Um Walt Disney no reino de tão-tão distante

Descrição para cegos: Sobre um fundo cinza escuro há uma colagem de imagens. Em segundo plano há uma montanha russa em roxo e preto e duas imagens de discos voadores, uma em roxo e preto e a outra em rosa e preto. Em primeiro plano, há uma imagem de José Vasconcellos em preto e branco, com orelhas de Mickey Mouse desenhadas sobre sua cabeça e, atrás dele, o desenho de uma explosão amarela. Dos dois lados de Vasconcellos há dinossauros em rosa e azul. Escrito sobre os trilhos da montanha russa em azul neon há as frases: “Alegria a toda hora, o ano inteiro, para sempre” e “Maior centro de diversão e turismo do mundo”. No topo, há o título: “Um Walt Disney no reino de tão-tão distante”.

José Vasconcellos é o nome conhecido por ter sido a principal estrela do humor nacional na década de 60. Lotando teatros, foi o primeiro one man show do Brasil e o responsável pela introdução do stand-up no país. Mais do que isso, Vasconcellos também planejou importar para cá os parques temáticos – uma fórmula triunfal do entretenimento nos Estados Unidos, que, no entanto, custou a prosperar em solo tupiniquim.

A Vasconcelândia foi apresentada aos acionistas como “o maior centro de diversões e turismo do mundo”. Idealmente, seria a Disneylândia brasileira em Guarulhos, em um terreno de milhões de metros quadrados, com atrações que iam de cápsulas espaciais e naves extraterrestres a rinques de patinação e museu de cera. O anúncio publicitário menciona ainda roteiros “da pré-história ao ano 3.000” e “restaurantes de todos os países.”

Vasconcellos aproveitou o surgimento da Bolsa de Valores de São Paulo para vender títulos e ações do seu projeto no mercado de balcão. “Alegria a toda hora, o ano inteiro, para sempre? E dá muito lucro” e “cada ação da Vasconcelândia é uma máquina registradora trabalhando dia e noite para você” eram apenas alguns dos slogans utilizados para atrair potenciais investidores e vender cédulas associativas. Em 1968, a Força Aérea Brasileira chegou a doar para o parque o primeiro avião de caça do Brasil, o Gloster Meteor, de fabricação inglesa. Hoje, não se sabe onde esse avião foi parar.

Capitalizado com seu sucesso Brasil afora, o humorista alavancou o início das obras e a terraplanagem da área em Guarulhos. No entanto, entre 1973 e 1974, a crise fez com que houvesse uma derrocada na venda de ações, de tal forma que o apoio de investidores se tornou ainda mais escasso. Vasconcellos tentou de todas as formas erguer seu parque sem recursos oficiais, mas, infelizmente, a Vasconcelândia era um grande sorvedouro de dinheiro. A partir daí, o sonho da Disneylândia em Guarulhos passou a ser um clube médio com piscinas, chalés e pedalinhos. Jô Soares conta, em seu livro: “Zé praticamente faliu com o empreendimento. Um dia, levou o [Otello] Zeloni para visitar as obras; na volta o italiano me disse: — Gordo, só tem uma roda-gigante e uma bica d’água.”

Enquanto Vasconcellos via a decadência de seu sonho, do lado oposto, outro humorista começava a colocá-lo em prática. Beto Carrero incorporou a ânsia por importar ao Brasil os parques temáticos: comprou um terreno em uma cidade catarinense e iniciou, com alguns brinquedos infantis e duas lonas de circo, o que se tornaria o maior parque de diversões da América Latina. Ao contrário da Vasconcelândia, o Beto Carrero se tornou foco do entretenimento e lazer, de modo a atrair investidores e mão de obra. Diga-se de passagem, Beto Carrero nunca recebeu apoio ou incentivos governamentais para implantar o parque.

Na virada do século, ainda, a área da Vasconcelândia foi comprada por uma indústria alimentícia, mas a obra acabou embargada e o resto do parque, deteriorado. Da Vasconcelândia, sobraram apenas ruínas perdidas no meio da zona rural de Guarulhos, sobre as quais foram lançadas as cinzas de José Vasconcellos em 2011.

A região da Vasconcelândia tem 33 nascentes, e seus rios são de tal forma cristalinos a ponto de causar descrença sobre o fato de estarem situados na segunda cidade mais populosa do Estado. É o que diz, inclusive, o folder de divulgação da Vasconcelândia: “uma iniciativa (…) numa região de natureza privilegiada, com montanhas, lagos, riachos, nascentes e matas.” Hoje, ao lado do que um dia foi o sonho de uma Disneylândia guarulhense, opera uma fábrica da Ambev (“Águas da Serra”), que se vale da riqueza natural dos arredores.

Historicamente, a região já foi palco de outros empreendimentos tão ambiciosos quanto o de Vasconcellos. A cidade de Guarulhos teve, inclusive, uma corrida pelo ouro, que antecedeu em pelo menos um século o ciclo mineiro e teve como um de seus pólos principais a área projetada para a Vasconcelândia. Apesar disso, a região não transmitiu à Disneylândia brasileira o legado de sua fortuna.

Referências

“Hoje só as saúvas frequentam a 1ª ‘Disneylândia brasileira’, em Guarulhos.” Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/03/27/hoje-so-as-sauvas-frequentam-a-primeira-disneylandia-brasileira.htm [Acesso em 16 de abril de 2022]

“Quando Zé Vasconcellos quase foi o nosso Walt Disney.” Disponível em: https://popfantasma.com.br/quando-ze-vasconcelos-quase-foi-o-nosso-walt-disney/ [Acesso em 16 de abril de 2022]

“Vasconcelândia é exemplo de fracasso.” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi160605.htm [Acesso em 16 de abril de 2022]

“Isto é a Vasconcelândia.” Disponível em: https://saopauloantiga.com.br/isto-e-a-vasconcelandia/ [Acesso em 16 de abril de 2022]

“Guarulhos viveu ciclo do ouro cem anos antes de Minas Gerais.” Disponível em: http://especial.folha.uol.com.br/2016/morar/osasco-abcd-guarulhos/2016/03/1748978-guarulhos-viveu-ciclo-do-ouro-cem-anos-antes-de-minas-gerais.shtml [Acesso em 16 de abril de 2022]

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