente, ele segurou a mão
dela e assim caminharam até a casa de Ana. Em frente à porta, conversaram e
combinaram que se veriam no próximo domingo.
“Até mais, querida. E lembre-se, o que os olhos ignoram, o coração não sente.
Sempre foi assim.’’
Durante a caminhada para casa, Drauzio enrolava os bigodes e pensava sobre
domingo, seus olhos sempre admirando as estrelas.

Share via
Copy link
Powered by Social Snap