O moço da estátua

Quem visitar o prédio novo (que já possui 80 anos e virou simplesmente “prédio”) de nossa Gloriosa, poderá notar um alto monumento, medindo dois metros e vinte centímetros, com uma figura masculina. Esse homem, feito de bronze, encontra-se segurando um livro e uma pena, enquanto gesticula, desde 1890. Atos esses que parecem simbolizar bem pelo que ficou marcado aquele cidadão, José Bonifácio de Andrada e Silva, “o Moço”: estudante, professor, orador.

Nascido em 1827 (o ano das Arcadas!), na França, o Moço recebeu esse apelido por ter um homônimo muito famoso, José Bonifácio de Andrada e Silva, “o Patriarca da Independência”. Contudo, nosso protagonista não recebeu o mesmo nome que o célebre apoiador de D. Pedro I por coincidência: eram parentes! Para sermos honestos, eram parentes em dose dupla: o Moço era filho de Gabriela Frederica, filha do Patriarca da Independência, com Martim Francisco, irmão do “velho” Bonifácio. Isso faz de nosso protagonista sobrinho-e-neto de uma das principais figuras históricas brasileiras; o que, sem dúvidas, deve ter-lhe aberto algumas portas.

Tendo realizado boa parte de seu estudo regular na Escola Militar da Corte, o Moço ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo - nossa Sanfran - em 1849, formando-se bacharel e doutor (o que ainda era possível na época) em 1853. Estando formado, teve carreira meteórica. Foi professor de direito da FD (titular das cadeiras de Direito Criminal e de Direito Civil), deputado provincial, deputado geral, senador do Império, ministro da Marinha, patrono da cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, e ainda teve tempo para negar um convite de D. Pedro II para Presidente do Conselho de Ministros, em 1883. Ficou conhecido em todo o Brasil por sua oratória perfeita, envolvente e convincente.

Antigo monumento do Moço, com mais de sete metros. Créditos: Sebastião de Assis Ferreira.

Enquanto professor nas Arcadas, o Moço teve como alunos (sendo inclusive referência para alguns deles durante toda a vida) algumas figuras também célebres. Rui Barbosa - que discursou em sua morte, Castro Alves, Joaquim Nabuco, Rodrigues Alves e Afonso Pena foram apenas alguns dos grandes nomes que aprenderam, nas cadeiras onde sentamos, sobre o Direito Civil e Penal ensinado pelo Prof. Dr. José Bonifácio (ou seria Prof. Moço?). O que fez com que, em 1890, apenas quatro anos após seu falecimento, um monumento fosse erguido em frente ao Convento de São Francisco e de São Domingos.

Contudo, a história dessa homenagem ainda não terminou. Quem leu com atenção percebeu que o monumento não encontra-se em frente ao Convento, mas dentro do prédio das Arcadas. Ainda acrescento: no prédio novo!

Quando o Prof. Dr. Alcântara Machado (clique e conheça) iniciou as reformas na já Faculdade de Direito da USP, no início da década de 30, ainda via o monumento ao Moço no Largo de São Francisco, à vista da população. Contudo, em 1935, a Prefeitura de São Paulo planejou uma reforma em toda aquela área, abrindo espaço para um maior trânsito de carros (desafogando o tráfego que ocorria na Praça da Sé). No planejamento, o monumento deveria ser simplesmente arredado para a Rua Cristóvão Colombo, próximo à Sanfran. Na prática, toda a base do monumento foi destruída (com cerca de cinco metros de altura) e a estátua armazenada no depósito da prefeitura.

Estátua ao Moço, exposta no prédio novo da Sanfran. Créditos: Sergio Brisola.

Foi só em 1940, com a conclusão das reformas na Gloriosa sob a direção do Prof. Dr. Sebastião Soares de Faria, que a estátua voltou a ver a luz. A inauguração do prédio novo contou com sua presença e, desde então, todos os estudantes, funcionários e professores da Sanfran, além de visitantes, puderam passar por lá, talvez a caminho do bandejão, e dar um olá para o Moço. Marcado para sempre na história das Arcadas, o estudante, professor e orador José Bonifácio franciscano também marca presencialmente, quem sabe para sempre, a Velha e Sempre Nova Academia.

ENTINI, Carlos. “Era uma vez em SP… monumento a José Bonifácio, o Moço”. Estadão. 2015. Disponível em: <http://m.acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,era-uma-vez-em-sp-monumento-a-jose-bonifacio-o-moco,11277,0.htm>.

GETÚLIO. “Monumento a José Bonifácio, o ‘Moço’”. Lembranças de São Paulo. 2020. Disponível em: <https://lembrasp.blogspot.com/2020/02/monumento-jose-bonifacio-o-moco-largo.html?m=>.

HERCULANO, Felipe. “José Bonifácio, o Moço”. Sampa Histórica. 2016. Disponível em: <https://sampahistorica.wordpress.com/2016/07/17/jose-bonifacio-o-moco/amp/>.

KIYOMURA, Leila. “Livro descreve as obras de arte da Faculdade de Direito”. Jornal da USP; Cultura. 2018. Disponível em: <https://jornal.usp.br/cultura/livro-descreve-as-obras-de-arte-da-faculdade-de-direito/ >.

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