12 ANOS – As laranjas
Em uma cozinha pequena e azul, Pedro descascava laranjas-baía após o almoço de segunda-feira. A faca, recém afiada e com cabo de madeira, grudava nas mãos meladas de caldo doce. Seus dedos podiam ser tortos, fracos, mas ele se orgulhava de descascar tão bem.
‘’Você tá fazendo errado, filho’’, disse Antônio, que também lidava com laranjas e fazia belos aspirais com as cascas que saíam da fruta.
‘’Não tô não, tá saindo certinho’’. As do menino caíam em pequenos pedaços, amontoando-se na mesa.
‘’Tá errado sim, pode te machucar’’
‘’Não vai, já peguei o jeito’’
Enquanto Antônio franzia os cenhos, preocupado, Pedro mordia o canto da boca, alheio ao seu redor. Ele estava completamente extasiado com a tarefa, sua atenção voltada em tirar todos os mínimos pedacinhos.
‘’Pedro, não. Descasca que nem eu’’
‘’Hm..’’
‘’Tá errado’’ esbravejou Antonio, enquanto pegava bruscamente a fruta das mãos do filho, quase o cortando com a faca que segurava.
‘’Minha laran…Errado por que?’’
‘’Porque o jeito certo é outro, esse vai te machucar!’’
‘’Mas do meu jeito funciona, e fica gostosa igual de comer!’’
‘’Pedro, escuta seu pai, é só cortar diferente’’. A mãe, com a voz cansada, parara de lavar a louça e tentava amenizar os tons de voz que subiam. Esperava evitar que outra briga começasse naquele dia.
‘’Mas…’’
Sem a chance de terminar o porquê de seu jeito também ser bom, o porquê de o modo que seu pai queria que ele fizesse machucava suas mãos, o menino foi interrompido.
‘’Pedro Marques, seu avô descascava assim, eu descasco assim, é o jeito certo. Agora lava essas mãos sujas e vai pro seu quarto, por favor”.
…
Pedro segurava o choro, mas as lágrimas teimosas escorriam sem parar. Aninhado ao travesseiro e coberto desde a ponta dos pés até o topo da cabeça, ele tremia. As paredes de seu quarto eram as testemunhas mais cruéis, assistiam à dor quietas, enquanto uma tempestade passava-se ao lado. O menino mordia seus dedos. O sabor do sangue impregnava sua boca.
Mãos sujas, dissera seu pai. Mãos que não funcionavam, de uma sujeira encardida. Seus dedos nunca ficariam limpos, não importava o quanto ele os lavasse, o quanto tentasse fazer com que funcionassem. Ele nunca seria igual as outras crianças, nunca conseguiria jogar a bola do jeito certo, escrever na lousa com giz, fazer passarinhos de papel… Ele não conseguia nem descascar laranjas.
Ele era uma aberração.
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17 ANOS – A festa
Há duas horas Pedro estava sentado naquele sofá. Suas mãos dentro dos bolsos, como sempre. Não que as pessoas que estavam ali não as vissem durante as aulas, mas ele escondia o máximo possível. Aquela era sua primeira vez em uma festa. Os som alto, as vozes incessantes e o cheiro constante de fumaça, tudo aquilo era tão estranho e novo. Ele mal acreditou quando fora convidado, ainda mais por…
‘’Pedro?’’ gritou Camilla, interrompendo seu devaneio,
‘’Você vai ficar aí pensando na morte da bezerra a festa toda? Vem jogar Verdade ou Desafio com a gente’’.
E ele foi. Realmente não tinha interagido muito até agora, não sabia como. Ao sentar-se na rodinha de pessoas no meio da cozinha, observou que metade estava completamente bêbada, a outra, ele nem sequer saberia descrever. O jogo começava.
Surgiram beijos roubados, pessoas nuas, declarações de traição, litros de cerveja bebidos de uma vez e confissões hilariantes, era como se uma realidade alternativa e intocável tivesse surgido ali. Tudo era inebriante, quase mágico.
Até que a garrafa parou nele.
‘’Verdade ou desafio, Pedro?’’
‘’Hm, verdade, eu acho’’
‘’É verdade que você gosta da Helena?’’
Nesse momento, sem saber como reagir e sentindo as bochechas corarem, Pedro recorreu a única saída que viera em sua cabeça.
‘’ Desafio, pensando bem, eu quero desafio’’
‘’Tá….calma’’,
‘’Já sei! Duvido você deixar a gente ver suas mãos de perto. E se você não quiser, vai ter que pular na piscina pelado’’
Burburinhos começaram a soar de todos os lados, Camilla sempre quisera ver, Lucas nunca tinha reparado direito, Ana Luisa já esticava a cabeça, Renan fazia imitações…
Pedro não queria, não achava que conseguiria, seu corpo congelara, ele desesperava-se para sair dali, a magia tinha acabado.
Mas Helena o abraçou por trás, disse que seria rápido, que não era nada demais, que mesmo ela só queria ver por curiosidade, sem pressão. Ela estava tão perto que ele sentia seu perfume de morango, a respiração em seu pescoço, os lábios próximos de sua orelha. Sem sequer perceber, a menina puxara suas mãos para fora dos bolsos.
‘’Nossa, elas são estranhas mesmo…’’ – disse aquela voz suave.
Então vieram as imitações. Os olhares de nojo. As risadas. Os comentários.
Pedro tinha certeza, ele era uma aberração.
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22 ANOS – A terapia
‘’Vamos continuar de onde a gente parou semana passada. Você falou sobre a festa, você acha que foi ali que os sinais de depressão começaram?’’
O cômodo era sufocante, além de pequeno, tinha o exato tom azul da cozinha da casa dos pais. A poltrona era desconfortável, pinicava as partes expostas do braço. O relógio irritava os ouvidos com os tics infindáveis. Ele odiava aquele lugar, odiava precisar estar ali. O silêncio recorrente que se formava, ter que responder aquelas perguntas de novo e de novo, tudo era excruciante.
‘’Não. Eles já existiam há alguns anos, mas meus pais nunca deram muita atenção. Depois da festa as coisas só pioraram muito, foi pouco depois que eu comecei a medicação’’.
Anotações, anotações. Sempre havia algo a mais para ser escrito naquele caderninho. Pedro sentia-se como um rato de laboratório em observação, ainda mais quando as sessões ainda eram novas.
‘’E os remédios ajudaram você a parar de morder as mãos? Você se lembra quando voltou com o hábito?’’
‘’Eu nunca parei. Às vezes menos, às vezes mais, mas nunca parei’’
‘’ Certo. Você disse que morde todas as vezes que se sente… bom, você usou a palavra aberração. Pode me dizer quando foi a última vez que você se mordeu?’’
A mesma pergunta, todas as vezes.
‘’A última vez foi antes de vir pra cá’’
23 ANOS – O precipício
Naquele momento, Pedro voava. Não existiam laranjas mal descascadas, olhares de esguelha, piadas ou imitações. Seus braços, pernas e mãos, tudo transformara-se em asas. O vento em seu rosto, a vista deslumbrante, a liberdade. Pedro voava.

