A conspiração republicana

Yasmin Babadobulos | Gazeta Arcadas

Três anos atrás, em El Paso, no Texas, 22 pessoas foram mortas em um supermercado em uma tentativa de conter a “invasão hispânica”. Inspirado por esse ataque, semana passada, outro supremacista branco abriu fogo em um mercado de Buffalo, na zona rural de Nova York, e matou 10 pessoas.

Ambos os autores dos ataques deixaram manifestos que partiam da premissa de que a violência seria justificada por prevenir o “genocídio branco” e a “substituição”, tese que se tornou um motor de terror racista e ajudou a inspirar uma onda de tiroteios em massa nos últimos anos. Dentre eles, o ataque de 2015 em uma igreja de Charleston, na Carolina do Sul; o ataque de 2017 em Charlottesville, na Virginia; o tiroteio de 2018 a uma sinagoga em Pittsburgh; o ataque de 2019 dentro de um mercado em El Paso, no Texas; e o ataque desta semana a um mercado em Buffalo, em Nova York. Esses eventos não são fatos isolados, mas sintomas da escalada supremacista.

A democracia americana foi construída sobre uma promessa de igualdade cívica, e os principais conflitos políticos da história americana aconteceram sob a égide dessa promessa. A teoria da conspiração do “genocídio branco” ou “Grande Substituição” se baseia no princípio de que a igualdade cívica deve ser mantida àqueles a quem a promessa foi originalmente anunciada. Frente a isso, a violência é justificada à sombra da manutenção da “nação americana”

Se outrora a teoria da substituição esteve confinada aos cantos mais obscuros do Reddit e do 4chan, hoje, ela vem se cristalizando de maneira institucional. Em especial, o temor de que a população estadunidense um dia não tenha maioria branca foi incorporado de modo patente pelos republicanos e passou a ser ecoado em palanques.

Recentemente, a Fox News abraçou a ideia e, conscientemente, passou a amplificá-la. Não à toa, Tucker Carlson fez da mudança demográfica um tema central de seu programa desde que ingressou na programação do horário nobre da Fox em 2016, e em mais de 400 episódios defendeu que políticos democratas e outras elites variadas querem forçar mudanças demográficas por meio da imigração. “Os democratas querem substituir vocês, os verdadeiros cidadãos americanos, por cidadãos recém-anistiados e por um número cada vez maior de imigrantes em cadeia.” Carlson vem sendo tido como uma figura à frente da disseminação da tese de que os americanos estão sendo vítimas do “grande genocídio” ou substituídos pelos imigrantes.

Hoje, um a cada três adultos americanos acredita que há um projeto em andamento para substituir os americanos nativos por imigrantes para obter capital político, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Associated Press. Foi, inclusive, o que disse o senador Ron Johnson em uma aparição na Fox Business: “Esta administração quer fronteiras abertas completas. E você tem que se perguntar, por quê? Será que eles realmente querem refazer a demografia da América para garantir que permaneçam no poder para sempre?”

Notadamente, a expansão da ideologia da Grande Substituição é uma ameaça particular à democracia. A teoria da substituição postula tanto uma concepção racial de cidadania quanto uma hierarquia racial, que deve ser preservada à vista da manutenção da verdadeira natureza da sociedade americana.

Enquanto esteve à frente do governo americano, Trump enunciou uma retórica inflamatória sobre os imigrantes, e explicitamente empregou o termo invasores. Isso ecoou ainda mais a tese de substituição e expandiu sua linguagem, de tal forma que representantes republicanos passaram a adotá-la de modo ainda mais axiomático. A título de exemplo, Wendy Rogers, senadora pelo Arizona, entoou que “estamos senso substituídos e invadidos” por imigrantes ilegais.

Outrossim, congressistas republicanos já reverberaram a teoria da substituição. Elise Stefanik, liderança republicana, publicou um anúncio no Facebook alegando que Joe Biden, Kamala Harris e Nancy Pelosi estavam conspirando para “inundar nossos papéis de cidadãos com 11 milhões de novos eleitores, dando anistia aos imigrantes ilegais.” Scott Perry enunciou que “estamos substituindo americanos nascidos nativos e americanos nativos para transformar permanentemente a paisagem desta mesma nação.”

Foi diante desse cenário que o Integrity First for America, grupo que abriu um processo civil bem-sucedido contra os organizadores de Charlottesville em 2017, argumentou que esse é o resultado inevitável da promoção mais ampla da retórica de substituição, apoiada por autoridades republicanas eleitas e outros líderes ansiosos para amplificar essa conspiração em palanques.

Agora, a teoria da grande substituição faz parte do mainstream republicano, e vem sendo cada vez mais abraçada por setores da sociedade estadunidense sublinhados por uma cepa patente de paranoia.

REFERÊNCIAS

[1] https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2022/05/buffalo-shooting-republican-great-replacement/629903/

[2] https://www.nytimes.com/2022/05/15/us/replacement-theory-shooting-tucker-carlson.html

[3] https://www.nytimes.com/2022/05/16/us/politics/republicans-great-replacement.html

[4] https://www.vox.com/23076952/replacement-theory-white-supremacist-violence

[5] https://www.estadao.com.br/internacional/quem-e-renaud-camus-e-o-que-diz-sua-polemica-teoria-racista-da-grande-substituicao/

[6] https://www.estadao.com.br/internacional/a-direita-transforma-os-eua-em-uma-arma-apontada-para-si-mesmos-leia-analise/

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